© Divulgação/Superintendência Regional de Polícia Federal no Amazonas

Indígena marubo sofre tortura no Vale do Javari; autoridades cobradas

Um alarmante caso de tortura de indígena no Vale do Javari, envolvendo um membro do povo marubo, veio à tona após denúncias da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja) e da Defensoria Pública da União (DPU). O incidente, ocorrido no início deste mês, expõe a crescente vulnerabilidade dos povos originários diante da invasão de suas terras por grupos criminosos. A vítima, que estava pescando sozinha, foi brutalmente agredida por pescadores ilegais, amarrada e abandonada à deriva. Este grave episódio não só ressalta a urgência de uma proteção territorial mais efetiva na Amazônia, mas também reacende o debate sobre a atuação das forças de segurança em uma região já marcada por conflitos e pela presença de organizações criminosas que exploram ilegalmente os recursos naturais.

O ataque brutal e a busca por socorro

O ato de violência, classificado como tortura, ocorreu no dia 3 de maio, quando o indígena marubo pescava sozinho nas proximidades da aldeia Beija-Flor, dentro dos limites da Terra Indígena do Vale do Javari, no Amazonas. Segundo relatos colhidos pela Univaja, a vítima foi abordada por um grupo de pescadores ilegais que invadiram o território. Os agressores, após acusarem o indígena de ter roubado seus pertences – uma alegação que a Univaja desmentiu –, proferiram ameaças de morte, antes de amarrar suas mãos e pés e amordaçá-lo, impedindo qualquer pedido de socorro. Em seguida, os invasores abandonaram-no à deriva em sua própria canoa, subtraindo sua espingarda e seu telefone celular.

A dramática situação se estendeu por aproximadamente 24 horas. O indígena permaneceu todo esse tempo à deriva, exposto aos perigos da floresta e dos rios, sem comunicação e em uma “situação de grave perigo”, conforme a Univaja. Somente no dia 6 de maio, a entidade indígena tomou conhecimento da ocorrência e agiu prontamente. Foram acionados a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), o Ministério Público Federal (MPF) e a Polícia Federal (PF), com a solicitação urgente para que enviassem equipes ao local, visando à detenção dos suspeitos, que, segundo informações, ainda permaneciam na área da Terra Indígena.

A resposta insuficiente das autoridades e as críticas da Univaja

Apesar da urgência da denúncia e da disposição da Univaja em oferecer suporte logístico para uma possível diligência na região, a resposta das autoridades federais foi considerada insatisfatória. O departamento da Polícia Federal em Tabatinga, no Amazonas, informou à entidade que não dispunha de contingente suficiente para realizar a operação necessária. Essa falta de prontidão gerou fortes críticas por parte da Univaja, que argumentou que a demora em agir prejudicou significativamente a coleta de provas essenciais, a possível identificação dos agressores e, consequentemente, a sua detenção. A cada dia que os criminosos permanecem impunes, o ciclo de violência e impunidade se fortalece.

A Univaja expressou profunda preocupação com a contínua “presença de organizações criminosas fortemente armadas que seguem circulando livremente e praticando atos de tortura e tentativas de homicídios” na região. A entidade fez um doloroso paralelo com os assassinatos do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips, ocorridos em 2022 na mesma área, ressaltando a persistência da violência. Foi destacada, com “absoluta urgência e gravidade”, a situação da calha do alto Rio Ituí e suas imediações. Essa área é não apenas o lar de comunidades com maior grau de contato com a sociedade externa, mas também abriga povos de recente contato e até mesmo grupos em isolamento voluntário, exigindo uma “atenção especial” do Estado. A invasão dessas áreas rompe o “cordão sanitário e de segurança” que deveria ser garantido, expondo populações de altíssima vulnerabilidade imunológica e sociocultural a contatos forçados, epidemias e massacres que podem ser irreversíveis.

A intervenção da Defensoria Pública da União

Em resposta à denúncia da Univaja, a Defensoria Pública da União (DPU) também se mobilizou. A instituição, que tem como missão a defesa dos direitos dos cidadãos em âmbito federal, informou que foi acionada pela organização indígena e, de imediato, tomou providências. A DPU encaminhou um pedido formal ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, ao qual a Polícia Federal está subordinada, para que sejam adotadas “providências urgentes”. O objetivo dessas medidas é reforçar a proteção territorial na região do Vale do Javari, conter as invasões à terra indígena e, crucialmente, proteger as comunidades que ali vivem dos ataques e da pressão dos grupos criminosos.

