© Marcello Casal JrAgência Brasil

Especialistas alertam para riscos após mudanças nas regras do trânsito

Um alerta urgente de especialistas em medicina de tráfego destaca os perigos de alterações nas regras de trânsito, especialmente aquelas relacionadas à velocidade e à renovação de documentos. Segundo estudos recentes, um aumento de apenas 5% na velocidade permitida em uma via pode resultar em um crescimento de até 20% no número de mortes entre seus usuários. Essa preocupação ganha relevância no contexto da nova diretriz intitulada “Tolerância Humana a Impactos: implicações para a segurança viária”, que surge em meio à recente medida provisória que autoriza a renovação automática da Carteira Nacional de Habilitação (CNH) em certos casos. A segurança viária, portanto, é colocada em xeque por decisões administrativas que podem desconsiderar os limites biomecânicos do corpo humano, com graves consequências para a vida e a saúde dos cidadãos.

Limites humanos e a ciência da velocidade

A nova diretriz científica consolida dados que enfatizam a necessidade de que as decisões administrativas no trânsito considerem os limites intrínsecos do corpo humano e o impacto direto da velocidade na gravidade dos acidentes. O documento parte de um princípio central: o corpo humano possui limites biomecânicos inegociáveis, e estes devem ser o ponto de partida para qualquer política pública de trânsito. A energia liberada em um sinistro cresce exponencialmente com a velocidade, rapidamente ultrapassando a capacidade fisiológica de absorção do impacto, especialmente entre os usuários mais vulneráveis das vias, como pedestres, ciclistas e motociclistas.

O impacto exponencial da velocidade

A análise detalhada apresentada na diretriz demonstra que não se trata apenas de comportamento ou engenharia, mas de limites biológicos. Ignorar esses limites leva ao aumento de mortes e sequelas graves, mesmo em velocidades que ainda podem ser consideradas legais. Pequenas reduções de velocidade geram quedas expressivas no risco de morte, enquanto acréscimos aparentemente modestos elevam de forma desproporcional a gravidade dos sinistros. Em colisões com usuários fora do veículo, a velocidade responde por cerca de 90% da energia transferida ao corpo da vítima, o que ressalta sua importância crítica.

Frota de veículos e vulnerabilidade

Além da velocidade, a diretriz chama a atenção para o impacto crescente da expansão da frota de SUVs e de veículos com frente elevada. Esses veículos estão associados a um maior risco de lesões fatais em pedestres e ciclistas, mesmo em velocidades moderadas, devido à sua estrutura e ponto de impacto. Dados recentes de sistemas de saúde pública indicam que pedestres, ciclistas e motociclistas representam mais de três quartos das internações hospitalares relacionadas ao trânsito. Este cenário é agravado pela combinação de alta velocidade, infraestrutura inadequada e baixa proteção física oferecida a esses usuários.

Implicações da renovação automática da CNH

O documento também aborda as implicações para a atuação de médicos do tráfego, um tema considerado especialmente sensível diante do cenário de renovação automática da CNH. A diretriz reforça que condições clínicas como envelhecimento, doenças neurológicas e cardiovasculares, distúrbios do sono, osteoporose e sequelas de traumatismos reduzem significativamente a tolerância humana a impactos e à desaceleração. Tais condições exigem uma avaliação periódica e individualizada pelo médico do tráfego. Portanto, a aptidão para dirigir não é um estado permanente, mas varia conforme a condição de saúde, a idade e o contexto de exposição ao risco.

Contexto da MP 1327/2025 e seus beneficiados

O programa de renovação automática da Carteira Nacional de Habilitação (CNH), regulamentado pela Medida Provisória 1327/2025, beneficiou 323.459 condutores apenas na primeira semana de sua validade. A medida, que inclui motoristas registrados no Registro Nacional Positivo de Condutores (RNPC), resultou em uma economia estimada de R$ 226 milhões, que seriam gastos em taxas, exames e custos administrativos. A maior parte dos beneficiados são motoristas com CNH de categoria B, exclusiva para carros, correspondendo a 52% das renovações automáticas. Condutores com licença AB (carros e motocicletas) foram 45% dos beneficiados, enquanto aqueles que dirigem apenas motocicletas (categoria A) somaram 3%. Os demais são condutores profissionais (categorias C e D). Para fazer parte do RNPC, o condutor não pode ter registro de infrações de trânsito nos últimos 12 meses e deve se cadastrar via aplicativo Carteira Digital de Trânsito (CDT) ou no Portal de Serviços da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran).

