Maria Jose Maciel

O feminicídio e a urgência de romper o ciclo da violência

ANUNCIO COTIA/LATERAL

Os números da violência contra a mulher no Brasil seguem tão chocantes quanto repetitivos. E talvez o que mais assuste não seja apenas a quantidade de vidas interrompidas, mas a naturalidade com que a sociedade parece conviver com essas tragédias anunciadas. Em 2025, segundo levantamento da Rede CNN, o país registrou 1.470 feminicídios. No Estado de São Paulo, onde o sistema de justiça é considerado um dos mais estruturados do país, houve 266 casos, sendo 60 apenas na capital. Nada disso deveria ser normal — mas tem sido.

O Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em julho de 2025, confirma essa escalada. Em apenas três anos, o feminicídio subiu de 1.455 casos (2022) para 1.492 (2024). Um aumento aparentemente pequeno, de 0,7%, que esconde uma realidade brutal: cada número é uma mulher assassinada por ser mulher. Cada número é uma ausência irreparável em uma família.

E a violência não se limita ao desfecho fatal. Ela começa antes — e muito antes. Os dados de 2024 revelam o crescimento da violência psicológica (+6,3%), do stalking (+18,2%) e a permanência de quase 750 mil ameaças registradas no país. São sinais de alerta ignorados, pedidos de socorro que muitas vezes esbarram na falta de estrutura, na cultura do silêncio e na negligência histórica com a vida das mulheres.

A violência sexual, por sua vez, revela um dos cenários mais devastadores: 87.545 estupros, dos quais 76,8% tiveram vítimas vulneráveis — majoritariamente meninas. Em um país onde meninos e meninas deveriam crescer em segurança, a infância tem sido frequentemente violada dentro das próprias casas.

E é justamente no lar que as estatísticas ganham contornos mais perversos. Sete em cada dez mulheres vítimas de feminicídio foram mortas dentro de casa, e oito em cada dez foram assassinadas por companheiros ou ex-companheiros. Não há como romantizar esse dado: para milhares de mulheres, o lar é o lugar mais perigoso — um espaço em que o afeto coexistiu com o medo, e onde a violência se configurou como rotina.

Diante desse cenário, o Estado reagiu. O Pacto Nacional de Prevenção aos Feminicídios (2023) e a campanha Feminicídio Zero (2024) representam esforços importantes para mudar essa realidade, apostando na prevenção, na educação e na articulação intersetorial. Porém, nenhuma política pública terá sucesso se continuar enfrentando uma estrutura cultural que naturaliza o controle sobre o corpo e a vida feminina.

Nesse sentido, a Lei nº 14.994/2024, o chamado Pacote Antifeminicídio, foi um marco essencial. Ela elevou a pena do feminicídio para 20 a 40 anos, a maior prevista no Código Penal, e dobrou a punição de crimes como ameaça, injúria e difamação quando cometidos contra mulheres. Também trouxe medidas duras, como a possibilidade de perda do poder familiar e a proibição de assumir cargos públicos por agressores. É um avanço — mas ele atua no fim da linha. É o remédio amargo administrado depois que a doença se espalhou.

A verdade é que combater o feminicídio exige muito mais do que punir. Exige transformar mentalidades. Exige que a sociedade pare de enxergar a violência doméstica como “problema de casal”. Exige que as escolas eduquem para a igualdade. Que os serviços públicos funcionem. Que o Estado acolha antes que a violência escale. E, sobretudo, exige que a vida das mulheres seja tratada com a seriedade e a urgência que merecem.

O feminicídio não é um fenômeno isolado. Ele é o ponto final de uma linha contínua de negligências, omissões e violências naturalizadas. Se o Brasil deseja romper esse ciclo, precisa finalmente colocar as mulheres no centro da agenda pública — não apenas nos discursos, mas nas prioridades reais.

Porque cada vida salva é um futuro que resiste. E cada morte evitável é uma derrota

coletiva.

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