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Irmãs motoristas de caminhão impulsionam Barueri: legado e desafios nas estradas

Em um setor historicamente dominado por homens, três irmãs de Barueri — Eliane de Oliveira Marques (53), Eliete de Oliveira Marques Martins (52) e Eleny de Oliveira Marques (47) — desbravaram as estradas e canteiros de obras do município, consolidando-se como mulheres motoristas de caminhão e provando que competência não tem gênero. Desde o início da década de 1990, elas seguem os passos do pai, o caminhoneiro Domingos Bertolino Vieira Marques, hoje com 78 anos, desafiando preconceitos e se tornando figuras essenciais para a infraestrutura e o cotidiano da cidade. Com dedicação e habilidade, essas pioneiras não apenas dirigem veículos pesados, mas também pavimentam um caminho de inspiração para outras mulheres, demonstrando que o lugar da mulher é, de fato, onde ela quiser estar, superando expectativas e contribuindo significativamente para o desenvolvimento de Barueri.

Pioneirismo e paixão pela estrada

A jornada das irmãs Marques no universo dos veículos pesados é uma história de paixão, herança familiar e resiliência. Muito antes de a frase “lugar de mulher é onde ela quiser” se tornar um lema amplamente difundido, Eliane, Eliete e Eleny já estavam na boleia, transformando o asfalto em seu escritório e os gigantes da estrada em seus instrumentos de trabalho. Essa decisão, tomada ainda nos primeiros anos da década de 1990, foi um passo audacioso, especialmente considerando o ambiente predominantemente masculino que caracterizava — e, em certa medida, ainda caracteriza — a profissão.

Uma herança familiar sobre rodas

A inspiração para trilhar esse caminho veio de casa. Domingos Bertolino Vieira Marques, o pai das irmãs, era um caminhoneiro que, com suas viagens e carretos, encantava as filhas. Desde pequenas, as meninas acompanhavam o pai em suas jornadas, sentindo o pulsar da estrada e o fascínio pela máquina pesada. Essa convivência na boleia plantou a semente da paixão, que logo floresceria em uma carreira. Apesar de sempre confiar na capacidade das filhas, Domingos nutria o receio de que elas pudessem enfrentar tratamentos inadequados ou preconceitos por parte de outros motoristas e colegas de trabalho. As irmãs reconhecem que, embora o respeito dos colegas seja uma realidade, o trânsito ainda reserva insultos e comentários machistas. Contudo, essa adversidade é encarada com serenidade. “Fingimos que não é conosco. Amamos nossa profissão e fazemos o melhor que podemos no dia a dia, com muita atenção e dedicação”, revelam, mostrando uma determinação inabalável que as impulsiona a seguir em frente, construindo um legado de competência e força.

O impacto na infraestrutura de Barueri

A presença das irmãs motoristas de caminhão em Barueri não é apenas um símbolo de empoderamento feminino, mas uma contribuição prática e indispensável para o funcionamento da cidade. Cada uma delas desempenha um papel fundamental em diferentes frentes de atuação, garantindo que serviços essenciais sejam realizados, desde o transporte de alimentos até a manutenção de espaços públicos e a coleta de resíduos.

Diversidade de funções: do campo à cidade

Eliane de Oliveira Marques, a mais velha, com 53 anos, dedica seus últimos seis anos à condução de caminhões de médio porte. Sua principal função atualmente é o transporte das cestas do projeto “Horta da Gente”, da Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social (Sads), que beneficia famílias carentes em Barueri. Essa tarefa não apenas exige destreza ao volante, mas também um senso de responsabilidade social, garantindo que os alimentos cheguem a quem precisa. Ao longo de sua carreira, Eliane demonstrou versatilidade, transportando tratores e, em outro momento, liderando uma equipe de mulheres responsável pela manutenção de áreas verdes, evidenciando sua capacidade de adaptação e liderança em diferentes contextos.

Eliete de Oliveira Marques Martins, com 52 anos, opera um caminhão modelo 10-160, um veículo de grande porte crucial para o transporte de ferramentas e equipes de alvenaria. Ela é peça-chave nas operações de reforma e manutenção de diversos logradouros públicos em Barueri, contribuindo diretamente para a qualidade da infraestrutura urbana. Sua experiência anterior abrangeu outras áreas vitais, como o caminhão “cata-cacareco”, a limpeza de bueiros, a remoção de entulhos e a marcenaria municipal, onde era responsável por montar tablados para eventos da Prefeitura e reformar portas e móveis em escolas e outros edifícios municipais. A diversidade de suas funções anteriores demonstra a ampla gama de habilidades que Eliete desenvolveu ao longo dos anos.

