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Bom senso dos governantes eliminaria a fome, diz Lula

ANUNCIO COTIA/LATERAL

A fome global, uma chaga que afeta mais de 600 milhões de pessoas em todo o mundo, poderia ser erradicada com a simples aplicação de “bom senso dos governantes”. Essa foi a avaliação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que, durante a abertura da Conferência Regional da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) para a América Latina e o Caribe, criticou abertamente a postura do Conselho de Segurança da ONU e a prioridade dada a conflitos em detrimento da segurança alimentar. O líder brasileiro enfatizou que a falta de compromisso político é o principal entrave para que o planeta consiga eliminar a fome e garantir que todos tenham acesso à alimentação necessária, destacando a urgência de uma mudança de perspectiva global.

A crítica ao Conselho de Segurança da ONU e o custo da guerra

O presidente Lula fez um apelo contundente aos chefes de Estado que compõem o Conselho de Segurança da ONU, questionando a eficácia da instituição diante dos desafios globais, especialmente no contexto da segurança alimentar. Ele argumentou que os recursos financeiros e a energia despendidos em conflitos armados poderiam, de forma mais eficiente e humanitária, ser direcionados para resolver a crise da fome. A retórica presidencial sublinhou a ironia de nações investirem pesadamente em armamentos e guerras enquanto milhões sofrem de subnutrição.

Apelo à paz e ao diálogo global

Em seu discurso, Lula propôs uma reflexão profunda: “Não precisaria ter fome, se houvesse o bom senso dos governantes do mundo.” O presidente sugeriu que os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança — China, França, Rússia, Reino Unido e Estados Unidos — poderiam, em uma simples teleconferência, debater se o caminho para a humanidade reside na guerra ou na paz, na produção de armas ou no aumento da distribuição de renda e alimentos. Essa declaração expôs a frustração com a aparente inação de algumas das maiores potências mundiais diante de um problema tão fundamental quanto a alimentação. Ele destacou que a escolha entre destinar trilhões para o combate e a produção de artefatos bélicos ou investir na alimentação e desenvolvimento humano é uma decisão política, e que o bom senso deveria prevalecer. O debate central, para Lula, é sobre a priorização da vida e da dignidade humana acima de interesses geopolíticos e militares, o que implicaria uma revisão drástica nas políticas externas de muitos países.

A inação frente à fome: falta de compromisso e voz

Lula também abordou um aspecto crucial da luta contra a fome: a invisibilidade dos famintos. Ele observou que, ao contrário de outros grupos sociais, aqueles que sofrem de insegurança alimentar severa raramente têm voz para protestar ou se organizar. “Famintos não protestam, eles não estão organizados em sindicatos, eles estão longe, muitas vezes, do centro de poder, não conseguem nem fazer passeata”, afirmou o presidente. Essa falta de representatividade e a distância dos centros de decisão política contribuem para que a questão da fome seja frequentemente negligenciada. A inação, segundo Lula, não é por falta de recursos ou conhecimento, mas por “excesso de responsabilidade e falta de compromisso” por parte dos governantes.

O papel da agricultura familiar e o financiamento público

Como solução prática para o combate à fome, o presidente Lula defendeu o aumento substancial do financiamento público para a agricultura familiar. Ele citou o reconhecimento da FAO de que o Brasil conseguiu novamente sair do Mapa da Fome, atribuindo parte desse sucesso a políticas de apoio aos pequenos produtores. Para Lula, é fundamental que o Estado ofereça crédito e incentivos para que os agricultores familiares não apenas produzam para sua subsistência, mas também gerem renda, contribuindo para a economia local e para a segurança alimentar do país. “Por que os grandes têm tanto financiamento e a gente não pode dar também para os pequenos? É apenas uma decisão”, provocou o presidente, argumentando que a distribuição equitativa de recursos é uma questão de vontade política.

O ministro do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Paulo Teixeira, copresidente da Conferência da FAO, corroborou essa visão. Ele enfatizou que “investir na agricultura familiar é decisivo no combate à fome, da pobreza e do meio ambiente”. Teixeira destacou a necessidade de políticas abrangentes que garantam acesso à terra, crédito, assistência técnica e extensão rural. Além disso, mencionou a importância das compras públicas de alimentos produzidos pela agricultura familiar, o incentivo ao cooperativismo e o fortalecimento da autonomia econômica das mulheres, dos jovens e dos povos e comunidades tradicionais. A agricultura familiar, portanto, não é apenas uma fonte de alimentos, mas um pilar essencial para o desenvolvimento sustentável e a inclusão social, capaz de gerar resiliência frente a crises econômicas e climáticas.

