A crescente integração da tecnologia na vida diária de crianças e adolescentes representa tanto oportunidades quanto desafios significativos para pais e cuidadores. Navegar pelo mundo digital exige vigilância, diálogo e estratégias bem definidas para garantir que os mais jovens possam usufruir dos benefícios da internet de forma segura e saudável. Com a preocupação crescente sobre o tempo de tela e a exposição a conteúdos inadequados, organizações como o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e a Safernet têm se mobilizado para oferecer orientações claras e detalhadas. O objetivo é capacitar adultos a guiar as novas gerações no uso seguro da internet, promovendo um ambiente online protegido e educativo. Este guia reúne as melhores práticas e conselhos de especialistas para ajudar famílias a estabelecer limites, monitorar atividades e conversar abertamente sobre os riscos e oportunidades do ambiente digital.
A crescente preocupação dos pais no ambiente digital
A auditora aposentada Maria Helena Araújo, moradora de Brasília, exemplifica a inquietação de muitos avós e pais em relação ao tempo que crianças e adolescentes passam conectados. Ao receber a neta de nove anos em sua casa, Maria Helena tem buscado ativamente formas de reduzir o tempo de tela e direcionar a atenção da criança para outras atividades, além de monitorar sua interação no ambiente digital.
Equilibrando telas e atividades offline: o dilema de Maria Helena
“Estou tentando estabelecer esse limite de, chegou da escola, fazer tarefa. Tentando fazer com que pinte, que desenhe. Coloquei na ginástica artística e agora vou colocar na catequese. São pequenas coisas ainda que eu tô estudando como fazer, como tirar. Tirar de casa, sair, programa no parque, piquenique, tudo isso tô inventando. E nada de mandar. Tudo isso na conversa, falando que as telas fazem mal… esse tipo de consciência que eu tô colocando”, relata Maria Helena. Sua abordagem proativa, baseada no diálogo e na busca por atividades alternativas, reflete a tentativa de criar um equilíbrio saudável entre o mundo físico e o digital para a criança. Essa é uma preocupação global, que levou o Unicef a elaborar um guia com dez dicas essenciais para auxiliar pais e cuidadores.
A perspectiva dos especialistas: o papel do diálogo e monitoramento
A psicóloga Bianca Orrico, Doutora em Estudos da Criança e integrante da Safernet – organização que atua há mais de 20 anos na defesa dos direitos humanos na internet no Brasil –, avalia as dicas do Unicef como “positivas” e complementa-as com pontos cruciais. Segundo ela, o uso estratégico de ferramentas de controle parental é um “aliado muito importante”, especialmente para crianças menores ou adolescentes iniciando em novas plataformas. Orrico enfatiza que o monitoramento é uma “camada extra, adicional de proteção” que, combinada com a capacidade dos adultos de estabelecer limites, evitar o uso excessivo, não compartilhar desinformação e manter uma postura respeitosa e empática online, “está ensinando cidadania digital na prática para essas crianças e adolescentes. Então, ser uma referência positiva é fundamental”.
Guia do Unicef: dez dicas para um ambiente online saudável
O Unicef, com base em recomendações da especialista em parentalidade digital Jacqueline Nesi, Doutora em Psicologia e professora de Psiquiatria e Comportamento Humano na Universidade de Brown, nos Estados Unidos, divulgou um guia abrangente com dez dicas para adultos que buscam soluções eficazes para a gestão do uso da internet por crianças e adolescentes.
Estratégias essenciais para o uso consciente da internet
Entre as dicas fundamentais do Unicef, destacam-se:
1. Conversar abertamente sobre o assunto: Estimular um diálogo contínuo sobre o que eles fazem online, com quem interagem e como se sentem.
2. Ficar atento a problemas para além do mundo digital: Observar se o uso da internet está mascarando ou exacerbando questões emocionais, sociais ou comportamentais na vida real.
3. Deixar claro o que eles podem ou não fazer no ambiente online: Estabelecer regras explícitas sobre sites, aplicativos e tipos de interação permitidos ou proibidos.
4. Definir horários do dia ou locais para o acesso: Criar uma rotina que inclua períodos sem telas e áreas da casa onde o uso é restrito (ex: proibido durante as refeições ou no quarto após certo horário).
5. Garantir que o conteúdo seja apropriado para a idade e o desenvolvimento deles: Utilizar classificações indicativas e ferramentas de filtro para assegurar que as crianças não sejam expostas a material inadequado.
6. Avisar à criança que você monitora o acesso dela: Transparência é crucial. Deixe claro que o monitoramento é uma forma de cuidado e proteção, não de desconfiança.
7. Incentivar a empatia e o respeito: Ensinar a tratar os outros online da mesma forma que tratariam offline, promovendo a gentileza e combatendo o cyberbullying.
8. Proteger a privacidade: Orientar sobre a importância de não compartilhar informações pessoais, fotos ou localização com desconhecidos.
9. Lidar com o erro de forma construtiva: Se algo der errado, abordar a situação com calma, educando sobre as consequências e como evitar futuros problemas.
