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© Marcelo Camargo/Agência Brasil

Vacina HPV: Estudo Revela Queda Expressiva de Lesões Pré-Cancerosas em Adolescentes no SUS

A vacinação contra o Papilomavírus Humano (HPV) no Sistema Único de Saúde (SUS) tem demonstrado um impacto notável na saúde pública brasileira. Uma pesquisa recente, divulgada na prestigiada revista científica Human Vaccines & Immunotherapeutics, aponta para uma redução de quase 78% nas consultas por lesões pré-cancerígenas de alto grau no colo do útero em adolescentes, após o início da imunização. Este achado robustece a evidência da eficácia e da importância fundamental do imunizante na prevenção de uma das principais causas de câncer feminino no país.

O Marco da Imunização e Seus Resultados Concretos

O programa de vacinação contra o HPV no SUS teve início em 2014, inicialmente focado em crianças e adolescentes do sexo feminino, e foi ampliado em 2017 para incluir também o sexo masculino. Atualmente, a vacina é administrada na faixa etária dos 9 aos 14 anos, e os dados analisados pela pesquisa revelam uma mudança radical na incidência das lesões precursoras. Enquanto em 2011 foram registradas 474 primeiras consultas de adolescentes de 15 a 19 anos devido à doença, e 603 em 2015, logo após o lançamento da vacina, os anos subsequentes testemunharam uma queda vertiginosa, com 299 atendimentos em 2019 e apenas 136 em 2023. A taxa de consultas por 100 mil adolescentes, um indicador que ajusta as variações populacionais, despencou de 7,1 em 2015 para 1,8 em 2023, um declínio expressivo e restrito a esta faixa etária, diretamente correlacionada ao público-alvo da vacinação em massa.

Milhares de Casos Evitados e a Mecânica da Prevenção

A pesquisa não apenas quantifica a redução, mas também estima o número de lesões que foram efetivamente evitadas. Com base na curva de casos anterior à vacinação, projeta-se que, de 2011 a 2019, o total de primeiras consultas poderia ter chegado a 7.688. No entanto, o SUS registrou 2.620, o que significa que aproximadamente 5 mil casos de lesões pré-cancerígenas foram prevenidos graças ao imunizante. O Papilomavírus Humano é amplamente reconhecido como o principal agente etiológico do câncer de colo do útero, doença que se desenvolve a partir de neoplasias intraepiteliais cervicais de alto grau não tratadas. Ao prevenir a infecção pelo vírus, a vacina atua na raiz do problema, impedindo o surgimento dessas lesões que, se não identificadas e tratadas, podem evoluir para um quadro oncológico.

Cenário da Saúde Sexual e o Desafio do Câncer Cervical

Para contextualizar a queda das lesões de alto grau, os pesquisadores analisaram também as consultas por outras infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) no mesmo grupo etário. Identificou-se um movimento oposto: a taxa de procura por serviços médicos para outras ISTs saltou de 1,7 em 2015 para 10,8 em 2023. Esse contraste reforça que a diminuição dos casos de lesões cervicais não é resultado de mudanças gerais nos hábitos de saúde sexual ou na utilização dos serviços, mas sim um efeito direto e específico da vacinação contra o HPV. O câncer de colo do útero permanece um grave problema de saúde no Brasil, sendo o terceiro tipo mais incidente entre as mulheres, com cerca de 19 mil novos diagnósticos e 7 mil óbitos anuais. A Organização Mundial da Saúde (OMS) vislumbra a erradicação da doença em algumas décadas, um objetivo que depende crucialmente de altas coberturas vacinais, rastreamento eficaz (como o Papanicolau) e tratamento adequado das lesões precursoras.

Caminhos para o Futuro: Sustentabilidade e Ampliação da Cobertura

Os dados analisados, provenientes do Sistema de Informações Ambulatoriais de Saúde e coletados por pesquisadores da farmacêutica MSD, representam um "indicador promissor do impacto precoce da vacinação contra o HPV". Contudo, para que esses avanços sejam sustentados e ampliados, é imperativo manter altas coberturas vacinais e promover o resgate de jovens que não foram imunizados na idade correta. Há uma sugestão para que o governo federal considere expandir gradualmente a faixa etária contemplada pela vacinação. Atualmente, o Ministério da Saúde já realiza campanhas de resgate para jovens de até 19 anos e disponibiliza o imunizante para populações mais vulneráveis, incluindo pessoas com histórico de lesões pré-cancerígenas, vítimas de violência sexual e usuários de profilaxia pré-exposição (PrEP) para HIV.

Além do câncer de colo do útero, o HPV é um fator de risco significativo para outros tipos de câncer, como os de pênis, ânus, vagina e orofaringe. Estima-se que cerca de 80% das pessoas terão contato com o vírus em algum momento da vida, embora apenas alguns subtipos possuam potencial cancerígeno. A vacinação é a estratégia mais eficaz para prevenir a infecção, mas exames preventivos regulares, como o Papanicolau, e a pronta avaliação de quaisquer verrugas ou outros sinais, continuam sendo ferramentas essenciais para evitar a progressão de lesões pré-cancerígenas para o câncer.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br