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© Francisco Moreira da Costa/Divulgação

Legado e Inovação: Família da Escultora Conceição dos Bugres Apresenta Obras Inéditas no Rio

O Rio de Janeiro se prepara para receber uma exposição que celebra a continuidade e a evolução da arte popular brasileira, através da obra de Sotera Sanches e seu filho, Mariano Neto. Herdeiros artísticos da renomada escultora Conceição dos Bugres, a família apresenta, pela primeira vez na capital fluminense, peças que dialogam com a tradição de sua matriarca, ao mesmo tempo em que revelam abordagens contemporâneas na mostra “Sobre bugres e totens: a arte de Sotera Sanches e Mariano Neto”.

A Herança Artística de Conceição dos Bugres

Nascida no Rio Grande do Sul em 1914, Conceição Freitas da Silva Antunes, mais conhecida como Conceição dos Bugres, imortalizou-se na história da arte brasileira por suas esculturas em madeira, que retratavam figuras indígenas denominadas bugres. Sua obra, centrada nesse tema singular, a estabeleceu como uma das mais significativas artesãs da Região Centro-Oeste, com suas peças sendo reconhecidas como símbolos máximos da cultura e identidade de Mato Grosso do Sul.

Após seu falecimento em 1984, a repercussão da arte de Conceição transcendeu as fronteiras regionais. Seus trabalhos, que já haviam obtido reconhecimento local em vida, alcançaram uma valorização exponencial, integrando hoje acervos de instituições prestigiadas como o Museu de Arte de São Paulo (MASP) e o Museu Afro. O Museu de Folclore Edison Carneiro, aliás, também possui algumas de suas obras em sua coleção permanente, demonstrando a relevância duradoura de sua contribuição para o patrimônio cultural brasileiro.

A Tradição Familiar em Novas Mãos

A continuidade da arte dos bugres foi uma missão abraçada pela família. Inicialmente, o marido de Conceição, Abílio Freitas da Silva, e o filho Ilton Silva, deram prosseguimento à produção. Atualmente, é o neto, Mariano Antunes Cabral Silva — mais conhecido como Mariano Neto —, quem lidera essa tradição, produzindo esculturas inspiradas diretamente nas criações de sua avó. Embora Mariano tenha explorado outros estilos artísticos, como sereias, ele optou por se dedicar exclusivamente aos bugres após a morte de Conceição e Abílio, perpetuando o legado familiar.

A matriarca da nova geração de artistas, Sotera Sanches, mãe de Mariano Neto e nora de Conceição dos Bugres, também é escultora e tem um papel fundamental na produção dos bugres. Contudo, Sotera se destaca por sua própria linha artística, os totens. Estas esculturas são entalhadas em madeira crua, sem a adição de cera ou tinta, técnica que difere da abordagem de Conceição. Embora suas peças de maior porte não pudessem ser transportadas para a exposição no Rio, o público terá a oportunidade de apreciar suas esculturas de parede, que revelam sua assinatura artística marcante, enraizada na inspiração das pilastras de sua casa no Mato Grosso do Sul.

Exposição “Sobre Bugres e Totens” no Museu de Folclore

A exposição “Sobre bugres e totens: a arte de Sotera Sanches e Mariano Neto” será inaugurada nesta quinta-feira, 9 de maio, às 17h, com a presença de Mariano Neto. O evento acontece na Sala do Artista Popular do Museu de Folclore Edison Carneiro, equipamento cultural que faz parte do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (CNFCP), uma unidade especial do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

A mostra estará aberta ao público de terça a sexta-feira, das 10h às 18h, e aos sábados, domingos e feriados, das 11h às 17h, com entrada gratuita, até o dia 9 de setembro. É uma oportunidade única para o público carioca e visitantes conhecerem de perto a continuidade e a inovação da arte popular, através da história de uma família dedicada ao entalhe em madeira.

Fomento à Arte Popular e Comércio Justo

Um aspecto relevante da exposição é a possibilidade de aquisição das obras e do catálogo pelos visitantes. Os preços são definidos diretamente pelos artistas, seguindo o princípio do comércio justo, garantindo que o valor arrecadado beneficie predominantemente o criador, com apenas uma pequena porcentagem destinada à administração da loja do museu. Essa iniciativa faz parte de um ciclo de exposições que o Museu de Folclore Edison Carneiro promove a cada três meses, com o objetivo de valorizar e comercializar a produção de artistas populares de todo o Brasil.

O Museu de Folclore Edison Carneiro, por meio de seu projeto Sala do Artista Popular, atua há mais de 40 anos na documentação e difusão do “modo de fazer” da obra de artistas brasileiros, realizando pesquisas, documentação fotográfica e vídeos que acompanham as mostras. A pesquisadora Flávia Klausing Gervásio ressalta que o intuito é promover a diversidade das regiões e técnicas do Brasil em cada ciclo de exposições. A própria Conceição dos Bugres teve seu trabalho documentado na década de 1970 pelo Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular, um mapeamento que, através de registros fotográficos, preservou a memória de seu ateliê e que hoje compõe parte do catálogo da exposição, solidificando a ponte entre passado, presente e futuro da arte popular.

Conclusão

A exposição “Sobre bugres e totens” não é apenas uma mostra de esculturas em madeira; é um testemunho vivo da resiliência da arte popular brasileira e da força de um legado familiar. Ao trazer as obras de Sotera Sanches e Mariano Neto para o Rio de Janeiro, o Museu de Folclore Edison Carneiro reafirma seu compromisso com a valorização de artistas que, através de suas mãos e sua herança, continuam a contar as histórias e a moldar a identidade cultural do Brasil, garantindo que a voz e a visão de Conceição dos Bugres ressoem nas novas gerações de criadores.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br