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Advogados alertam sobre golpe do Pix em processos judiciais

ANUNCIO COTIA/LATERAL

O crescente número de fraudes envolvendo a identidade de advogados tem se tornado uma preocupação majoritária no cenário jurídico brasileiro. Conhecido como “golpe do advogado”, esse esquema criminoso se baseia na manipulação de informações processuais públicas e na clonagem de perfis de profissionais do direito para enganar clientes. O objetivo final é sempre o mesmo: solicitar pagamentos de supostas taxas via Pix para liberar valores inexistentes ou fictícios, prometendo o recebimento de quantias significativas em processos judiciais. A disseminação dessa prática fraudulenta exige atenção redobrada de todos os envolvidos, desde os profissionais da advocacia até os cidadãos que buscam seus direitos na justiça, pois os criminosos agem com astúcia e utilizam dados reais para conferir credibilidade às suas mentiras, tornando a distinção entre a comunicação legítima e a fraudulenta um desafio.

O golpe do advogado: como funciona a fraude digital

A mecânica do “golpe do advogado” é engenhosa e explora a confiança que os clientes depositam em seus representantes legais, bem como a ansiedade natural pela resolução de questões judiciais. Os criminosos utilizam diversas táticas para se passar por advogados e induzir as vítimas a realizar transferências financeiras indevidas.

A tática dos criminosos e o uso de identidades

No cerne da fraude, está o uso indevido de dados pessoais e profissionais. Criminosos obtêm fotos de perfil de advogados, muitas vezes clonando números de WhatsApp ou simplesmente buscando imagens disponíveis em redes sociais e sites. Com essas imagens e nomes em mãos, eles criam novos perfis em aplicativos de mensagens, fazendo-se passar pelos advogados legítimos.

A etapa seguinte envolve o acesso a informações públicas de processos judiciais. Nos sistemas da justiça, muitos dados são de domínio público, permitindo que os golpistas identifiquem clientes, seus casos e até mesmo detalhes superficiais dos litígios. Munidos dessas informações, eles contatam as vítimas, geralmente por mensagem de texto ou WhatsApp, afirmando serem o advogado responsável pelo caso.

A abordagem inicial é frequentemente cordial, buscando estabelecer uma conexão e ganhar a confiança do cliente. Em seguida, os criminosos informam sobre a existência de valores substanciais que teriam sido “liberados” judicialmente e que estariam prontos para serem pagos. Contudo, para que o cliente possa receber essa quantia, os golpistas alegam a necessidade do pagamento de uma “taxa”, “custas processuais” ou “imposto” de valor menor, geralmente via Pix, sob o pretexto de ser uma condição indispensável para a liberação do dinheiro maior. Eles criam um senso de urgência e prometem que o pagamento resultará na imediata disponibilização dos fundos prometidos, pressionando a vítima a agir rapidamente sem verificar.

Casos emblemáticos e a amplitude do problema

A incidência do golpe do advogado não é isolada, mas um fenômeno preocupante que afeta advogados e clientes em todo o país. A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) tem monitorado a escalada dessas fraudes, que demonstram a sofisticação crescente dos criminosos.

Relatos de advogados e clientes afetados

A advogada Carla Missurino, de Araraquara (SP), é um exemplo claro da frequência e audácia dos golpistas. Seu nome e foto foram utilizados em pelo menos cinco tentativas de golpe contra seus próprios clientes. Em uma das ocorrências, um parente dela, que também é seu cliente, recebeu uma mensagem fraudulenta informando sobre um valor de mais de R$ 64 mil disponível em poder judicial e solicitando dados bancários para a suposta liberação. A desconfiança surgiu quando o golpista se dirigiu ao parente pelo nome completo, algo que Carla nunca faria, pois sempre o chama por um apelido pessoal. Esse detalhe alertou a vítima, que questionou a forma de tratamento, fazendo com que o fraudador excluísse o perfil no WhatsApp imediatamente.

Casos semelhantes são vivenciados por advogados em diversas regiões. Rodrigo Zambrano, profissional em São Carlos (SP), também teve suas fotos utilizadas por criminosos. Ele relata que a situação se tornou tão comum que “praticamente quase todos os colegas aqui de São Carlos e região, todo mês, têm um problema com essa tentativa de golpe”. Felizmente, os clientes de Zambrano não sofreram prejuízos financeiros, pois conseguiram identificar a fraude a tempo. No entanto, outros advogados, como Roquelaine dos Santos e Saulo Antônio Daniel, enfrentaram situações em que seus clientes foram de fato enganados e realizaram depósitos após receberem mensagens sobre intimações judiciais falsas.