10. Ser um bom exemplo: As crianças tendem a imitar o comportamento dos adultos. Se os pais limitam seu próprio tempo de tela e usam a internet de forma responsável, é mais provável que os filhos façam o mesmo.
O monitoramento parental como ferramenta de proteção
O monitoramento, quando feito de forma transparente e educativa, não significa invasão de privacidade, mas sim um compromisso com a segurança. A Safernet reforça que os menores “podem utilizar a Internet sim, porém de forma orientada e acompanhada” pelos pais, que podem “permitir o acesso com regras” para não privar os filhos da tecnologia, que é uma ferramenta fundamental no mundo contemporâneo. A chave é o acompanhamento ativo, a definição de limites claros e a constante comunicação.
Alertas e cuidados: protegendo crianças de riscos online
Além das orientações gerais, é fundamental que pais e cuidadores estejam cientes dos perigos específicos que espreitam no ambiente online e saibam como agir preventivamente.
Combate à extorsão, discursos de ódio e violência digital
Bianca Orrico, da Safernet, alerta para um ponto que exige atenção redobrada: a intimidade e a violência na rede. “A gente tá tendo aumento muito grande de casos de adolescentes, por exemplo, que estão sendo vítimas de extorsão sexual ou compartilhamento não consensual de imagens íntimas. Adolescentes que estão sendo cooptados por adultos em determinados grupos ou plataformas para promoção de discursos de ódio, de violência contra meninas e mulheres, violência contra animais”, ressalta a psicóloga. A necessidade de abordar temas sensíveis e orientar crianças e adolescentes sobre o que são violações na internet é premente. Isso inclui ensinar a identificar conteúdos maliciosos, a não interagir com estranhos que peçam informações pessoais ou fotos, e a sempre buscar ajuda de um adulto de confiança em situações de desconforto ou ameaça online.
Cidadania digital: o exemplo dos adultos é fundamental
A agência da ONU também enfatiza que nem tudo é culpa da tecnologia. É crucial que os pais permaneçam atentos ao comportamento e sentimentos dos filhos, pois a tecnologia pode, por vezes, ser um sintoma de questões mais profundas. O diálogo aberto e transparente continua sendo a melhor ferramenta para lidar com isso. Ao agirem como modelos positivos no ambiente digital, os adultos não apenas protegem as crianças de riscos iminentes, mas também as equipam com as habilidades necessárias para se tornarem cidadãos digitais responsáveis e éticos, capazes de discernir, interagir e contribuir positivamente na internet.
Construindo um futuro digital seguro e consciente
A jornada para guiar crianças e adolescentes no mundo digital é contínua e desafiadora, mas essencial. As orientações do Unicef, complementadas pelos insights de especialistas como Bianca Orrico e Jacqueline Nesi, oferecem um roteiro valioso para pais e cuidadores. A combinação de diálogo aberto, estabelecimento de limites claros, uso de ferramentas de controle parental e, acima de tudo, o papel do adulto como referência positiva e empática, são pilares para garantir que a internet seja um espaço de aprendizado e desenvolvimento, e não de riscos. É fundamental lembrar que a tecnologia não é inerentemente boa ou má; seu impacto depende de como é utilizada e da orientação que os mais jovens recebem. Ao investir tempo e esforço na educação digital, estamos construindo um futuro onde as novas gerações podem navegar com confiança e segurança no vasto universo online.
FAQ – Perguntas frequentes sobre crianças e internet
1. Qual a principal recomendação do Unicef para o uso da internet por crianças e adolescentes?
A principal recomendação do Unicef é o diálogo aberto e transparente entre pais e filhos. Conversar sobre o que eles fazem online, os riscos existentes e como se sentem é fundamental para construir uma relação de confiança e garantir a segurança.
2. Como os pais podem proteger seus filhos de riscos como a extorsão sexual online e discursos de ódio?
Para proteger os filhos, os pais devem usar ferramentas de controle parental, monitorar o acesso de forma transparente, ensinar a não compartilhar informações íntimas ou pessoais com estranhos e educar sobre os riscos de extorsão e discursos de ódio. É crucial que os filhos saibam que podem procurar os pais caso algo os incomode online.
3. É correto proibir completamente o uso da internet por crianças e adolescentes?
De acordo com a Safernet, não é recomendado proibir completamente o uso da internet. A tecnologia é uma parte intrínseca do mundo atual. O ideal é permitir o acesso de forma orientada e acompanhada, estabelecendo regras claras, limites de tempo e garantindo que o conteúdo seja apropriado para a idade, ensinando a eles a cidadania digital.
4. O que significa ser uma “referência positiva” no ambiente digital para os filhos?
Ser uma “referência positiva” significa que os adultos devem demonstrar bom comportamento online, utilizando a internet de forma responsável, ética e com respeito. Isso inclui limitar o próprio tempo de tela, não compartilhar desinformação e interagir de maneira empática, servindo como modelo para o desenvolvimento da cidadania digital dos filhos.
Para aprofundar seu conhecimento sobre segurança digital e parentalidade, consulte os recursos adicionais do Unicef e da Safernet.
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