Exceções e diretrizes para condutores

Alguns grupos de motoristas não têm direito ao processo automático e devem continuar realizando a renovação nos Detrans estaduais. Isso inclui motoristas com 70 anos ou mais, que precisam renovar o documento a cada três anos. Também estão excluídos aqueles que tiveram a validade da CNH reduzida por recomendação médica, em casos de doenças progressivas ou condições que demandem acompanhamento contínuo de saúde, além daqueles com o documento vencido há mais de 30 dias. Para os motoristas com mais de 50 anos, que precisam renovar a CNH a cada cinco anos, o processo automático será permitido apenas uma única vez.

Recomendações para um trânsito mais seguro

Com base nas evidências científicas e biomecânicas, a diretriz também apresenta recomendações para gestores públicos, instituições de ensino e a sociedade em geral. Entre elas, destaca-se a defesa da adoção de limites de velocidade compatíveis com a tolerância humana, bem como a implementação de políticas permanentes de gestão da velocidade e campanhas educativas eficazes. A reunião de dados epidemiológicos, biomecânicos e clínicos reforça que decisões sobre trânsito não podem se apoiar apenas na fluidez do tráfego ou na conveniência administrativa. A prioridade deve ser sempre a preservação da vida e a redução de lesões graves.

Conclusão

A segurança viária no Brasil enfrenta um cenário complexo, onde a velocidade continua sendo um fator preponderante na gravidade dos acidentes e no número de vítimas fatais. A diretriz “Tolerância Humana a Impactos” é um apelo contundente à consideração dos limites biológicos do corpo humano na formulação de políticas públicas de trânsito. A renovação automática da CNH, embora traga benefícios administrativos, adiciona uma camada de complexidade ao exigir atenção redobrada às condições de saúde dos condutores. É imperativo que gestores, profissionais de saúde e a sociedade atuem de forma integrada, promovendo medidas que priorizem a vida e a saúde, com base em evidências científicas e na compreensão dos impactos reais das decisões sobre a vida de milhões de brasileiros.

FAQ

Qual a relação entre velocidade e o risco de morte no trânsito?
Estudos indicam que um aumento de apenas 5% na velocidade permitida em uma via pode elevar em até 20% o número de mortes, pois a energia liberada em um acidente cresce exponencialmente com a velocidade, excedendo rapidamente a capacidade do corpo humano de absorver o impacto.

Como a renovação automática da CNH afeta a segurança viária?
Embora a renovação automática da CNH beneficie muitos condutores, ela levanta questões sobre a necessidade de avaliação periódica das condições físicas e mentais, especialmente para motoristas com condições de saúde que reduzem a tolerância a impactos. Especialistas alertam que a aptidão para dirigir não é um estado permanente e varia com a idade e a saúde.

Quais são as principais recomendações para tornar o trânsito mais seguro?
As recomendações incluem a adoção de limites de velocidade compatíveis com a tolerância humana a impactos, a implementação de políticas permanentes de gestão da velocidade, e a realização de campanhas educativas abrangentes. Também é crucial considerar o impacto de veículos maiores na segurança de pedestres e ciclistas.

O que são os “limites biomecânicos” do corpo humano no contexto do trânsito?
Os limites biomecânicos referem-se à capacidade fisiológica do corpo humano de resistir e absorver a energia de impactos. Em velocidades elevadas, a energia de uma colisão excede rapidamente esses limites, resultando em lesões graves ou fatais, independentemente das proteções veiculares.

Para aprofundar seu conhecimento sobre segurança no trânsito e como contribuir para um ambiente viário mais seguro, explore mais notícias e diretrizes sobre o tema e envolva-se nas discussões sobre políticas de trânsito em sua comunidade.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

Deixe uma resposta

Seu endereço de e-mail não será publicado.Os campos obrigatórios são marcados *

*

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.