© Fernando Frazão/Agência Brasil

Estados afirmam que redução de imposto não barateia combustível

O debate sobre o custo dos combustíveis no Brasil ganhou um novo capítulo com a firme posição dos estados contra a redução do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS). Diante da alta do diesel, uma medida federal de zerar tributos federais foi anunciada, acompanhada de um apelo para que as unidades federativas também revissem o ICMS. Contudo, o Comitê Nacional de Secretários de Fazenda, Finanças, Receita ou Tributação dos Estados e do Distrito Federal (Comsefaz) manifestou, em nota, que a experiência passada e estudos recentes indicam que tais reduções tributárias não se traduzem em preços mais baixos nas bombas para o consumidor final. A entidade alerta para uma possível “perda dupla” para a população, que não veria o preço do combustível diminuir, enquanto os cofres estaduais perderiam recursos essenciais para políticas públicas. Este cenário complexo coloca em lados opostos a urgência de aliviar o bolso do cidadão e a responsabilidade fiscal dos estados, que já enfrentaram grandes desfalques em sua arrecadação.

A controvérsia da tributação e o dilema dos estados

A escalada nos preços dos combustíveis, especialmente do diesel, tem sido uma preocupação constante na economia brasileira, impactando diretamente setores vitais como transporte de cargas e passageiros, além de toda a cadeia de produção e consumo. Em resposta a essa conjuntura desafiadora, influenciada por fatores externos como conflitos geopolíticos e flutuações no mercado internacional de petróleo, o governo federal implementou uma medida para aliviar a pressão. O Presidente da República anunciou a redução a zero dos tributos federais PIS e Cofins sobre o diesel, buscando mitigar a disparada dos preços e seus efeitos cascata na inflação.

O pedido federal e a resposta estadual

Paralelamente à desoneração federal, foi feito um apelo direto aos estados para que avaliassem a possibilidade de também reduzir a alíquota do ICMS sobre os combustíveis, seguindo a lógica de uma ação conjunta para baratear o produto final. No entanto, a resposta coletiva dos estados, articulada por meio do Comitê Nacional de Secretários de Fazenda, Finanças, Receita ou Tributação dos Estados e do Distrito Federal (Comsefaz), foi de oposição veemente a essa proposta. Em um documento divulgado, os secretários estaduais de Fazenda expuseram as razões para sua recusa, apontando para uma série de argumentos técnicos e históricos que justificariam a manutenção da estrutura tributária atual. Essa posição reflete a complexidade da gestão fiscal em um país de dimensões continentais, onde as necessidades de arrecadação dos estados são tão diversas quanto suas realidades socioeconômicas.

Experiências passadas e o argumento da não repassagem

A principal justificativa apresentada pelo Comsefaz para rejeitar a redução do ICMS sobre combustíveis baseia-se em uma análise de experiências anteriores. Segundo a nota do comitê, a história tem demonstrado que a diminuição da carga tributária sobre combustíveis, seja ela federal ou estadual, raramente é integralmente repassada ao consumidor final na ponta das bombas. Este fenômeno, de acordo com os estados, impede que o objetivo de baratear o combustível para a população seja alcançado de forma eficaz, transformando a medida em um mero repasse de receita para outros elos da cadeia. A ineficácia percebida na transmissão dos benefícios ao consumidor é um pilar central da argumentação estadual contra a medida.

A cadeia de distribuição e o impacto no consumidor

Para corroborar essa argumentação, o Comsefaz citou uma pesquisa relevante realizada no ano anterior, que analisou o comportamento dos preços ao longo da cadeia de distribuição dos combustíveis. O estudo revelou que, na prática, uma parcela significativa dos descontos provenientes de desonerações tributárias acaba sendo absorvida pelos agentes intermediários da cadeia, como distribuidoras e revendedores, antes de chegar ao posto de gasolina. O exemplo clássico mencionado ilustra bem essa dinâmica: em um período de três anos, enquanto o preço da gasolina nas refinarias registrou uma queda de 16%, o valor cobrado nas bombas aos consumidores finais subiu 27%. Essa disparidade evidencia um descolamento entre a redução de custos na origem e a formação de preços no varejo, sustentando a tese de que a desoneração tributária não é o caminho mais eficiente para aliviar o bolso dos motoristas. Os estados argumentam que, sem mecanismos robustos de fiscalização e regulação que garantam o repasse, qualquer corte de imposto resultará apenas em lucro maior para os intermediários, sem benefício para o cidadão.

