A memória da avó Antônia, dedicada às plantações de algodão, ecoa nas palavras de Claudinês Lopes, de 32 anos. Nascida e criada na comunidade quilombola do Machadinho, em Paracatu (MG), Antônia faleceu aos 99 anos, carregando o peso de uma injustiça jamais reparada. Sua vida foi marcada pela dolorosa expulsão de sua terra natal devido à instalação de uma mineradora na região, um episódio que a neta, hoje presidente da associação de moradores local, cresceu ouvindo e que impulsiona a busca atual por justiça.
O Êxodo Quilombola e a Ascensão da Mineração
Há duas décadas, a multinacional canadense Kinross Gold Corporation se estabeleceu no território de Paracatu para explorar ouro e prata na mina Morro do Ouro. A instalação da infraestrutura e de uma barragem de rejeitos resultou na desterritorialização forçada de diversas famílias quilombolas. Além do Machadinho, comunidades como Amaros e São Domingos também foram severamente impactadas. Estima-se que cerca de 1,3 mil famílias foram atingidas, perdendo suas raízes e modos de vida tradicionais.
A história de luta dessas comunidades é antiga. Em 2004, Machadinho e Amaros obtiveram a certificação da Fundação Cultural Palmares, e o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) iniciou processos de regularização territorial no ano seguinte. Contudo, esses esforços foram abruptamente interrompidos pela ocupação das terras pela empresa e por grileiros, impedindo a concretização do reconhecimento de uma área total de aproximadamente 2,2 mil hectares.
A Mobilização do Ministério Público Federal e a Busca por Acordo
Em um desenvolvimento recente, o procurador regional da República José Adércio Leite Sampaio esteve em Paracatu, liderando esforços para negociar um acordo de reparação com a mineradora. O foco é resolver os danos socioambientais, territoriais e culturais infligidos às comunidades quilombolas. A negociação visa não apenas a indenização, mas o reconhecimento oficial das comunidades, a garantia de seus direitos territoriais e a definição de critérios justos para reassentamentos.
A importância dessas conversações é sublinhada pelo fato de que um julgamento anterior, em agosto, teve votos desfavoráveis às indenizações. O procurador Sampaio solicitou a suspensão do processo por 60 dias, visando um entendimento até novembro, e promoveu encontros com os representantes das três comunidades, incluindo uma reunião com quase 400 moradores do Quilombo do Machadinho. O advogado Guilherme Bicalho, que representa os quilombolas, estima que o valor da indenização possa variar entre R$ 500 milhões e R$ 1,2 bilhão.
Impactos Ambientais e a Vulnerabilidade das Comunidades
Os efeitos da operação da mina vão além da perda territorial. A poeira constante gerada pelas atividades minerárias atinge as moradias e tem causado sérios problemas respiratórios na população local. Avaliações técnicas e perícias do Ministério Público Federal (MPF) confirmaram a presença de níveis elevados de arsênio em amostras de urina de moradores e no material particulado suspenso no ar nas proximidades da mina, evidenciando o risco à saúde pública.
A escala das barragens de rejeitos também levanta preocupações. A estrutura do complexo Morro do Ouro tem capacidade licenciada para 750 milhões de metros cúbicos de rejeitos, um volume mais de 60 vezes superior ao da barragem que se rompeu em Brumadinho em 2019. Somada à Barragem Santo Antônio, o complexo acumula impressionantes 1,2 bilhão de metros cúbicos, destacando o potencial risco ambiental e a sobrecarga imposta à região. Enquanto isso, o MPF indicou que a mineradora registrou um lucro líquido global de US$ 2,39 bilhões (equivalente a R$ 14,73 bilhões) em 2025, com quase 30% desse valor proveniente da unidade de Paracatu.
A desterritorialização resultou em profunda vulnerabilidade para as famílias. Do Machadinho, 600 famílias se declaram prejudicadas; em Amaros, são 500; e no Quilombo de São Domingos, que se situa na cava da mina e na área urbana, 186 famílias. Claudinês Lopes, neta de Antônia, relata que muitas famílias vivem hoje espalhadas e em condições precárias, distantes de suas terras originais, que, dadas as transformações, não podem mais ser devolvidas.
Rumo à Reparação Integral e Resgate da Dignidade
O Ministério Público Federal reafirma seu compromisso em construir uma solução que não apenas indenize, mas resgate a dignidade e garanta a reparação integral às populações que tiveram seus territórios invadidos e seus modos de vida fragmentados. Para o procurador José Adércio Sampaio, o objetivo é assegurar o direito à terra, uma justa indenização e a segurança para aqueles que sofrem os graves impactos diários da mineração.
A espera por justiça, que marcou a vida de Antônia e de tantos outros ancestrais, mobiliza hoje as novas gerações. A perspectiva de um acordo até novembro renova a esperança de que, após duas décadas, a reparação chegue e permita que as comunidades quilombolas de Paracatu possam reconstruir suas vidas com a segurança e o reconhecimento que lhes foram negados por tanto tempo.
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