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Brasil sob Escrutínio dos EUA: Audiências Investigam Práticas Comerciais e Tarifárias

O Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) deu início nesta semana a duas importantes audiências públicas em Washington, colocando o Brasil no centro de uma investigação sobre supostas práticas comerciais desleais ou prejudiciais aos interesses econômicos americanos. Estes encontros buscam coletar argumentos de diversas partes interessadas antes de possíveis decisões sobre tarifas ou outras medidas comerciais.

Análise Detalhada das Práticas Comerciais Brasileiras

A primeira audiência, que se estendeu por dois dias, teve como foco uma proposta dos EUA de sobretaxar em 25% uma gama de produtos brasileiros. Durante o processo, foram minuciosamente examinados seis aspectos cruciais das políticas e práticas comerciais do Brasil: o funcionamento do comércio digital e os serviços de pagamento eletrônico, incluindo o Pix; a aplicação de tarifas preferenciais; as estratégias de combate à corrupção; o nível de proteção da propriedade intelectual; as barreiras de acesso ao mercado para o etanol; e as ações relacionadas ao desmatamento ilegal no país. Este escrutínio visava identificar quaisquer elementos que pudessem impactar o comércio bilateral.

Combate ao Trabalho Forçado em Debate Global

Paralelamente, uma segunda audiência, com duração prevista de três dias, foi aberta com um alcance mais amplo, envolvendo sessenta nações, entre elas o Brasil. Este painel se dedicou a investigar supostas deficiências no combate ao trabalho análogo à escravidão e na fiscalização da proibição de exportação de bens produzidos sob condições de trabalho forçado. A expectativa era que as deliberações se estendessem até a quinta-feira, buscando um entendimento mais profundo sobre as cadeias de suprimentos globais.

O Processo de Consultas Formais e Participação Multissetorial

Ambas as audiências integram o rigoroso processo de consultas formais do USTR, que se baseia na Seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos de 1974. Esta legislação confere ao governo americano a prerrogativa de investigar práticas comerciais consideradas desleais ou prejudiciais aos seus interesses. As investigações em questão foram instauradas em anos anteriores, desencadeando a atual fase de coleta de testemunhos de representantes de setores produtivos, governos dos países investigados e empresas americanas que se sentem lesadas.

A mobilização para a audiência focada exclusivamente nas práticas brasileiras foi significativa, com dezenas de entidades e empresas tanto do Brasil quanto dos Estados Unidos inscritas para apresentar seus argumentos. Nomes como a Confederação Nacional de Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), o Conselho Brasileiro de Exportadores de Café (Cecafé), a Confederação Nacional da Indústria (CNI), a União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica) e a Embraer marcaram presença, além do senador Flávio Bolsonaro, que também foi ouvido.

Estratégias de Defesa: O Caso das Rochas Naturais

A Associação Brasileira de Rochas Naturais (Centrorochas) e o Sindicato da Indústria do Ferro de Minas Gerais (Sindifer) tiveram participação notável, especialmente na defesa contra a acusação de que a prática de trabalho forçado em importantes setores econômicos de dezenas de países barateia custos de produção e gera vantagens comerciais indevidas. A Centrorochas, em particular, antecipou sua estratégia de demonstrar que a imposição de uma sobretaxa sobre as rochas naturais brasileiras não apenas prejudicaria as empresas estadunidenses, mas também acarretaria efeitos negativos para a economia dos Estados Unidos como um todo. Essa posição conta com o apoio de organizações americanas de peso, como o Natural Stone Institute (NSI).

Os Estados Unidos representam o principal mercado para as exportações brasileiras de rochas naturais, movimentando US$ 795 milhões e 587 mil toneladas no último ano, com o material sendo amplamente utilizado em bancadas, revestimentos e outras aplicações de alto padrão. Fábio Cruz, vice-presidente da Centrorochas, enfatizou que as rochas brasileiras não competem, mas complementam a produção doméstica americana, sendo um insumo vital que gera empregos e investimentos em diversos estados dos EUA, e que novas tarifas apenas prejudicariam a competitividade das empresas locais que dependem dessa matéria-prima.

A Resposta do Governo Brasileiro e o Nexo Legal

Em resposta às conclusões preliminares do USTR e aos argumentos em favor da sobretaxa, o governo brasileiro, por meio do Itamaraty, contestou veementemente as alegações. Em um documento oficial enviado ao escritório americano, o Brasil argumentou que suas práticas comerciais não causam prejuízo aos EUA ou às suas empresas, solicitando que o governo estadunidense se abstenha de impor medidas unilaterais no contexto das investigações em curso. A diplomacia brasileira ressaltou que o USTR não conseguiu estabelecer o nexo legal exigido entre qualquer ato, política ou prática específica do Brasil e uma restrição ou ônus identificável ao comércio dos Estados Unidos.

Este posicionamento do governo brasileiro sublinha a divergência fundamental na interpretação dos impactos comerciais e a contestação da base jurídica das acusações americanas, buscando proteger os interesses do Brasil no cenário do comércio internacional.

Conclusão

As audiências do USTR representam um momento crítico nas relações comerciais entre Brasil e Estados Unidos, com potencial para redefinir as dinâmicas de importação e exportação. Enquanto os EUA buscam salvaguardar seus interesses comerciais, o Brasil defende suas políticas e o impacto positivo de suas exportações na economia americana. O desfecho dessas consultas e as futuras decisões do USTR serão cruciais para o futuro do comércio bilateral e para a posição do Brasil no cenário econômico global.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br