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13 de Maio: Para Além da Abolição, um Chamado por Reparação e Justiça Racial no Brasil

O dia 13 de maio, oficialmente reconhecido como a data da abolição da escravatura no Brasil, transcende a mera celebração de um evento histórico. Para movimentos sociais e estudiosos, a assinatura da Lei Áurea em 1888 pela Princesa Isabel, embora um marco, foi um ato incompleto, que não endereçou o futuro de milhões de pessoas recém-libertas. Sem políticas de integração, muitos ex-escravizados foram abandonados à própria sorte, lançados nas ruas ou mantidos em condições análogas à escravidão, perpetuando um ciclo de vulnerabilidade e exclusão que ressoa até hoje.

Assim, a data é, para o movimento negro, um potente catalisador para a reflexão profunda sobre o racismo estrutural que se enraizou na sociedade brasileira. Ela serve como um lembrete contundente das desigualdades persistentes em esferas como a economia e a justiça social, e impulsiona o debate e a ação por medidas de reparação concretas. Diante dessa realidade, a sociedade civil e o parlamento brasileiro articulam iniciativas robustas que buscam, finalmente, corrigir as distorções históricas e promover a equidade.

A Herança da Escravidão no Sistema Tributário: A Campanha Justiça Tributária Já

A falha em prover condições mínimas de existência e inserção social aos negros pós-abolição não apenas criou uma base para a desigualdade, mas também permitiu que a estrutura econômica do país se desenvolvesse sem corrigir essas raízes históricas. É nesse contexto que organizações da sociedade civil, como o Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) e a Oxfam Brasil, lançaram a campanha <b>Justiça Tributária Já</b>. A iniciativa propõe enfrentar as desigualdades raciais que moldam a economia brasileira através de uma reforma tributária progressiva.

A campanha advoga pela tributação de grandes fortunas, muitas das quais possuem origens em empreendimentos escravocratas, além de altas rendas, lucros e dividendos. O objetivo é duplo: desmantelar privilégios fiscais históricos e, ao mesmo tempo, gerar recursos para aliviar a carga sobre famílias de baixa renda, que frequentemente se veem endividadas para suprir necessidades básicas. Essa abordagem busca reverter um sistema que, por décadas, tem beneficiado uma elite em detrimento da maioria.

Desvendando a Desigualdade Fiscal: Os Dados da 'Arqueologia da Regressividade'

Para embasar suas propostas, a Oxfam Brasil produziu o documento <b>"Arqueologia da Regressividade"</b>, um estudo aprofundado sobre o sistema tributário nacional. A pesquisa revela um retrato marcante das disparidades: 80% dos super-ricos no Brasil são homens brancos, conforme dados da Pnad 2024. Em contrapartida, entre os beneficiados pela isenção de Imposto de Renda, que inclui rendas de até R$ 5 mil, 44% são negros e 41% são mulheres, evidenciando onde a maior parte da população de baixa renda se concentra.

O estudo detalha ainda que mulheres negras sustentam lares com menor renda e são desproporcionalmente afetadas por tributos indiretos, enquanto um volume colossal de R$ 400 bilhões em lucros e dividendos anualmente escapa da tributação, recursos que poderiam ser utilizados para redistribuição e investimento social. A Oxfam Brasil enfatiza que o país precisa confrontar a herança da escravidão, que persiste através de um sistema tributário que, ao ignorar a história, reforça desigualdades socioeconômicas. No pós-abolição, políticas públicas negaram acesso à terra, educação e trabalho formal aos negros, optando por beneficiar imigrantes europeus com leis e incentivos, uma escolha que ainda ecoa na estrutura social.

A persistência dessa desigualdade estrutural é inegável, refletindo-se, por exemplo, na disparidade de remuneração média: homens não negros auferem cerca de R$ 6.033, enquanto mulheres negras recebem, em média, R$ 2.864, segundo dados do Ministério do Trabalho. Mesmo com a implementação de ações afirmativas, o aumento na renda da população negra ainda não é substancial. Mulheres negras com ensino superior, por exemplo, ganham significativamente menos que homens brancos com a mesma formação, uma diferença de R$ 4.837 mensais, o que ressalta como a tributação regressiva, que incide mais sobre o consumo de bens e serviços essenciais, continua a operar como um mecanismo de perpetuação da desigualdade racial, afetando desproporcionalmente pretos e pardos.

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Reparação Já: A Proposta Legislativa para o Futuro do Brasil

Em um passo crucial para a efetivação das demandas históricas, a bancada negra do Congresso Nacional, em parceria com parlamentares engajados com a justiça racial, lançou, também no dia 13 de maio, a campanha <b>Nem Mais um Dia: Reparação Já</b>. O principal objetivo é a aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 27/2024, que visa estabelecer um fundo de reparação econômica. A proposta é liderada por figuras como a senadora Benedita da Silva (PT-RJ), presidente da comissão especial que analisa a PEC; o deputado Orlando Silva (PCdoB-SP), relator; e o deputado Damião Feliciano (União-PB), autor do texto original.

A PEC 27/2024 busca inserir a igualdade racial como um direito fundamental na Constituição Federal, transformando a eliminação de todas as formas de discriminação em uma obrigação permanente do Estado. Mais do que isso, as políticas de reparação econômica e de promoção da igualdade racial passariam a ter caráter permanente. A iniciativa culmina na criação do Fundo Nacional de Reparação Econômica e Promoção da Igualdade Racial (FNREPIR), a ser gerido pelo Sistema Nacional de Promoção da Igualdade Racial (Sinapir). Este fundo será vital para financiar uma série de ações estratégicas.

Eixos de Atuação do Fundo Nacional de Reparação Econômica e Promoção da Igualdade Racial (FNREPIR)

O FNREPIR, proposto pela PEC 27/2024, terá como eixos de atuação: o incentivo a programas que fomentem a oportunidade econômica e o empreendedorismo negro; a promoção de ações diretas no combate às multifacetadas desigualdades raciais; a implementação de políticas eficazes de inclusão e justiça socioeconômica; e o suporte a projetos culturais e educacionais que valorizem a herança africana e combatam o preconceito. A aprovação desta proposta representa uma "oportunidade histórica" para o país, conforme seus idealizadores, de enfrentar de frente a dívida histórica com a população negra e construir uma nação verdadeiramente equitativa.

Conclusão: Um Futuro de Justiça e Equidade

O 13 de maio, longe de ser apenas uma data de lembrança, consolida-se como um dia de intensa mobilização e proposição. As iniciativas da sociedade civil, com a campanha 'Justiça Tributária Já', e do Congresso Nacional, com a PEC 27/2024 e a campanha 'Nem Mais um Dia: Reparação Já', convergem para um objetivo comum: transformar o reconhecimento da dívida histórica em ações concretas que desmantelem o racismo estrutural. Através de reformas tributárias progressivas e da criação de mecanismos permanentes de reparação, o Brasil busca não apenas refletir sobre seu passado, mas construir um futuro onde a igualdade racial não seja apenas um ideal, mas uma realidade vivenciada por todos os seus cidadãos.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br