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Master: Seis Meses de Operação Revelam Fraude Bilionária e Conexões na Cúpula Financeira

A Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal (PF), alcança nesta segunda-feira (18) a marca de seis meses de investigações intensivas. Esta força-tarefa multidisciplinar tem desvendado o que é apontado como a maior fraude contra o Sistema Financeiro Nacional (SFN) já registrada no Brasil, com um prejuízo potencial que pode ascender a dezenas de bilhões de dólares. As seis fases executadas até meados de maio trouxeram à tona uma complexa rede de ilicitudes, centralizada na figura de Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master.

Desde o início de 2024, quando as apurações foram iniciadas a pedido do Ministério Público Federal (MPF), o Poder Judiciário, notadamente o Supremo Tribunal Federal (STF), expediu 21 mandados de prisão, entre temporárias e preventivas, que incluíram o próprio banqueiro. Ações também resultaram em 116 mandados de busca e apreensão e na autorização para o bloqueio e sequestro de bens, totalizando um valor próximo de R$ 27,71 bilhões. Tais medidas foram cumpridas em sete unidades da Federação: Bahia, Minas Gerais, Piauí, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, São Paulo e Distrito Federal, demonstrando a vasta abrangência geográfica da fraude.

A Descoberta da Fraude e o Envolvimento Inicial

A primeira fase da Compliance Zero, que teve início em 18 de novembro de 2023, foi crucial para expor a mecânica da fraude. As investigações prévias da PF, que se estendiam por quase um ano, já indicavam a prática de "fabricação de carteiras de crédito sem lastro financeiro". Estas carteiras, desprovidas de garantias reais, teriam sido vendidas ao Banco de Brasília (BRB). Posteriormente, após uma fiscalização do Banco Central (BC), esses títulos foram substituídos por outros ativos, cuja avaliação técnica era considerada inadequada, sugerindo uma tentativa de mascarar as irregularidades.

Nesse contexto inicial, além de Daniel Vorcaro, outras seis pessoas foram presas, incluindo Augusto Ferreira Lima, ex-CEO e sócio do Banco Master. A gravidade das descobertas levou a 10ª Vara Federal de Brasília a determinar o afastamento de cargos do então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, e do diretor financeiro do banco estatal do Distrito Federal, Dario Oswaldo Garcia, evidenciando o impacto nas lideranças de instituições envolvidas.

Conexões Polêmicas e a Resposta Regulatória

A Operação Compliance Zero não apenas revelou a fraude em si, mas também a intrincada teia de relações que o suposto líder do esquema, Daniel Vorcaro, mantinha com figuras do meio político, criminoso e com servidores públicos de alta patente. Diretores do Banco Central, órgão encarregado da fiscalização bancária, e até mesmo agentes da própria Polícia Federal, foram mencionados na lista de contatos do banqueiro, levantando sérias questões sobre a integridade de setores críticos do Estado.

Paralelamente às investigações, o Banco Central agiu para conter o avanço da crise, oficializando a liquidação extrajudicial de diversas instituições financeiras que compunham o conglomerado Master, como o Banco Master de Investimento, Letsbank, Master Corretora de Câmbio, Will Financeira e Banco Pleno. O BC também decretou a indisponibilidade dos bens dos controladores e ex-administradores do grupo, além de instaurar o Regime Especial de Administração Temporária (Raet) no banco Master Múltiplo S/A, buscando mitigar os danos ao SFN e proteger os investidores.

A Escalada da Investigação e Novos Alvos

A intensidade da operação se aprofundou com as fases subsequentes. Em 14 de janeiro, na segunda fase da Compliance Zero, o STF expediu 42 novos mandados de busca e apreensão, com o foco se expandindo para a investigação de lavagem de dinheiro. Com a autorização do ministro Dias Toffoli, mais de R$ 5,7 bilhões em bens dos investigados foram bloqueados. Entre os alvos dessa etapa, figuraram o empresário Nelson Tanure e João Carlos Mansur, ex-presidente da gestora de fundos Reag Investimentos, indicando a ramificação da fraude para outros setores empresariais.

Um episódio notável durante esta fase foi a detenção do pastor Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, ao tentar embarcar em um voo para os Emirados Árabes, embora tenha sido liberado posteriormente. A persistência da PF e do Judiciário foi novamente demonstrada na terceira fase da operação, em 4 de março, quando Daniel Vorcaro foi novamente detido, após ter sido solto dez dias após sua primeira prisão por determinação do Tribunal Regional Federal (TRF) da 1ª Região, sublinhando a gravidade das acusações e a continuidade das provas coletadas.

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O Impacto no Fundo Garantidor de Créditos e o Cenário Atual

O desdobramento financeiro da fraude teve um impacto significativo sobre o Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Até o momento, o FGC despendeu aproximadamente R$ 49,5 bilhões para ressarcir clientes do Grupo Master, do Will Bank e do Banco Pleno. Mantido por contribuições obrigatórias de entidades financeiras associadas, o Fundo tem como missão essencial proteger o sistema financeiro, prevenir crises e salvaguardar os clientes, garantindo o pagamento de até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ em cenários de intervenção ou liquidação de instituições pelo Banco Central.

A expressiva quantia já utilizada pelo FGC ilustra a dimensão do risco que a Operação Compliance Zero buscou conter e os desafios impostos ao mecanismo de proteção dos depositantes e investidores no Brasil. A exposição da falta de lastro do Banco Master, amplamente comentada por analistas do mercado financeiro antes mesmo das ações da PF, finalmente resultou em intervenções regulatórias concretas, reiterando a fragilidade que a fraude impôs ao sistema.

Conclusão: Um Alerta ao Sistema Financeiro Nacional

A Operação Compliance Zero, em seus seis meses de atuação, não apenas expôs uma monumental fraude financeira, mas também lançou luz sobre a fragilidade e as brechas em mecanismos de controle e fiscalização. A complexidade do esquema, as conexões de alto nível e o vulto dos valores envolvidos posicionam esta operação como um marco na história da investigação de crimes financeiros no país, com potencial para redefinir protocolos de segurança e transparência.

As revelações contínuas e as múltiplas fases da operação indicam que a saga está longe do fim, prometendo mais desdobramentos e reforçando a necessidade de vigilância constante para a integridade do Sistema Financeiro Nacional. A PF e o Judiciário seguem firmes no propósito de desmantelar completamente a rede criminosa, buscando responsabilizar todos os envolvidos e assegurar que o episódio sirva de lição para o futuro da governança corporativa e regulatória no Brasil.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br