Além de solicitar informações detalhadas sobre o caso específico de tortura, a DPU demandou do Ministério dados sobre as operações de fiscalização e repressão à pesca ilegal na calha do rio Ituí, uma das principais rotas de acesso e ação dos invasores. A Defensoria também questionou sobre a eventual mobilização da Força Nacional de Segurança Pública ou de outras estruturas federais para reforçar a proteção do vasto e vulnerável território indígena. Para a DPU, a gravidade do incidente recente transcende o âmbito de um crime individual. Ela revela a atuação de “grupos organizados envolvidos em pesca ilegal dentro da terra indígena”, além da “presença de agentes armados em área constitucionalmente protegida”, o que configura uma ameaça sistemática à soberania e aos direitos indígenas.

A posição do Ministério da Justiça e a complexidade da proteção territorial

Em nota oficial, o Ministério da Justiça e Segurança Pública informou que está acompanhando o episódio denunciado, “em articulação com os órgãos federais competentes”. Entre esses órgãos estão a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), responsável pela coordenação das ações de proteção territorial em terras indígenas, e a Polícia Federal (PF), a quem compete a investigação dos fatos criminosos. O Ministério assegurou que a colaboração entre as instituições é fundamental para dar a devida resposta ao caso e prevenir futuras ocorrências.

A pasta fez uma ressalva importante sobre a atuação da Força Nacional de Segurança Pública na região. Esclareceu que o local específico dos fatos mencionados no incidente de tortura está fora da área de atuação direta do efetivo que a Força Nacional mantém na região. No entanto, o Ministério enfatizou que a Força Nacional atua em apoio aos órgãos responsáveis pelas atividades de proteção territorial, em conformidade com o planejamento operacional estabelecido pela Funai, “inclusive por meio de patrulhamento fluvial”. Essa distinção ressalta a complexidade e a vastidão do Vale do Javari, um dos maiores territórios indígenas do mundo e uma área de fronteira, que exige uma coordenação logística e estratégica robusta para garantir a segurança de suas comunidades e a integridade de seus recursos naturais frente às inúmeras ameaças.

Apelo por ação urgente e proteção efetiva

O lamentável episódio de tortura contra um indígena marubo no Vale do Javari é um eco perturbador da crescente escalada de violência e impunidade que assola os territórios indígenas brasileiros. A denúncia conjunta da Univaja e da DPU não apenas expõe a vulnerabilidade de povos originários diante de invasões e atividades criminosas, mas também evidencia as lacunas e desafios na resposta do Estado. A morosidade e a alegada falta de recursos para conter criminosos em uma área já marcada por assassinatos e conflitos contínuos, como os de Bruno Pereira e Dom Phillips, são inaceitáveis. É imperativo que as autoridades federais, em todos os níveis, atuem com a urgência e a coordenação necessárias para garantir a proteção efetiva do Vale do Javari, salvaguardando a vida e os direitos dos povos indígenas, especialmente aqueles em isolamento voluntário, cuja existência depende diretamente da integridade de seu território.

FAQ

1. Quem são os principais envolvidos na denúncia de tortura no Vale do Javari?
A denúncia foi feita pela União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja) e pela Defensoria Pública da União (DPU). A vítima é um integrante do povo marubo, e os agressores são pescadores ilegais que invadiram o território indígena.

2. Quais foram as ações imediatas tomadas pela Univaja após o ocorrido?
Ao tomar conhecimento do incidente, a Univaja acionou imediatamente a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), o Ministério Público Federal (MPF) e a Polícia Federal (PF), solicitando o envio de equipes para deter os suspeitos.

3. Qual a importância da região do Vale do Javari no contexto da proteção indígena?
O Vale do Javari é uma das maiores terras indígenas do mundo, conhecida por abrigar a maior concentração de povos indígenas isolados e de recente contato. A proteção dessa área é crucial para a sobrevivência e a autonomia cultural desses povos, além de ser vital para a conservação da biodiversidade amazônica.

4. O que a DPU solicitou ao Ministério da Justiça e Segurança Pública?
A DPU solicitou “providências urgentes” para reforçar a proteção territorial na região, conter invasões e proteger as comunidades. Também pediu dados sobre operações de fiscalização da pesca ilegal no rio Ituí e a possível mobilização da Força Nacional de Segurança Pública.

Para um futuro onde a integridade dos povos indígenas seja respeitada e garantida, é fundamental que a sociedade civil e as autoridades se mobilizem. Apoie as organizações indígenas e cobre das autoridades federais a proteção efetiva do Vale do Javari e de todos os territórios indígenas do Brasil.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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