© Rovena Rosa/Agência Brasil

Encontro de vozes: coral guarani mbya e orquestra almai em São Paulo

A capital paulista foi palco de um evento cultural de grande relevância, marcando um significativo encontro entre o coral indígena Amba Wera, composto por integrantes do povo Guarani Mbya, e a Orquestra Almai. A apresentação, realizada na Biblioteca Mário de Andrade, no coração da cidade, celebrou o lançamento do álbum “Yy Jojou”, que em guarani significa “encontro das águas”. Este projeto inovador transcende as fronteiras musicais, representando uma colaboração profunda que busca dar protagonismo aos povos originários na cena da música erudita brasileira, um marco na valorização da cultura indígena. O disco, já disponível nas principais plataformas, é um testemunho do diálogo cultural e da riqueza das tradições musicais ancestrais.

A gênese de “Yy Jojou”: um encontro de culturas

O álbum “Yy Jojou” é o resultado de um processo colaborativo que se iniciou no período pós-pandemia, um momento de renovação e busca por novas expressões artísticas. A iniciativa partiu da Orquestra Almai, que empreendeu uma jornada à aldeia Tekoa Pyau, localizada no território indígena do Jaraguá, em São Paulo, para registrar os cânticos sagrados do coral Amba Wera. Este não foi um simples registro, mas um mergulho profundo nas raízes da cultura Guarani Mbya, buscando capturar a essência e a espiritualidade contida em cada melodia. A gravação na própria aldeia foi crucial para preservar a autenticidade dos cânticos, que são parte integrante do cotidiano e da cosmovisão do povo.

O processo criativo e a gravação na Aldeia Tekoa Pyau

A concepção do álbum “Yy Jojou” representou um desafio singular para a Orquestra Almai. Acostumada à precisão das partituras e às convenções da música clássica ocidental, a orquestra teve de adaptar sua metodologia, engajando-se em um exercício de escuta ativa e profunda. Este processo exigiu que os músicos fossem além da leitura formal, abrindo-se para a intuição, para a improvisação e, principalmente, para a compreensão da estrutura e do significado dos cânticos indígenas. A colaboração exigiu que a Orquestra Almai se colocasse em segundo plano técnico, elevando os indígenas ao centro da interpretação musical. Essa abordagem inovadora permitiu que a música clássica tradicional e a música clássica Guarani, como definida pelos envolvidos, se encontrassem em um terreno comum de respeito e mutualidade.

A voz dos protagonistas: Maurício Biguai Poty

Para Maurício Biguai Poty, uma das lideranças da comunidade Tekoa Pyau e integrante do coral Amba Wera, o projeto “Yy Jojou” tem um significado profundo e representa a concretização de um anseio antigo. “Estou muito feliz com o projeto. Para nós, é um sonho realizado, porque, para nós, é importante falar um pouco da luta. Essa música, para nós, é muito sagrada. Estou muito feliz mesmo”, expressa Poty. Sua fala ressalta não apenas a alegria pela realização artística, mas também a importância da música como ferramenta de expressão da identidade, da resistência e da espiritualidade de seu povo. Os cânticos escolhidos para o álbum são manifestações diárias da cultura Guarani Mbya, transmitindo histórias, valores e a conexão intrínseca com a natureza e o divino, elementos que agora alcançam um público mais amplo através desta colaboração sinfônica.

Rompendo paradigmas: música erudita e protagonismo indígena

O álbum “Yy Jojou” não é apenas uma fusão musical; ele representa uma virada de paradigma na forma como a música erudita brasileira interage com as culturas indígenas. Historicamente, compositores clássicos brasileiros, como Heitor Villa-Lobos, Alberto Nepomuceno e Camargo Guarnieri, inspiraram-se na música indígena, mas muitas vezes a absorveram e a adaptaram, transformando-a em sua própria criação sem o envolvimento direto e o protagonismo dos povos originários. O projeto “Yy Jojou” rompe com essa tradição, estabelecendo uma nova forma de colaboração que valoriza a autoria e a voz dos indígenas.

A inovação na música brasileira

Anselmo Mancini, compositor e um dos diretores do projeto, destaca essa distinção crucial: “Quando a gente vê músicas tanto do Villa-Lobos quanto Nepomuceno, Guarnieri, os que utilizaram a música indígena, mas eles, basicamente, se inspiram ou absorvem a música indígena e ela passa a ser deles. Então, a gente está com eles como os protagonistas, e nós fazendo o máximo para conseguir esse encontro entre a música clássica tradicional e o que a gente chama também da música clássica Guarani.” Esta declaração sublinha a intenção de reverter a histórica apropriação cultural, colocando os indígenas como os verdadeiros narradores e criadores. A Orquestra Almai atuou como um catalisador, uma ponte para que a música sagrada Guarani Mbya pudesse ser apresentada em um novo formato, mantendo sua integridade e significado.

O álbum e a apresentação ao vivo

O álbum sinfônico “Yy Jojou” reúne um total de oito músicas, cuidadosamente selecionadas a partir de quase 20 composições originais do coral Amba Wera. Cada faixa é um fragmento da vida e da espiritualidade do povo Guarani Mbya, agora enriquecido pela roupagem orquestral da Almai. O disco já está acessível em diversas plataformas de streaming, permitindo que ouvintes de todo o mundo possam desfrutar desta fusão sonora única. Para aqueles que desejam vivenciar a magia do encontro ao vivo, a apresentação gratuita na Biblioteca Mário de Andrade, em 14 de maio, às 17h, serviu como uma celebração do lançamento, oferecendo ao público a oportunidade de testemunhar a harmonia e a profundidade dessa colaboração sem precedentes, reforçando o poder da música como ferramenta de união e reconhecimento cultural.

Conclusão

O projeto “Yy Jojou”, que une o coral indígena Amba Wera e a Orquestra Almai, representa um marco significativo na cultura brasileira. Mais do que uma simples colaboração musical, ele simboliza um “encontro das águas” culturais, onde o respeito, a escuta e o protagonismo dos povos originários foram a base. Este trabalho não só enriquece o panorama musical do país com sonoridades únicas, mas também pavimenta um caminho para futuras interações artísticas que valorizem e honrem a riqueza das tradições indígenas. Ao levar a música Guarani Mbya a um público mais amplo e em um formato sinfônico, o projeto reafirma a vitalidade cultural dos povos originários e a importância de celebrar suas vozes autênticas.

FAQ

O que significa “Yy Jojou”?
“Yy Jojou” é uma expressão em guarani que se traduz como “encontro das águas”, simbolizando a fusão de diferentes culturas e sonoridades neste projeto musical.

Onde e quando ocorreu a gravação do álbum?
O álbum foi gravado na aldeia Tekoa Pyau, no território indígena do Jaraguá, em São Paulo, após o período da pandemia.

Qual a principal inovação deste projeto musical em relação à música clássica brasileira?
A principal inovação é o protagonismo dado aos povos originários. Diferente de obras históricas que apenas se inspiravam, “Yy Jojou” coloca o coral indígena Amba Wera como os verdadeiros protagonistas da criação musical.

Como posso assistir à apresentação ou ouvir o álbum?
A apresentação de lançamento ocorreu na Biblioteca Mário de Andrade. O álbum “Yy Jojou” está disponível para audição em todas as principais plataformas de streaming de música.

Descubra a profundidade de “Yy Jojou” e mergulhe no “encontro das águas” culturais. Ouça o álbum completo nas plataformas digitais e apoie a valorização da cultura Guarani Mbya.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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