Perdas fiscais e o futuro das políticas públicas

A posição dos estados contra a redução do ICMS sobre combustíveis é profundamente enraizada na preocupação com as finanças públicas e a capacidade de investimento em áreas essenciais. A nota do Comsefaz enfatiza que medidas de desoneração tributária, sem o devido repasse ao consumidor, geram uma “perda dupla” para a população. Além de o preço do combustível não baixar, há uma inevitável diminuição na arrecadação que deveria ser destinada a serviços fundamentais. Esses recursos são cruciais para o financiamento de políticas públicas em saúde, educação, segurança e infraestrutura, impactando diretamente a qualidade de vida dos cidadãos. A redução de receitas, portanto, acarreta um custo social elevado, comprometendo a sustentabilidade dos serviços públicos estaduais.

O impacto das reformas e a estrutura do ICMS

Os estados também trazem à tona o histórico recente de perdas financeiras significativas decorrentes de mudanças legislativas. Segundo o Comsefaz, alterações aprovadas em governos anteriores, que impactaram a forma de cobrança do ICMS sobre combustíveis, energia e telecomunicações, resultaram em um prejuízo acumulado de R$ 189 bilhões para os cofres estaduais. Diante desse cenário de desfalque fiscal já consolidado, os estados consideram “não razoável” ter de suportar novamente mais perdas com a redução do ICMS.

Adicionalmente, a nota esclarece a atual política de cobrança do ICMS sobre combustíveis, que adota um valor nominal fixo por litro ou quilo. Essa estrutura, mesmo que o preço do combustível na refinaria ou na bomba suba, mantém o valor do imposto inalterado. Consequentemente, em termos percentuais, o imposto torna-se relativamente menor à medida que o valor do produto aumenta, o que, na prática, já representa uma redução relativa da carga tributária estadual. Atualmente, os valores fixos são de R$ 1,57 por litro de gasolina, R$ 1,17 por litro de diesel e R$ 1,47 por quilo de Gás Liquefeito de Petróleo (GLP), refletindo uma contribuição que se desvincula das flutuações de preço do próprio combustível, já atuando como um fator de estabilização em um cenário de alta.

Perspectivas e o debate sobre a política de preços

A recusa dos estados em reduzir o ICMS sobre combustíveis evidencia um impasse significativo na busca por soluções para os altos preços que afligem os consumidores brasileiros. A posição firme do Comsefaz, ancorada em dados históricos e análises sobre a cadeia de distribuição, reforça a percepção de que a desoneração tributária, por si só, pode não ser a panaceia esperada. A discussão transcende a mera questão fiscal, adentrando o campo da efetividade das políticas públicas e da responsabilidade na gestão dos recursos estaduais, essenciais para o financiamento de serviços básicos. Este debate sublinha a necessidade de uma abordagem mais integrada e multifacetada, que possa considerar não apenas a carga tributária, mas também a estrutura de formação de preços em toda a cadeia de valor dos combustíveis, desde a produção até a revenda, garantindo que qualquer intervenção resulte em benefício real para a população.

Perguntas frequentes

Por que os estados se recusam a baixar o ICMS sobre combustíveis?
Os estados se recusam a baixar o ICMS porque, com base em experiências passadas e estudos, argumentam que a redução do imposto não é repassada ao consumidor final, sendo absorvida pela cadeia de distribuição. Além disso, a medida causaria uma perda significativa de arrecadação para os estados, comprometendo o financiamento de políticas públicas essenciais.

Qual é a evidência de que a redução de impostos não chega ao consumidor?
Uma pesquisa mencionada pelo Comsefaz indica que, em três anos, enquanto o preço da gasolina caiu 16% nas refinarias, subiu 27% nas bombas. Isso sugere que os descontos não foram repassados e foram absorvidos ao longo da cadeia de distribuição e revenda.

Quais foram as perdas financeiras dos estados relacionadas a impostos sobre combustíveis em governos anteriores?
Os estados afirmam que mudanças legislativas aprovadas em governos anteriores geraram perdas de R$ 189 bilhões para seus cofres, o que os torna relutantes em suportar mais desfalques com o ICMS.

Como funciona a política atual de cobrança do ICMS sobre combustíveis?
Atualmente, o ICMS sobre combustíveis é cobrado por um valor nominal fixo por litro (ou quilo para GLP), e não como um percentual sobre o preço. Isso significa que, mesmo que o preço do combustível aumente, o valor do imposto permanece o mesmo, resultando em uma redução relativa da carga tributária.

Para uma compreensão mais aprofundada sobre as implicações econômicas e sociais dessa decisão, explore análises e dados sobre a arrecadação tributária e o mercado de combustíveis.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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