© Waldemir Barreto/Agência Senado

Publicidade de Apostas: Defensores Públicos Exigem Regulamentação Mais Rígida Frente a Riscos Sociais e Financeiros

A proliferação agressiva da publicidade de plataformas digitais de apostas esportivas e jogos de azar online, popularmente conhecidas como 'bets', tem se tornado uma crescente fonte de preocupação para defensores públicos. Atuando diretamente com casos de superendividamento e acesso à saúde, esses profissionais alertam para os graves impactos sociais e financeiros que a superexposição a essas propagandas acarreta, especialmente entre a população de baixa renda. A urgência do tema foi pauta de um debate significativo em reunião conjunta das Comissões de Direitos Humanos e Legislação Participativa e de Assuntos Sociais do Senado, sinalizando a necessidade premente de uma revisão regulatória.

A Onipresença da Publicidade e Suas Mensagens Ambíguas

A visibilidade dos anúncios de apostas atinge patamares sem precedentes, invadindo os lares através da televisão em diversos horários, dominando espaços esportivos como campos de futebol e placas publicitárias, e, de forma mais insidiosa, alcançando os usuários diretamente em seus dispositivos móveis. A defensora pública Luciana Peles da Cunha, coordenadora do Núcleo de Defesa do Consumidor (Nudecon) da Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro (DPRJ), enfatiza a abrangência dessa exposição, que desconsidera o público espectador. Mais alarmante do que a quantidade de anúncios é o seu conteúdo, que muitas vezes dissemina uma mensagem paradoxal. As campanhas maciças promovem a ideia de que o jogo é uma via para obter 'renda extra', contrastando drasticamente com a realidade de que a 'banca sempre ganha' e que o 'sobrenome' do jogo é, invariavelmente, 'de azar'.

Diante dessa distorção, a defensora propõe que as plataformas digitais de jogos sejam submetidas a restrições publicitárias similares às aplicadas ao cigarro, cuja propaganda é proibida desde o ano 2000. Essa medida, considerada essencial, visa conter a falsa percepção de que as apostas constituem um 'entretenimento inofensivo', alertando para os riscos inerentes à prática.

Impacto na Saúde Mental e Despreparo do Sistema Público

O apelo massivo das plataformas de apostas tem gerado um aumento expressivo na demanda pelos serviços das defensorias públicas, ao mesmo tempo em que sobrecarrega o sistema de saúde mental. Marcelo Dayrell Vivas, defensor Público em São Paulo e coordenador da Comissão de Saúde da Associação Nacional das Defensoras Públicas e Defensores Públicos (Anadep), corrobora a necessidade de regulamentação mais severa. Ele ressalta a insuficiência do Estado em prover o suporte adequado para as novas demandas criadas desde o início da operação das bets no Brasil, em 2018.

A infraestrutura de atendimento à saúde mental carece de especialização para lidar com a dependência em jogos. Vivas aponta a necessidade urgente de criar grupos especializados nos Centros de Atendimento Psicossocial (CAPS) e de dispor de horários específicos nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) para atender a essa questão. Ele critica a prática de agrupar jogadores crônicos com usuários de crack e álcool, destacando a complexidade e particularidade do vício em jogos. A preocupação se estende ao acolhimento e tratamento de indivíduos que tentaram suicídio devido ao endividamento causado pelo vício em jogos, questionando a eficácia da rede de saúde em garantir a continuidade do tratamento após a alta hospitalar e oferecer o suporte necessário às suas famílias.

As Consequências Financeiras e a Capilaridade do Hábito de Apostar

A economista Ione Amorim, do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), destaca que o hábito de apostar em plataformas digitais se 'capilarizou dentro da realidade das famílias', tornando-se um desafio significativo combater essa atividade que se mostra nociva tanto à saúde financeira quanto à psicológica. Os dados econômicos corroboram essa percepção alarmante. Estimativas da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) revelam que, entre janeiro de 2023 e março de 2026, os brasileiros gastaram mais de R$ 30 bilhões por mês nessas plataformas.

Esse volume de apostas comprometeu severamente a disponibilidade de renda para a quitação de dívidas, projetando que cerca de 270 mil famílias podem ter sido levadas a uma situação de 'inadimplência severa', caracterizada por atrasos superiores a 90 dias. A inadimplência diretamente atribuída às bets resultou em uma perda estimada de R$ 143 bilhões para o comércio varejista, montante equivalente ao volume de vendas dos Natais de 2024 e 2025. Esse cenário evidencia a necessidade de um debate amplo e inclusivo, envolvendo consumidores e sociedade civil, na eventual adoção de medidas restritivas contra a publicidade de jogos de azar e as próprias plataformas de apostas.

Regulamentação e o Futuro das Bets no Brasil

A legalização das apostas online no Brasil ocorreu no segundo semestre de 2018, com a aprovação da Medida Provisória das Loterias (MP 846/2018), que posteriormente se tornou a Lei 13.756/2018. Contudo, a regulamentação detalhada da atividade só foi sancionada cinco anos depois, em dezembro de 2023, por meio da Lei nº 14.790. As novas regras e exigências operacionais para as empresas começarão a valer oficialmente a partir de janeiro de 2025, estabelecendo um novo marco para o setor.

Apesar do arcabouço legal existente e em fase de implementação, a discussão no Senado e os apelos dos defensores públicos sublinham que a regulamentação atual pode não ser suficiente para conter os efeitos adversos da publicidade e do fácil acesso às apostas. A mobilização em torno de restrições mais rigorosas visa preencher uma lacuna percebida, garantindo que o mercado de apostas seja não apenas regulado em sua operação, mas também na forma como se apresenta à população, minimizando os riscos de endividamento e os impactos negativos na saúde mental dos cidadãos brasileiros.

Conclusão: Um Chamado à Proteção e à Responsabilidade

O cenário atual da publicidade de apostas no Brasil é um espelho de um dilema complexo, onde a liberdade comercial colide com a saúde pública e a proteção do consumidor. A onipresença de anúncios sedutores, que prometem ganhos fáceis enquanto disfarçam os riscos inerentes, tem um custo social e econômico elevado, evidenciado pelo crescente número de famílias em situação de superendividamento e pela sobrecarga dos serviços de saúde mental. O consenso entre defensores públicos, economistas e representantes da sociedade civil aponta para a urgência de medidas mais assertivas. A necessidade de impor restrições à publicidade, similares às aplicadas a produtos nocivos como o cigarro, e de fortalecer a capacidade do Estado em oferecer suporte adequado aos afetados, configura-se como um passo fundamental. Este debate no Senado é um chamado à responsabilidade, visando não apenas regulamentar um mercado lucrativo, mas, acima de tudo, salvaguardar a saúde financeira e o bem-estar psicológico da população brasileira.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br