Eleny de Oliveira Marques, a caçula, de 47 anos, assume a responsabilidade da coleta noturna de lixo na cidade. Esta é uma função que demanda atenção redobrada e habilidade excepcional, não só para navegar pelas ruas durante a noite, mas também para garantir a segurança dos coletores e minimizar os impactos no trânsito. Antes disso, Eleny passou vários anos atuando no caminhão-pipa, uma atividade que exige, além da Carteira Nacional de Habilitação (CNH) categoria D, uma destreza notável para subir a alturas de até 3,5 metros para abastecer o veículo, que comporta milhares de litros de água. O trabalho de Eleny é fundamental para a saúde pública e a limpeza urbana, executado com precisão e cuidado em horários desafiadores.

Superando desafios e quebrando paradigmas

As irmãs Marques não apenas conduzem seus caminhões, mas também dirigem a mudança em percepções sociais. O cenário que enfrentam diariamente é um microcosmo dos desafios que as mulheres encontram em profissões não convencionais, mas também das recompensas que vêm com a persistência e a excelência.

Respeito na profissão, preconceito nas ruas

“Muita gente ainda se surpreende quando nos vê no volante”, conta Eliane, um testemunho da raridade de mulheres em sua posição. Eliete complementa, explicando que “nas rodovias, o espanto é maior porque há pouquíssimas mulheres lá”. Essa surpresa, embora muitas vezes bem-intencionada, ressalta a barreira invisível que ainda existe. No entanto, o reconhecimento profissional logo se estabelece. “Os colegas que ainda não conhecem nosso trabalho passam a nos admirar em pouco tempo porque reconhecem a nossa competência”, arremata Eleny, sublinhando que a qualidade do trabalho é a ferramenta mais eficaz contra o ceticismo inicial.

Um dos momentos que as irmãs mais valorizam em suas rotinas é a oportunidade de auxiliar outros motoristas em apuros. “Nossa maior satisfação é quando oferecemos ajuda a motoristas que estão em dificuldades nas ruas”, compartilham. Curiosamente, a reação varia: “Geralmente as mulheres nos recebem com um sorriso no rosto; os homens, nem sempre”. Essa observação, sutil, mas reveladora, mostra como o preconceito de gênero ainda pode influenciar interações, mesmo em situações de vulnerabilidade.

As irmãs Marques também desmentem um estereótipo persistente: o de que mulheres dirigem mal. “Esse preconceito de que as mulheres dirigem mal não tem razão de ser. Nós nunca recebemos uma multa sequer e, além disso, muitas seguradoras oferecem descontos para mulheres motoristas justamente por reconhecerem que elas costumam ser mais responsáveis no trânsito”, afirmam, apresentando dados concretos que desafiam a narrativa machista. Suas trajetórias são a prova viva de que a responsabilidade, a atenção e a habilidade não são características exclusivas de um gênero.

Um legado de rodas e família

A influência das irmãs Marques transcendeu o âmbito profissional e se enraizou na estrutura familiar, transformando a condução de veículos pesados em uma tradição. O pai, Domingos, plantou a semente, e as filhas a cultivaram, vendo-a florescer em outras gerações. Não apenas um irmão, Ed Carlos, que é proprietário de uma empresa de aluguel de caçambas para entulho, também segue a profissão, mas Reginaldo Martins da Cruz, marido de Eliete, é motorista profissional.

O exemplo e a paixão das irmãs e seus companheiros inspiraram os mais jovens. Renan (33 anos) e Caio (30), filhos de Eliete e Reginaldo, são hoje motoristas profissionais, seguindo os passos dos pais e tias. Bruna, de 32 anos, também é habilitada, mostrando a abrangência dessa paixão familiar. Além disso, um cunhado, Marcos Sato, também atua como motorista de caminhão em Barueri. Essa cadeia de motoristas profissionais dentro da família Marques é um testemunho poderoso do impacto e da inspiração que as irmãs representam. Eliane, Eliete e Eleny já são avós, com seis netos – Miguel, Théo, Joana, Hugo Henrique, Maria Luíza e Ravi – que, por enquanto, apenas acompanham com curiosidade as histórias das estradas contadas por suas avós, mas talvez representem a próxima geração a manter o legado sobre rodas.

Perguntas frequentes

Quantas irmãs são motoristas de caminhão em Barueri?
Três irmãs – Eliane, Eliete e Eleny de Oliveira Marques – atuam como motoristas de veículos pesados em Barueri.

Desde quando as irmãs Marques atuam na profissão?
Elas decidiram seguir a profissão no início dos anos 1990, inspiradas pelo pai, que também era caminhoneiro.

Quais são os principais desafios enfrentados pelas irmãs?
Os desafios incluem o preconceito ainda presente no trânsito e a surpresa das pessoas ao vê-las em um setor predominantemente masculino, apesar do reconhecimento de sua competência por colegas de trabalho.

A profissão de motorista de caminhão é comum na família delas?
Sim, a profissão se espalhou pela família, incluindo um irmão, o marido de Eliete, os dois filhos do casal e um cunhado, além de uma filha também ser habilitada.

Acompanhe as notícias de Barueri e da região para descobrir mais histórias inspiradoras de mulheres que transformam o cenário profissional e social.

Fonte: https://jornaldigitaldaregiaooeste.com.br

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