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Fibromialgia: Mobilização Nacional Pressiona por Visibilidade, Direitos e Tratamento no SUS

Pacientes, familiares e defensores da causa da fibromialgia uniram-se em diversas cidades do Brasil neste domingo (17) em uma mobilização nacional. O objetivo central foi lançar luz sobre a complexidade da síndrome, frequentemente invisível, e intensificar a cobrança por direitos fundamentais e a garantia de tratamento adequado e especializado dentro do Sistema Único de Saúde (SUS). A iniciativa busca transformar o reconhecimento legal em acesso real e qualidade de vida para milhões de brasileiros afetados.

A Força da Mobilização: Conscientização e Apoio Presencial

A capital federal foi um dos epicentros dessa mobilização, com um evento significativo realizado no Parque da Cidade. A programação abrangente incluiu desde sessões de acupuntura e liberação miofascial até orientações detalhadas sobre fisioterapia e abordagens psicológicas. O foco principal foi a conscientização, oferecendo um espaço para pacientes e público em geral trocarem informações e experiências sobre a síndrome, reforçando a importância do acolhimento e do entendimento. Ana Dantas, servidora pública e uma das organizadoras da atividade, ressaltou a natureza peculiar da doença: "É uma doença que não é visível, ela existe no nosso corpo, mas ninguém vê", enfatizando a urgência de dar maior visibilidade a essa condição e assegurar os direitos dos indivíduos que convivem diariamente com suas limitações.

Fibromialgia: Entendendo a Síndrome Crônica e Seus Múltiplos Desafios

A fibromialgia é caracterizada como uma síndrome dolorosa crônica, manifestada por dores musculares e articulares difusas que se espalham por várias regiões do corpo. Além da dor, os pacientes frequentemente reportam fadiga intensa e persistente, distúrbios do sono que não proporcionam descanso reparador, dificuldades de concentração e memória, e significativas alterações de humor. Embora não resulte em inflamações ou deformações físicas visíveis, a fibromialgia impacta drasticamente a qualidade de vida, dificultando a realização de atividades cotidianas e o desenvolvimento profissional.

A síndrome, mais prevalente em mulheres entre 30 e 60 anos, mas capaz de afetar qualquer pessoa, tem causas ainda não totalmente elucidadas. Contudo, pesquisas indicam uma relação com alterações no funcionamento do sistema nervoso central, que amplifica a percepção da dor. Fatores como estresse crônico, traumas físicos ou emocionais, quadros de ansiedade e depressão, e até predisposição genética são considerados elementos que podem contribuir para o seu desenvolvimento.

O Avanço Legislativo e a Luta por Acesso Efetivo no SUS

Nos últimos anos, o Brasil registrou um avanço importante no reconhecimento da fibromialgia. Uma lei federal de 2023 estabeleceu diretrizes claras para o atendimento a pacientes com a síndrome no SUS, prevendo uma abordagem multidisciplinar, o incentivo à divulgação de informações sobre a doença e a capacitação contínua de profissionais de saúde. Este enquadramento legal também concede às pessoas com fibromialgia os mesmos direitos da Pessoa com Deficiência (PcD), desde que aprovadas em avaliação biopsicossocial, abrindo portas para benefícios como auxílio por incapacidade temporária (auxílio-doença), aposentadoria por invalidez e o Benefício de Prestação Continuada (BPC).

Apesar desses avanços legislativos, o acesso ao diagnóstico e tratamento especializado pelo SUS ainda é um desafio significativo. Ana Dantas enfatizou a lacuna entre a lei e a realidade: "A nossa mobilização é no intuito de buscar políticas públicas, adequar a demanda da comunidade fibromiálgica no SUS." A própria Ana, que descobriu a doença há pouco mais de um ano aos 45 anos, relata as drásticas limitações impostas: "Coisas que a gente fazia ali durante 20 minutos se gasta umas três ou quatro horas para poder finalizar. É tudo muito lento, tem a questão do esquecimento, a gente esquece as coisas fácil, além da dor que afeta todo o corpo", ilustrando a urgência de uma implementação efetiva das diretrizes já estabelecidas.

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Diagnóstico, Tratamento Multidisciplinar e a Importância do Acolhimento

O diagnóstico da fibromialgia é eminentemente clínico, baseado em uma minuciosa avaliação médica e na exclusão de outras condições com sintomas similares. Os principais indicadores incluem dores persistentes por mais de três meses, sensibilidade aumentada ao toque, uma sensação constante de cansaço que o sono não alivia, rigidez muscular e episódios da chamada “névoa mental” – caracterizada por dificuldades de memória e atenção. Adicionalmente, os pacientes podem experienciar dores de cabeça crônicas, síndrome do intestino irritável e hipersensibilidade a ruídos, luzes e variações de temperatura.

O tratamento da fibromialgia é комплекс e exige uma abordagem multidisciplinar. Ele geralmente envolve uma combinação de medidas que visam controlar a dor, melhorar a qualidade do sono e tratar sintomas associados como ansiedade e depressão, frequentemente com o uso de medicamentos específicos. A prática regular de exercícios físicos, como caminhadas, hidroginástica e alongamentos, é considerada crucial para a redução dos sintomas. Terapias psicológicas, fisioterapia, técnicas de relaxamento e ajustes no estilo de vida complementam as estratégias recomendadas. Embora a fibromialgia ainda não possua uma cura definitiva, a gestão eficaz dos sintomas permite que muitos pacientes mantenham uma rotina ativa e uma qualidade de vida satisfatória. A psicóloga Mariana Avel destaca a relevância da “psicoeducação” nesse processo: "Nesse processo de abordagem da doença, a gente desenvolve a consciência sobre tudo o que envolve essa condição, as limitações. Porque afeta a autoestima de muitas mulheres, justamente porque elas ficam muito limitadas, então é muito importante saber como lidar e receber acolhimento".

A mobilização nacional em prol da fibromialgia reitera a necessidade de um olhar mais atento e humanizado para uma síndrome que, embora invisível aos olhos, impõe desafios imensos. O caminho para a plena garantia dos direitos e o acesso irrestrito a tratamentos especializados e acolhimento ainda é longo, mas a união de pacientes, profissionais de saúde e sociedade civil demonstra a força da persistência na busca por uma vida com menos dor e mais dignidade para todos os que convivem com a fibromialgia.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br