O governo federal anunciou a revogação do Decreto 12.600, editado no ano passado, que previa estudos para a concessão à iniciativa privada das hidrovias dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins, na Amazônia. A decisão, comunicada nesta segunda-feira (23) pelos ministros Guilherme Boulos, da Secretaria-Geral da Presidência, e Sônia Guajajara, dos Povos Indígenas, marca um importante recuo do executivo frente à intensa mobilização social. A medida atende à principal reivindicação de povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos, que há mais de um mês organizavam protestos contra a desestatização dos corredores logísticos. A escuta ativa e o diálogo foram apontados como pilares para a reavaliação governamental, reafirmando o compromisso com as comunidades tradicionais e a proteção ambiental na região amazônica, culminando na revogação do decreto.
A revogação e o diálogo governamental
A decisão de revogar o Decreto 12.600 é o resultado direto de uma intensa campanha de protestos e reivindicações liderada por povos indígenas e comunidades tradicionais da Amazônia. Desde a edição da norma, no ano passado, o descontentamento cresceu, culminando em mobilizações por diversas regiões do país. A principal demanda era a anulação do decreto que autorizava estudos para a concessão de trechos estratégicos dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins à iniciativa privada, sob o argumento de que tais projetos trariam impactos irreversíveis e violariam direitos ancestrais.
Os motivos da decisão
As comunidades, especialmente as que habitam a região do Baixo Tapajós, próximo a Santarém, no Oeste do Pará, foram as mais vocais na oposição. Há mais de um mês, grupos indígenas organizaram uma série de protestos contundentes, que ganharam visibilidade nacional e internacional. Entre as ações de destaque, esteve a ocupação do escritório da multinacional do agronegócio Cargill no Porto de Santarém, às margens do rio Tapajós, em um ato simbólico contra o avanço do agronegócio e a infraestrutura associada em seus territórios. Além disso, manifestações se espalharam para grandes centros urbanos como São Paulo e a capital federal, onde um grupo de indígenas manteve um acampamento em Brasília para pressionar o governo e sensibilizar a opinião pública sobre as pautas ambientais e sociais.
O ministro Guilherme Boulos, da Secretaria-Geral da Presidência, detalhou o processo que levou à revogação. “Os povos indígenas vêm de uma manifestação de mais de 30 dias questionando o decreto, apontando os efeitos que poderiam ter para suas comunidades, também para quilombolas e ribeirinhos”, afirmou Boulos em coletiva de imprensa. Ele destacou o diálogo contínuo e aprofundado entre a Secretaria-Geral da Presidência e o Ministério dos Povos Indígenas, que, após ouvir diversas posições dentro do governo e considerar as manifestações das comunidades, firmou a decisão. Boulos enfatizou a postura do governo, declarando: “Esse é um governo que tem compromisso com a escuta do povo, com a escuta dos trabalhadores, com a escuta dos povos indígenas. Esse é um governo, inclusive, que leva a escuta ao ponto de recuar de uma decisão própria, por entender, compreender a posição desses povos. Esse não é o governo que passa a boiada, esse não é o governo que passa por cima da floresta, que passa por cima dos povos originários.”
A notícia da revogação foi recebida com grande comemoração pelas organizações indígenas nas redes sociais e nas comunidades. Para esses grupos, a decisão representa uma vitória significativa na luta pela defesa de seus territórios e modos de vida, além de um reconhecimento da importância de sua voz nas políticas públicas que afetam diretamente a Amazônia e o futuro de seus habitantes.
O contexto das hidrovias na Amazônia
As hidrovias na região amazônica são reconhecidas como um modal aquaviário de grande potencial logístico, crucial para o escoamento de produtos do agronegócio, sobretudo os originários do Mato Grosso, que utilizam os portos do Pará para exportação. Essa infraestrutura é vista por setores econômicos como vital para a competitividade da produção nacional e para a inserção do Brasil no comércio global. No entanto, o avanço desses projetos de desenvolvimento infraestrutural frequentemente colide com os direitos e os interesses das comunidades tradicionais que vivem ao longo das margens dos rios e que dependem diretamente desses ecossistemas para sua subsistência e cultura.
Importância econômica e desafios socioambientais
A resistência aos projetos de desestatização e dragagem de rios é particularmente forte entre as populações ribeirinhas e indígenas, que têm suas vidas intrinsecamente ligadas aos rios e florestas. No Baixo Tapajós, por exemplo, estima-se que cerca de 7 mil indígenas de 14 etnias diferentes residam, conforme dados do Conselho Indígena Tapajós Arapiuns (CITA), que representa essas comunidades. Para esses povos, os rios não são apenas corredores de transporte, mas elementos centrais de sua cultura, espiritualidade e subsistência, fornecendo alimento, água e meios de locomoção. A proposta de concessão das hidrovias, somada à realização de obras de dragagem – que visam aprofundar o leito dos rios para permitir a passagem de embarcações maiores, mesmo em períodos de seca – gerou profundas preocupações.
