© Tânia Rêgo/Agência Brasil

Morro do Salgueiro: Horta comunitária floresce com memória, cuidado e cidadania

No coração do Morro do Salgueiro, na Zona Norte do Rio de Janeiro, uma vibrante horta comunitária transformou um antigo terreno em um oásis de vida, onde a tradição se entrelaça com o sustento diário. Há um ano, a rotina de Vera Lúcia Silva de Souza, de 74 anos, conhecida carinhosamente como Tia Vera, começa cedo com a descida íngreme até a área de cultivo. Ela é uma das dedicadas integrantes do Coletivo de Erveiras e Erveiros do Salgueiro, um grupo que desde 2019 se empenha em preservar espécies e saberes ancestrais. Esta iniciativa não apenas oferece alimentos frescos e livres de agrotóxicos, mas também fortalece laços comunitários e resgata um valioso patrimônio cultural da favela carioca. A horta, parte do programa Hortas Cariocas, evidencia como o verde pode florescer em meio ao urbano.

Resgate de saberes e memórias na terra fértil
A horta do Salgueiro é mais do que um espaço de cultivo; é um portal para o passado, onde a sabedoria das gerações anteriores é cultivada com o mesmo esmero que as plantas. A dedicação de Vera Lúcia Silva de Souza, 74 anos, é um testemunho vivo dessa conexão. Sua jornada diária até a horta comunitária, enfrentando a descida do morro, é um ritual que se repete há um ano, sempre priorizando as manhãs para manejar a terra sob temperaturas mais amenas. “Molhamos primeiro e limpamos para replantar. Por causa do verão, muita coisa fracassou. Aqui pega muito sol”, explica Tia Vera, que com os anos acumulou a experiência necessária para enfrentar os desafios climáticos e garantir a prosperidade do cultivo.

A dedicação diária de uma guardiã da tradição
Para Tia Vera, a horta é um retorno às raízes. As lembranças de sua infância no alto do morro, quando remédios e temperos eram preparados em casa por sua mãe e avó, servem como inspiração constante. “Eu nasci lá no alto do morro. Eu vim para cá com 14 anos. Aqui, minha mãe e minha avó me ensinaram a plantar, a fazer um chá, um xarope, um tempero. Eu me lembro bem”, recorda, apontando para as encostas que um dia abrigaram as casas de sua família. Essa vivência familiar com a terra e as ervas medicinais transformou seu quintal em uma referência para o bairro, um espaço exuberante com plantas como saião, alfavaca, assa-peixe e ora-pro-nóbis, cujas mudas são compartilhadas generosamente com vizinhos. “Tem muita muda aqui. Umas, a gente planta no mato, outras, quando me pedem, eu doo um mucadinho “, conta, destacando a importância de compartilhar o conhecimento e os recursos para que mais pessoas possam desfrutar dos benefícios das plantas cultivadas. Com um quintal que se mantém fresco, uma realidade atípica em muitas favelas cariocas que registram temperaturas elevadas, a casa de Tia Vera, localizada nas franjas do Parque Nacional da Tijuca, serve como um santuário verde, reafirmando seu papel como guardiã da memória e da biodiversidade local.

Cultivo para a saúde e transformação social
A diversidade cultivada na horta do Salgueiro contrapõe a escassez de opções encontradas nos supermercados convencionais. Marcelo Rocha, também integrante do Coletivo de Erveiras e Erveiros do Salgueiro, ilustra essa realidade ao comparar: “É comum ir ao supermercado e encontrar apenas alface, cheiro verde e rúcula. Mas temos uma infinidade de plantas comestíveis conhecidas da minha avó, da minha bisavó, como ora-pro-nóbis, caruru, alemirão, taioba, serralha.” Essa riqueza de espécies não apenas enriquece a alimentação dos moradores, mas também resgata um saber popular que se perderia se não fosse pelo trabalho do coletivo. Sem placas ou anúncios, a horta é um segredo bem guardado, acessível àqueles que conhecem sua importância e seu potencial.

Do terreno abandonado à mesa da comunidade
A transformação da área onde hoje floresce a horta comunitária do Salgueiro é um símbolo da resiliência e capacidade de mobilização da favela. Originalmente, o terreno abrigava uma vila inteira, desapropriada devido ao risco de deslizamentos e posteriormente deixada com lixo. Walace Gonçalves de Oliveira, 66 anos, conhecido como Tio Dadá, membro ativo do coletivo, relembra a árdua tarefa de converter o local: “A gente tem aqui berinjela, alface, chicória, cenoura. Temos bastante coisa. Tem também limão e tem uma laranja que quase ninguém conhece, vermelha por dentro, a laranja sanguínea, muito boa.” A dedicação do grupo garantiu que o espaço, antes um passivo ambiental, se tornasse uma fonte vital de alimentos frescos e saudáveis. Tio Dadá, inclusive, compartilha suas preferências culinárias, destacando a versatilidade da ora-pro-nóbis: “Ora-pro-nóbis é muito bom no franguinho, na carne assada. Eu não uso no chá, não gosto”, conta ele.

