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A Jornada de Hélida: Da Agitação Noturna ao Diagnóstico Raro de ELA

Em uma reviravolta que transformou sua vida, Hélida Patrícia de Oliveira Silva, farmacêutica de 53 anos residente em Ribeirão Preto (SP), enfrentou um longo e incerto caminho até descobrir que é portadora de Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA). A saga começou de forma intrigante, com mudanças drásticas em seu comportamento durante o sono, que evoluíram para perdas progressivas de força física, culminando em um diagnóstico que redefiniu completamente sua rotina e a colocou em uma inspiradora jornada de conscientização e resiliência.

Os Primeiros Sinais: Do Sono Agitado à Perda de Força

Há cerca de cinco anos, o sono, que antes era tranquilo para Hélida, começou a manifestar alterações inquietantes. Ela passou a ter episódios noturnos de fala, gritos e até discussões com o marido, por vezes culminando em agressões involuntárias, sem que se lembrasse dos incidentes ao acordar. Embora inicialmente não tenham soado um alarme, esses eventos foram o prenúncio de uma condição mais séria.

Paralelamente às manifestações noturnas, Hélida começou a perceber uma deterioração em sua capacidade física. Atividades cotidianas como subir escadas tornaram-se um desafio e, no início de 2021, a fraqueza muscular se intensificou, resultando em quedas frequentes e tremores. Essa progressão rápida dos sintomas físicos, somada aos distúrbios do sono, despertou uma preocupação profunda, impulsionando-a a buscar respostas médicas para a misteriosa perda de controle sobre seu corpo.

O Impacto do Diagnóstico e a Força da Maternidade

Após meses de investigação e exames, Hélida recebeu em 2021 o diagnóstico de ELA, uma doença neurodegenerativa progressiva sem cura conhecida, que ataca os neurônios responsáveis pelos movimentos voluntários. Sua formação na área da saúde significava que ela já estava ciente da gravidade e do prognóstico desafiador da condição, o que a mergulhou em um profundo choque emocional e desespero.

Contudo, a imagem de seu filho, que tinha apenas três anos na época, emergiu como a âncora primordial em meio à tempestade. A maternidade se tornou sua maior motivação, impulsionando-a a canalizar o desespero em determinação para lutar pela vida e acompanhar o crescimento do menino. Esse amor incondicional foi o catalisador para que ela reunisse forças e iniciasse o tratamento, transformando um dos dias mais difíceis de sua vida em um novo começo.

A Singularidade do Caso: ELA e a Mutação Genética SOD1

A Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA) é caracterizada pela degeneração das células nervosas do cérebro e da medula espinhal que controlam os músculos, levando a uma paralisia progressiva que afeta a mobilidade, a fala, a deglutição e, em estágios avançados, a respiração. O caso de Hélida, no entanto, apresenta uma característica ainda mais rara dentro do espectro da doença.

A farmacêutica possui uma mutação genética específica, denominada SOD1. Conforme explica o neurologista Dr. Paulo Victor Sgobbi de Souza, essa é uma condição congênita, um defeito genético presente desde o nascimento, mas que geralmente se manifesta apenas na fase adulta. A mutação SOD1 acelera a degeneração dos neurônios motores, diferenciando seu caso e fornecendo um entendimento mais aprofundado sobre a progressão da doença em seu organismo.

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Reabilitação e Resiliência: Transformando a Casa em Centro de Cuidado

Para enfrentar os efeitos da ELA e manter sua qualidade de vida, Hélida transformou sua própria residência em um centro de reabilitação. Sua rotina diária é intensiva e meticulosamente planejada, envolvendo uma equipe multiprofissional dedicada. Ela se submete a sessões regulares de fisioterapia, essenciais para preservar a mobilidade e a força muscular remanescente, buscando retardar a progressão da paralisia.

Além da fisioterapia, a farmacêutica recebe acompanhamento fonoaudiológico para manter a capacidade de fala e deglutição, e terapia ocupacional para adaptar seu ambiente e facilitar as tarefas cotidianas. O suporte psicológico é igualmente crucial, ajudando-a a lidar com o intenso desgaste emocional e mental que a batalha diária contra a ELA impõe. Hélida reconhece o esgotamento, mas sua persistência é inabalável, encarando cada tratamento como uma vitória em sua luta contínua.

O Trabalho Como Âncora Emocional e Exemplo de Superação

Mesmo diante das limitações impostas pela ELA, Hélida mantém uma postura ativa e engajada. Ela continua exercendo seu cargo de gerência em uma multinacional, adaptando-se ao trabalho remoto. Essa continuidade profissional transcende a esfera financeira, tornando-se um pilar de apoio emocional e um propósito diário que a conecta ao mundo e à sua identidade pré-doença. O trabalho oferece uma válvula de escape e um senso de normalidade em um cenário que se modifica constantemente.

Sua capacidade de adaptação e sua recusa em se render às adversidades servem de inspiração. Hélida Patrícia de Oliveira Silva não apenas enfrenta a ELA com coragem e determinação, mas também utiliza sua experiência para conscientizar sobre a doença, reforçando que, apesar dos desafios, é possível lutar e encontrar motivação para viver plenamente cada dia.

Fonte: https://g1.globo.com