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© Paulo Pinto/Agência Brasil

Tom Zé: Aos 90 Anos, o Inquieto Desbravador de Sons Continua a Inovar na Música Brasileira

A curiosidade inata e uma percepção aguçada para o ordinário definem a trajetória artística de Tom Zé, um dos nomes mais singulares da música brasileira. Desde a imersão em 'Os Sertões' na juventude até a rotina de jardineiro em São Paulo, sua vida se entrelaça com a capacidade de transmutar o cotidiano em arte sonora, como evidenciado em canções que elevam mensagens prosaicas, a exemplo de 'Aviso aos Passageiros'. Aos 90 anos, o baiano-paulistano não só celebra uma longa jornada, mas segue em plena atividade criativa, reafirmando seu status de eterno descobridor.

Longevidade Criativa e a Filosofia do 'Inquieto Jardineiro'

Em reconhecimento à sua obra e persistência, a Caixa Cultural em São Paulo abriga a exposição gratuita 'Tom Zé – 90 anos do Inquieto Jardineiro de Sons', um mergulho interativo em seu universo, disponível até 13 de dezembro. Questionado sobre a energia para compor, criar e se apresentar em palco nesta idade, o músico revela uma disciplina pessoal: práticas matinais inspiradas em saberes orientais, focadas no bem-estar integral. Esse regime, segundo ele, é a chave para a vitalidade que o mantém ativo e produtivo, cultivando não apenas as plantas do prédio, mas também sua própria vida e arte.

As Raízes Tropicalistas e a Identidade Paulistana em Sua Obra

Nascido Antônio José Santana Martins em 11 de outubro de 1936, no sertão baiano de Irará, Tom Zé deu os primeiros passos formais na música ao ingressar em primeiro lugar na Escola de Música de Salvador. Na capital baiana, forjou laços cruciais com figuras que viriam a definir uma era, como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia e Gal Costa. Juntou-se ao movimento tropicalista em São Paulo, deixando sua marca no seminal álbum 'Tropicália ou Panis et Circencis', de 1968, mesmo ano em que lançou seu disco de estreia, 'Grande Liquidação', e conquistou o 4º Festival de Música Popular Brasileira com 'São, São Paulo'.

São Paulo não foi apenas um palco para Tom Zé, mas uma musa constante, permeando suas composições com referências urbanas, como em 'Augusta, Angélica e Consolação' e 'A Briga do Edifício Itália com o Hilton Hotel'. Sua marca registrada, a experimentação sonora, transcendeu o convencional, utilizando desde uma enceradeira quebrada até a invenção do 'buzinório', um instrumento peculiar que o público pode vislumbrar na exposição. A curadora Neuseli Martins ressalta sua capacidade de inspirar gerações, destacando sua busca incessante por novas perspectivas e descobertas artísticas.

Da Obscuridade à Redescoberta Internacional

Em meados dos anos 1970, a ousadia de Tom Zé o levou a explorar caminhos ainda mais experimentais, desconstruindo estruturas musicais em fragmentos sonoros. Essa abordagem vanguardista, à época, foi considerada 'experimental demais', resultando em um período de esquecimento por parte da mídia até a década de 1980. O ressurgimento veio com a intervenção do músico David Byrne, ex-líder da banda Talking Heads, que descobriu o álbum 'Estudando o Samba' e o lançou no mercado internacional, catapultando a obra do brasileiro para um público global.

A redescoberta por Byrne impulsionou o retorno de turnês e gravações na década de 1990, consolidando seu status de ícone cult. Músicos que o acompanharam, como Jarbas Mariz, que tocou e gravou com Tom Zé por 32 anos, atestam sua influência única. Mariz destaca lições valiosas como a exploração da dinâmica na música, a capacidade de transformar qualquer objeto em fonte sonora e a introdução de conceitos inovadores, como o 'bandolim percussivo', demonstrando a natureza didática e inspiradora de Tom Zé para seus colaboradores.

Um Legado em Constante Evolução

Mesmo após décadas de carreira, Tom Zé não desacelera. Seu último álbum de estúdio, 'Língua Brasileira', foi lançado em 2022, e sua produtividade recente continua a surpreender. Neste 9 de outubro, um álbum ao vivo de um show gravado no Sesc há 30 anos foi disponibilizado. Em agosto, a música inédita 'Futuro Fruto' surgiu de uma colaboração com Marcelo Segreto e Loretta, músicos de gerações distintas. Esses lançamentos recentes são a prova irrefutável de que, aos 90 anos, Tom Zé permanece um manancial de invenção e uma força vital na música brasileira, dialogando com o passado enquanto aponta para o futuro da arte sonora.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br