Os dados da OAB corroboram a gravidade do cenário. Em um período recente, a seccional de São Paulo registrou 4.388 denúncias em um intervalo de alguns meses, com uma média de 292 casos reportados por mês. Em nível nacional, o ano de 2025 foi particularmente crítico, com mais de 14,6 mil denúncias recebidas pela OAB em 21 estados e no Distrito Federal. Minas Gerais, Bahia, Paraná e São Paulo se destacam como os estados com maior concentração de ocorrências, evidenciando que a fraude é uma ameaça disseminada e que exige uma resposta conjunta de profissionais, instituições e da sociedade.

Medidas preventivas e a segurança jurídica

Diante da complexidade e frequência do golpe do advogado, a adoção de medidas preventivas é essencial para proteger clientes e a reputação dos profissionais do direito. A cautela e a verificação direta são as principais ferramentas contra essa modalidade de estelionato.

O advogado Saulo Antônio Daniel, especialista em direito do consumidor, enfatiza a importância de os clientes sempre se certificarem da veracidade de qualquer comunicação diretamente com seus advogados antes de efetuar qualquer tipo de pagamento. A primeira e mais crucial orientação é nunca realizar transferências financeiras baseadas apenas em mensagens de texto ou WhatsApp sem uma confirmação por outros meios.

Entre as precauções a serem tomadas, destacam-se: manter a calma e não se afobar diante de mensagens que criam senso de urgência; prestar atenção aos detalhes, como o número de telefone de origem da mensagem, a forma como a pessoa se comunica e o seu jeito de se portar, que podem indicar inconsistências ou formalidades excessivas que não condizem com a linguagem habitual do advogado. A principal recomendação, reiterada por diversos profissionais, é: “Por via das dúvidas, ligue. É o melhor caminho”.

Advogados legítimos não costumam solicitar pagamentos de taxas judiciais via Pix, especialmente para liberar valores de processos, sem uma comunicação prévia, formal e detalhada sobre o motivo, o valor e o procedimento. Qualquer pedido de dinheiro para a “liberação” de valores sem um encontro, uma ligação telefônica confirmada ou um documento oficial com a devida explicação deve ser tratado com extrema desconfiança. É fundamental que os clientes não forneçam dados bancários ou realizem transferências antes de confirmar a autenticidade da solicitação, preferencialmente por meio de um contato telefônico direto com o número conhecido e confiável de seu advogado.

Conclusão

O golpe do advogado representa uma séria ameaça à segurança financeira e à confiança na relação entre clientes e profissionais do direito. A sofisticação dos criminosos, que utilizam dados públicos e identidades falsas, exige uma vigilância constante. A proliferação de casos em diversos estados, conforme dados da OAB, ressalta a urgência de conscientização e de medidas preventivas eficazes. A comunicação direta e a verificação de qualquer solicitação de pagamento junto ao advogado de confiança são as melhores defesas contra essas fraudes. Proteger-se significa estar informado, atento aos detalhes e sempre questionar mensagens que pareçam suspeitas ou que pressionem por ações imediatas.

Perguntas frequentes

O que é o golpe do advogado?
É uma fraude onde criminosos se passam por advogados, utilizando fotos e nomes falsos, para enganar clientes. Eles acessam informações públicas de processos e informam sobre supostos valores a serem recebidos, exigindo o pagamento de “taxas” via Pix para a liberação desses fundos inexistentes.

Como os criminosos conseguem informações sobre os processos?
Os golpistas acessam sistemas de consulta processual públicos, onde encontram informações básicas sobre os processos, nomes de partes e advogados. Com esses dados, eles criam histórias convincentes para as vítimas.

O que devo fazer se receber uma mensagem suspeita de um “advogado”?
Não realize nenhum pagamento ou forneça dados bancários. Entre em contato imediatamente com seu advogado utilizando um número de telefone ou e-mail que você já possui e confia, para verificar a autenticidade da mensagem. Nunca use o contato fornecido na mensagem suspeita.

Advogados solicitam pagamentos via Pix para liberar valores de processos?
É raro e pouco usual que advogados solicitem pagamentos de taxas diretamente via Pix, especialmente para liberar valores de processos judiciais, sem uma comunicação formal prévia e detalhada. Procedimentos financeiros em escritórios de advocacia costumam seguir protocolos claros e transparentes. Desconfie de qualquer solicitação de pagamento via Pix para “desbloquear” dinheiro.

Mantenha-se informado e proteja seus direitos. Em caso de dúvidas ou suspeitas, entre em contato imediatamente com seu advogado ou com as autoridades competentes para denúncias.

Fonte: https://g1.globo.com

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