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Urnas Eletrônicas: O Alvo Prioritário da Desinformação Eleitoral no Brasil

Em um cenário de crescentes desafios à integridade democrática, as urnas eletrônicas brasileiras, que completaram 30 anos de operação nesta quarta-feira (13), encontram-se no centro de uma complexa rede de narrativas desinformativas. Uma pesquisa recente do Projeto Confia, iniciativa do Pacto pela Democracia, lança luz sobre a dimensão desse problema, revelando que a maior parte do conteúdo falso sobre eleições tem como alvo principal o funcionamento do sistema eletrônico de votação, gerando dúvidas e minando a confiança pública.

O Epicentro da Desinformação: Ataques Diretos às Urnas

A análise aprofundada realizada pelo Projeto Confia, que examinou mais de 3 mil conteúdos disseminados nos ciclos eleitorais de 2022 e 2024, identificou que uma parcela significativa – superior a 45% do material desinformativo – se concentrava em questionamentos sobre a operação das urnas eletrônicas. Essas mensagens falsas frequentemente abordam supostas falhas técnicas, como um alegado atraso no botão “confirma” ou a invenção de que a urna completaria automaticamente os números digitados pelo eleitor, buscando minar a credibilidade do processo de votação.

Embora as urnas sejam o foco principal, a desinformação eleitoral não se limita a elas. O estudo aponta que outras narrativas falsas circulam intensamente, visando o Supremo Tribunal Federal (STF) e outras autoridades (27,1%), teorias conspiratórias sobre fraudes na apuração dos votos (21,8%), e informações incorretas sobre regras e logística eleitoral (15,4%). Contudo, a prevalência dos ataques às urnas as posiciona como a principal frente de batalha no combate à desinformação.

A Vulnerabilidade Exposta: Desconhecimento Técnico e Contato Esporádico

Helena Salvador, coordenadora do Projeto Confia, explica que a vulnerabilidade das urnas eletrônicas à desinformação decorre, em grande parte, do desconhecimento técnico da população sobre o funcionamento do sistema eleitoral. As narrativas falsas exploram essa lacuna, apresentando explicações técnicas inverídicas para sugerir possibilidades de falha ou manipulação. Elementos cotidianos da experiência de votação, como o teclado e as mensagens exibidas na tela da urna, são distorcidos para instigar estranhamento e semear dúvidas.

A coordenadora também destaca a infrequência do contato dos cidadãos com a urna – geralmente apenas a cada dois anos, no dia da eleição – como um fator que impede a rápida checagem de informações. Essa distância entre a vivência do eleitor e a compreensão da tecnologia facilita a propagação de boatos, uma vez que a maioria das pessoas não tem meios para verificar rapidamente a veracidade de alegações sobre botões ou funções da máquina.

O Declínio da Confiança e a Preparação para 2026

Os efeitos da desinformação já são perceptíveis na percepção pública. Uma pesquisa Quaest, divulgada em fevereiro deste ano, revelou que 53% dos brasileiros confiam nas urnas eletrônicas. Este número representa uma queda significativa em comparação com os 82% registrados em 2022 por um levantamento Datafolha, divulgado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A confiança varia entre as faixas etárias: enquanto 57% dos jovens (16 a 34 anos) confiam no sistema, e 53% dos mais velhos (60 anos ou mais) mantêm a confiança (possivelmente influenciados pela memória do voto em cédulas), 50% da população entre 35 e 50 anos expressa desconfiança nas urnas.

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Diante desse cenário, o Projeto Confia, parte da coalizão de mais de 200 organizações do Pacto pela Democracia, tem como meta central entender as raízes da desconfiança nas eleições e desenvolver estratégias robustas para combater a desinformação nas eleições de 2026. A intenção é construir contra-narrativas eficazes e responder prontamente aos ataques que visam descredibilizar o sistema eleitoral, garantindo a solidez do Estado Democrático de Direito.

Para Helena Salvador, a complexidade das narrativas que buscam desacreditar as urnas exige uma resposta igualmente sofisticada: “Ninguém critica as urnas apenas dizendo que elas são ruins, existem explicações bastante sofisticadas online tentando convencer as pessoas de que o sistema não funciona.” Isso ressalta a importância de tornar o percurso do voto mais transparente e compreensível para o eleitor, desde o acionamento das teclas até a totalização, como medida essencial para restaurar e fortalecer a confiança na integridade do processo eleitoral brasileiro.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br