A produção não se limita ao consumo interno; parte da colheita é doada para a Escola Municipal Bombeiro Geraldo Dias, garantindo que crianças da comunidade tenham acesso a alimentos nutritivos. Além disso, a relevância da horta é tal que profissionais de saúde locais indicam as ervas e alimentos cultivados ali a seus pacientes, demonstrando o impacto direto na saúde e bem-estar da população. “Tem gente que precisa especificamente de uma verdura ou legume. Aí, o pessoal do postinho manda vir buscar aqui conosco”, explica Tio Dadá, sublinhando a integração da horta com a rede de saúde local.

A horta do Salgueiro é uma das 84 hortas mantidas pelas comunidades com o apoio do programa Hortas Cariocas, da Prefeitura do Rio, criado há cerca de 20 anos. Em um levantamento recente, a Secretaria de Ambiente e Clima registrou uma produção total de 74 toneladas de alimentos por essas hortas, com a do Salgueiro contribuindo significativamente com 700 kg de colheita. A secretária de Ambiente e Clima, Tainá de Paula, enfatiza o apoio contínuo: “Temos uma entrega ininterrupta de sementes, que ficam sempre disponíveis para retirada”, assegurando a sustentabilidade da iniciativa. Segundo a prefeitura, as hortas urbanas têm sido cruciais para reduzir a ocupação irregular de terrenos ociosos e elevar os níveis de inclusão social, oferecendo aos moradores uma alimentação livre de transgênicos e agrotóxicos, um pilar fundamental para a segurança alimentar e a melhoria da qualidade de vida na cidade.

Um legado de prosperidade e união no Morro do Salgueiro
A horta comunitária no Morro do Salgueiro transcende a simples função de produção de alimentos, consolidando-se como um pilar de resiliência e identidade. Ela não apenas nutre o corpo com vegetais orgânicos e ervas medicinais, mas também alimenta a alma da comunidade, preservando tradições e fortalecendo laços entre vizinhos. Através do esforço incansável de figuras como Tia Vera e Tio Dadá, e do apoio do programa Hortas Cariocas, um terreno antes abandonado foi transformado em um espaço vibrante que reflete a capacidade de superação e organização popular. Este projeto exemplar demonstra como iniciativas locais, pautadas no cuidado com a terra e com o próximo, podem gerar impactos profundos na segurança alimentar, na saúde pública e na inclusão social, construindo um futuro mais verde e solidário para a favela carioca. A horta do Salgueiro é, em essência, um testemunho vivo da força e da memória de uma comunidade que floresce em cada canteiro cultivado.

Perguntas frequentes sobre a horta comunitária do Salgueiro

Q: O que é a horta comunitária do Salgueiro?
A: É um espaço de cultivo de plantas, ervas e alimentos no Morro do Salgueiro, Rio de Janeiro, gerenciado pelo Coletivo de Erveiras e Erveiros do Salgueiro. Ela se destaca por preservar saberes ancestrais e promover a saúde e a cidadania.

Q: Como a horta contribui para a comunidade local?
A: A horta fornece alimentos frescos, orgânicos e diversificados para os moradores, complementa a renda de seus cuidadores, doa parte da colheita para uma escola local e é um ponto de referência para profissionais de saúde que indicam suas ervas a pacientes. Além disso, transforma espaços degradados e promove a inclusão social.

Q: Qual o papel do programa Hortas Cariocas nesta iniciativa?
A: O programa Hortas Cariocas, da Prefeitura do Rio, oferece apoio contínuo à horta do Salgueiro e a outras 83 hortas urbanas na cidade. Esse suporte inclui assistência técnica e a entrega ininterrupta de sementes, garantindo a sustentabilidade e a produtividade desses espaços.

Q: Quais tipos de plantas são cultivadas na horta do Salgueiro?
A: A horta cultiva uma grande diversidade de plantas comestíveis e medicinais, muitas delas ligadas à tradição popular. Entre as mencionadas no artigo estão ora-pro-nóbis, caruru, alemirão, taioba, serralha, berinjela, alface, chicória, cenoura, limão, laranja sanguínea, saião, alfavaca, assa-peixe e boldo.

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Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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