As entidades indígenas da região criticam veementemente a ausência de estudos ambientais adequados e a falta de avaliação dos impactos cumulativos dessas intervenções. Eles alertam para uma série de riscos ambientais e sociais, que incluem a alteração dos ecossistemas aquáticos, a redução da oferta de pesca, essencial para a segurança alimentar, o aumento da erosão das margens dos rios, a ressuspensão de substâncias contaminantes depositadas no fundo do rio e a possibilidade de danos irreversíveis a um dos principais corredores ecológicos da Amazônia. A integridade dos territórios tradicionais, os modos de vida e a espiritualidade desses povos estariam diretamente ameaçados por tais projetos, conforme argumentam, defendendo a necessidade de um desenvolvimento que respeite as especificidades e a fragilidade do bioma amazônico.
Histórico de compromissos e reivindicações
A recente revogação do decreto não é um evento isolado, mas se insere em um histórico de diálogo e, por vezes, de confrontos entre o governo e os povos indígenas a respeito dos projetos de infraestrutura na Amazônia. O governo federal já havia sinalizado, em ocasiões anteriores, a necessidade de uma abordagem mais sensível e consultiva em relação a esses temas, reconhecendo a importância da participação dos povos originários nas decisões que afetam seus territórios e culturas.
A Convenção 169 da ONU e a consulta prévia
No ano passado, após um protesto marcante de indígenas Munduruku que chegou a interditar a entrada da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), realizada em Belém, o governo havia se comprometido a realizar a consulta prévia aos povos do Rio Tapajós sobre o projeto de hidrovia na região. Este compromisso está em consonância com a Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), da qual o Brasil é signatário, que estabelece o direito dos povos indígenas e tribais de serem consultados, de forma livre, prévia e informada, sobre medidas legislativas ou administrativas suscetíveis de afetá-los diretamente, garantindo sua participação nos processos decisórios.
A ministra Sônia Guajajara reafirmou a importância desse princípio ao declarar: “Para nós, é considerar o direito à consulta, livre, plena e informada, o direito de escuta, como foi anunciado em novembro na COP30, em diálogo com eles”. A ministra reiterou o compromisso do governo com o respeito à Convenção 169 e o direito de escuta dos povos originários, destacando a importância da deliberação conjunta para a construção de políticas mais justas e sustentáveis.
Em uma ação antecedente à revogação do decreto, o governo já havia decidido, no início de fevereiro, suspender o processo de contratação de uma empresa para realizar a dragagem do leito do Rio Tapajós. Essa obra, que permitiria a passagem de embarcações de maior porte mesmo durante os períodos de menor nível do rio, era também alvo de forte oposição por parte das comunidades indígenas e ambientais devido aos seus potenciais impactos ecológicos e sociais. A suspensão já indicava uma flexibilização da postura governamental frente às pressões e evidenciou a complexidade e a sensibilidade dos projetos de desenvolvimento na Amazônia que impactam diretamente a vida e a cultura dos povos tradicionais.
Implicações e o futuro da gestão ambiental
A revogação do Decreto 12.600 representa uma guinada significativa na política governamental de infraestrutura na Amazônia, marcando uma vitória importante para os povos indígenas e as comunidades tradicionais. A decisão não apenas interrompe estudos para concessões em hidrovias cruciais como Tapajós, Madeira e Tocantins, mas também estabelece um precedente sobre a primazia da consulta prévia e do diálogo em projetos que afetam diretamente territórios e modos de vida ancestrais. Este movimento sinaliza um compromisso mais robusto com a Convenção 169 da OIT e a proteção ambiental, reforçando a narrativa de um governo que “não passa a boiada”. O episódio destaca a crescente influência das vozes indígenas e a complexidade de equilibrar o desenvolvimento econômico com a sustentabilidade e os direitos humanos na Amazônia, exigindo abordagens cada vez mais inclusivas e ecologicamente responsáveis.
Perguntas frequentes
1. O que previa o Decreto 12.600?
O Decreto 12.600, editado no ano passado, previa a realização de estudos para a concessão à iniciativa privada de trechos das hidrovias dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins, na Amazônia, visando otimizar o transporte de cargas, especialmente do agronegócio.
2. Por que as comunidades indígenas protestaram contra o decreto?
As comunidades indígenas, quilombolas e ribeirinhas protestaram temendo os impactos negativos da concessão e dragagem das hidrovias em seus territórios tradicionais, modos de vida, espiritualidade e nos ecossistemas fluviais. Eles criticavam a falta de estudos ambientais adequados e alertavam para riscos como erosão das margens, contaminação da água e danos irreversíveis aos corredores ecológicos.
3. Qual a importância da decisão do governo de revogar o decreto?
A revogação é vista como uma vitória significativa para os povos indígenas e uma demonstração de que o governo está disposto a ouvir e recuar de decisões próprias em resposta às demandas sociais e ambientais. Ela reafirma o compromisso com a Convenção 169 da OIT e o direito à consulta prévia, livre e informada das comunidades afetadas por projetos na Amazônia.
4. O que é a Convenção nº 169 da OIT?
A Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) é um tratado internacional que estabelece o direito dos povos indígenas e tribais de serem consultados, de forma livre, prévia e informada, sobre medidas legislativas ou administrativas que possam afetá-los diretamente, garantindo sua participação nos processos decisórios e o respeito às suas culturas e territórios.
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