A Avenida Paulista, coração pulsante de São Paulo, foi palco neste sábado (16) de uma manifestação vibrante e carregada de simbolismo. Com muito batuque e música, o ato relembrou os 20 anos dos tristemente célebres Crimes de Maio, uma série de eventos que marcou profundamente a história do estado e segue sem a devida responsabilização. Promovido pelo Movimento Mães de Maio e pelo Cordão da Mentira, a manifestação não apenas denunciou a impunidade local, mas também uniu vozes em solidariedade à causa palestina, ecoando um grito coletivo contra a violência de Estado e o esquecimento histórico.
Os Crimes de Maio: Duas Décadas de um Massacre Silenciado
Os Crimes de Maio de 2006 representam um dos maiores massacres urbanos da história do Brasil. Naquele período, uma onda de ataques perpetrados pelo Primeiro Comando da Capital (PCC) foi seguida por uma retaliação policial massiva e brutal, que resultou em mais de 500 mortes em todo o estado de São Paulo. Conforme detalhado em um relatório do Laboratório de Análises da Violência (LAV) da Universidade Federal do Rio de Janeiro, dos pelo menos 564 óbitos registrados, 505 eram civis e 59 agentes públicos. O estudo ressalta que a grande maioria das vítimas civis — predominantemente jovens, negros e pobres — apresentava indícios de execução sumária, com suspeita da participação de policiais em pelo menos 122 desses casos. Duas décadas se passaram, e a ausência de responsabilização efetiva por essas mortes ainda assombra a sociedade paulista.
Cordão da Mentira e Mães de Maio: Uma Aliança Pela Memória e Denúncia
O Cordão da Mentira, um bloco carnavalesco que surgiu em 2012 como um 'escracho' e ferramenta de denúncia contra as violações de direitos da ditadura civil-militar, tradicionalmente desfila em 1º de abril, o Dia da Mentira, rememorando o golpe de 1964. Contudo, neste ano, o Cordão abriu uma exceção para se manifestar novamente em maio, especificamente para clamar por justiça pelos Crimes de Maio. Segundo Thiago Mendonça, diretor de cinema e um dos coordenadores do bloco, o Cordão nasceu de uma roda de samba, da percepção de que 'várias pessoas que participaram da repressão participavam de seus espaços', e seu cortejo é um 'grito coletivo contra o esquecimento e a injustiça'.
Desde sua fundação, o Cordão da Mentira sempre contou com a presença e a força do Movimento Mães de Maio, criado por mães de vítimas da violência de Estado, especialmente as dos Crimes de Maio. Débora Maria da Silva, fundadora do movimento, cujo filho Edson Rogério Silva foi morto pela polícia em 2006, descreve o Cordão como a 'alma' do Movimento Mães de Maio. 'É através dele que a gente consegue ter combustível para seguir a luta o ano inteiro. O Cordão nos abraça. E ele escracha o que a gente vem denunciando. Ele também serve para a gente ter consciência de que a ditadura não acabou', afirmou Débora, sublinhando a importância vital dessa parceria para a continuidade da luta por direitos humanos no país.
Solidariedade Global: Da Periferia Paulista à Causa Palestina
Um aspecto marcante do ato deste ano foi a decisão de unificar as pautas, estendendo a denúncia da violência estatal brasileira para a solidariedade com a causa palestina. Diversos palestinos se juntaram à manifestação, protestando contra a Catástrofe Palestina, ou Nakba, que completou 78 anos e se refere ao deslocamento forçado de palestinos durante a criação do Estado de Israel. Thiago Mendonça explicou a decisão da união: 'Resolvemos unificar o ato pensando que a estrutura toda de repressão de Israel se reflete também nessa máquina de moer gente que é a polícia brasileira'.
A fundadora do Movimento Mães de Maio, Débora Maria da Silva, reforçou essa conexão transnacional da violência, declarando: 'Também estamos aqui pela causa palestina porque a bala que cai lá também cai aqui. A bala que mata lá também mata aqui, na nossa periferia'. Essa união de vozes e causas, que partiu do Parque Trianon, em frente ao MASP, em caminhada até o restaurante e centro cultural Al Janiah, reflete a percepção de que a luta contra a opressão e a impunidade transcende fronteiras geográficas, conectando experiências de dor e resistência em diferentes partes do mundo.
O Legado da Luta: Ocupar as Ruas e Romper com a Mentira
A manifestação na Avenida Paulista, com a presença de mais de 60 mães de vítimas da violência em todo o Brasil, destacou a importância de manter viva a memória e a denúncia. O ato simboliza que, vinte anos após os Crimes de Maio, a busca por justiça está longe de terminar, sendo uma questão central para a construção do país que se deseja. Como expressa o comunicado do Cordão da Mentira, 'lembrar é enfrentar e ocupar as ruas e romper com a mentira'. Através da arte, da música e da voz unificada de movimentos sociais e ativistas, o protesto reafirma o compromisso inabalável com a verdade, a memória e a justiça, contra qualquer forma de opressão e impunidade que persista.
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