A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado Federal aprovou, nesta quarta-feira (2), o texto-base da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) nº 18/2025, amplamente conhecida como PEC da Segurança Pública. A matéria, de autoria do Poder Executivo, representa um marco significativo na busca por um enfrentamento mais robusto ao crime organizado no Brasil, propondo o endurecimento das regras para chefes de facções criminosas e o estabelecimento de um novo pacto federativo que integre União, estados e municípios. A proposta já havia recebido aval da Câmara dos Deputados em formato de substitutivo, indicando um consenso inicial sobre a urgência do tema.
Reformulação do Enfrentamento ao Crime Organizado
A PEC da Segurança Pública nasce de um diagnóstico crucial: a criminalidade organizada transcendeu as fronteiras estaduais, assumindo uma dimensão nacional e, por vezes, internacional. O senador Rogério Carvalho (PT-SE), relator da proposta, enfatizou que o modelo constitucional de segurança pública, historicamente descentralizado e com cada estado conduzindo sua própria política sem mecanismos efetivos de governança ou diálogo interfederativo, permitiu que facções se desenvolvessem em presídios estaduais e se enraizassem em territórios vulneráveis.
Para reverter esse cenário, a proposta busca a constitucionalização do Sistema Único de Segurança Pública (Susp), alterando o artigo 144 da Constituição. Este sistema prevê a cooperação federativa entre todos os órgãos de segurança do país, atuando por meio de forças-tarefas intergovernamentais, compartilhamento de informações e provas, interoperabilidade de sistemas e integração de órgãos federais, estaduais, distritais e municipais. A medida visa assegurar maior eficiência na prevenção, persecução e execução penal, promovendo uma articulação coordenada contra o crime.
Medidas Contra Lideranças Criminosas e Proteção à Sociedade
Um dos pilares da PEC é a aplicação de penas mais severas e regimes especiais de prisão para os chefes de facções e milícias. Tais medidas incluem o encarceramento em unidades de segurança máxima, além da restrição ou vedação da progressão de penas, visando desarticular a capacidade de comando dessas organizações a partir do sistema prisional. Além disso, a proposta contempla ações patrimoniais robustas contra o produto do crime, a responsabilização de pessoas jurídicas que se envolvam em atividades ilícitas e mecanismos de proteção a denunciantes e seus familiares, incentivando a colaboração com a justiça.
Ainda no escopo de fortalecimento das instituições, a PEC prevê a ampliação das atribuições da Polícia Rodoviária Federal (PRF), que passará a ter competência para realizar policiamento ostensivo em hidrovias, diversificando e expandindo sua área de atuação no combate ao crime e na segurança das fronteiras fluviais.
Análise de Emendas: A Polêmica das Apostas Digitais
Durante a tramitação na CCJ, diversas emendas foram apresentadas, mas a maioria foi rejeitada pelo relator. Um dos pontos mais debatidos e alterados foi a previsão de arrecadação de recursos provenientes de empresas de apostas digitais, as chamadas 'bets'. Embora a versão vinda da Câmara dos Deputados estabelecesse que 30% da arrecadação das apostas de quota fixa, após deduções, seria destinada ao Fundo Nacional de Segurança Pública (FNSP) e ao Fundo Penitenciário Nacional (Funpen), os senadores optaram por retirar essa previsão da Constituição Federal.
A decisão de não 'constitucionalizar as bets' significa que a definição sobre a destinação desses recursos e seu percentual passará a ser feita por meio de lei ordinária, e não por dispositivo constitucional, conferindo maior flexibilidade legislativa para ajustes futuros. Outras emendas rejeitadas incluíam a criação de um Sistema Nacional de Antecedentes Criminais (SINAC), que, segundo o relator, poderia ser estabelecido por lei ordinária, e a retirada da competência do Tribunal do Júri para julgar determinados homicídios de organizações criminosas ultraviolentas, questão que demandaria análise do Supremo Tribunal Federal.
Próximos Passos no Congresso Nacional
Apesar da aprovação do texto-base, a análise da PEC da Segurança Pública na CCJ ainda não foi concluída. Um dos destaques apresentados não pôde ser apreciado devido ao início da sessão no plenário do Senado, o que exigirá uma nova reunião do colegiado para a finalização da votação. O líder do governo no Congresso, senador Randolfe Rodrigues (PT-AP), informou que a PEC deve ser levada a votação em plenário durante o próximo esforço concentrado do Senado, previsto para a segunda semana de outubro, após o primeiro turno das eleições.
Conclusão e Perspectivas Futuras
A aprovação do texto-base da PEC da Segurança Pública na CCJ do Senado Federal sinaliza um passo decisivo do Congresso Nacional para modernizar e fortalecer as estruturas de combate ao crime organizado no Brasil. Ao propor a constitucionalização do Sistema Único de Segurança Pública, endurecer penas para chefes de facções e promover uma maior integração federativa, a proposta busca superar as fragilidades históricas na gestão da segurança pública e oferecer uma resposta mais eficaz à crescente complexidade da criminalidade. Os próximos capítulos da tramitação no Senado serão cruciais para a consolidação de um novo arcabouço legal que promete transformar a abordagem do país frente a um de seus maiores desafios sociais.
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