Progresso e desafios na América Latina

Em julho do ano passado, o Brasil, mais uma vez, obteve um marco significativo ao deixar de fazer parte do Mapa da Fome, um relatório da FAO que monitora a insegurança alimentar global. Essa conquista, reflexo de políticas públicas robustas implementadas no país, foi destacada pelo Diretor-Geral da organização, Qu Dongyu. Ele elogiou as políticas implementadas no Brasil e em outros países da América Latina, classificando-as como “extraordinárias” por seus impactos positivos na redução da fome e na promoção da segurança alimentar na região.

Brasil e as políticas de combate à insegurança alimentar

A saída do Brasil do Mapa da Fome demonstra que, com vontade política e investimentos estratégicos, é possível reverter quadros de grave insegurança alimentar. As políticas de apoio à agricultura familiar, programas de transferência de renda e o fortalecimento das redes de proteção social foram cruciais para esse avanço. No entanto, o Diretor-Geral da FAO alertou que, apesar dos progressos notáveis, a região ainda enfrenta desafios consideráveis. Qu Dongyu citou os altos preços dos alimentos, que impactam diretamente o poder de compra das famílias mais vulneráveis, os riscos climáticos, que ameaçam a produção agrícola e a sustentabilidade dos sistemas alimentares, e a redução no financiamento para a produção alimentícia. Esses fatores representam obstáculos persistentes que exigem atenção contínua e soluções inovadoras para garantir que os avanços alcançados sejam duradouros e que a segurança alimentar seja uma realidade para todos os habitantes da América Latina e do Caribe. A luta contra a fome é um processo contínuo que demanda vigilância e adaptação constante às novas realidades globais e regionais.

Conclusão

A retórica do presidente Lula e as discussões na Conferência Regional da FAO sublinham uma verdade incômoda: a fome no mundo não é um problema de escassez, mas de prioridades e compromisso político. A crítica ao Conselho de Segurança da ONU e o apelo ao “bom senso dos governantes” ressaltam a urgência de desviar recursos de conflitos para investimentos em paz, desenvolvimento e, crucialmente, segurança alimentar. A defesa intransigente da agricultura familiar e do financiamento público para pequenos produtores emerge como uma solução viável e comprovada, capaz de não apenas combater a fome, mas também de promover o desenvolvimento econômico e social inclusivo. Embora avanços significativos tenham sido feitos em países como o Brasil, os desafios persistentes, como os altos preços dos alimentos e os riscos climáticos, exigem uma ação global coordenada e uma renovada vontade política para erradicar a fome de uma vez por todas.

Perguntas frequentes (FAQ)

Qual a principal causa da fome, segundo o presidente Lula?
Segundo o presidente Lula, a principal causa da fome não é a falta de alimentos, mas sim a ausência de “bom senso dos governantes” e a falta de compromisso político em priorizar a segurança alimentar em detrimento de conflitos e interesses geopolíticos. Ele aponta para a destinação de recursos para guerras em vez de investimentos na distribuição de renda e alimentos.

Como a agricultura familiar pode ajudar a combater a fome?
A agricultura familiar é vista como parte essencial da solução. Com financiamento público adequado, acesso a terra, crédito, assistência técnica e políticas de compras públicas, ela pode aumentar a produção de alimentos, gerar renda para os pequenos produtores e fortalecer as economias locais, contribuindo diretamente para a segurança alimentar e a redução da pobreza.

Quais são os desafios atuais para a segurança alimentar na América Latina?
Apesar dos progressos, a América Latina enfrenta desafios importantes, como os altos preços dos alimentos, que afetam o acesso de populações vulneráveis; os riscos climáticos, que impactam a produção agrícola; e a redução no financiamento para a produção alimentícia, o que pode comprometer a sustentabilidade dos sistemas alimentares.

O que é o Mapa da Fome da FAO?
O Mapa da Fome da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) é um relatório que monitora e classifica os países com base nos níveis de insegurança alimentar e subnutrição de suas populações. A saída de um país do mapa indica uma melhoria significativa nas condições de acesso a alimentos e nutrição de seus cidadãos.

Conhecer e apoiar iniciativas de combate à fome é fundamental para construirmos um futuro mais justo e equitativo. Saiba mais sobre as ações da FAO e o papel da agricultura familiar em sua região.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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