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Nova obra explora a escravidão nos Estados Unidos pela ótica dos escravizados

ANUNCIO COTIA/LATERAL

Uma nova e relevante publicação acadêmica chega ao cenário literário brasileiro, oferecendo um olhar aprofundado sobre a história da escravidão nos Estados Unidos. A obra, intitulada ‘Autobiografias de escravizados: Frederick Douglass, William Grimes e abolicionismo nos Estados Unidos’, fruto da pesquisa de mestrado em história na Universidade Federal do Estado do Rio (UNIRIO), inverte a tradicional corrente de estudos. Enquanto frequentemente pesquisadores norte-americanos se debruçam sobre a realidade brasileira, este trabalho singular é conduzido por um estudioso do Brasil que se volta para a complexa história da América do Norte. O livro promete enriquecer a compreensão sobre o tema, mergulhando nas narrativas em primeira pessoa de indivíduos que viveram e lutaram contra o sistema escravista, trazendo para o público uma perspectiva essencialmente humana e detalhada desse período histórico.

Uma perspectiva brasileira sobre a escravidão nos Estados Unidos

A lacuna de narrativas em primeira pessoa

Ao explicar o seu interesse em um tema aparentemente distante da realidade brasileira, o autor ressalta a importância de não limitar o escopo da pesquisa histórica. A curiosidade por estudar a escravidão em outro país, como os Estados Unidos, reside não apenas na amplitude do conhecimento, mas também nas diferenças cruciais que marcam a disponibilidade de fontes históricas entre as duas nações. Nos EUA, a fuga de escravizados do sul escravista para o norte abolicionista gerou uma vasta quantidade de relatos escritos. Centenas dessas narrativas em primeira pessoa foram registradas, oferecendo aos historiadores um material rico e direto sobre as experiências, os sofrimentos e as resistências dos indivíduos cativos.

Essa realidade contrasta drasticamente com o contexto brasileiro. No Brasil, a grande maioria dos escravizados era analfabeta, o que resultou em uma quase inexistência de textos autobiográficos ou relatos diretos por eles produzidos. Para reconstruir a história dessas pessoas, os pesquisadores brasileiros precisam recorrer a outros tipos de documentos, como registros de cartório, certidões de batismo e, principalmente, fontes gerenciais dos locais onde a exploração acontecia, como fazendas e engenhos. Estes documentos, embora valiosos, oferecem uma visão indireta e frequentemente desumanizada da vida dos escravizados, focando em aspectos econômicos e administrativos em vez de suas subjetividades e vivências.

A única exceção notável no Brasil é a Biografia de Mahommah Gardo Baquaqua. Nascido no atual Benim em 1824, Baquaqua foi capturado e levado para a escravidão em Olinda, Pernambuco, e posteriormente revendido no Rio de Janeiro. Sua extraordinária jornada o levou a um navio que transportava café para Nova York, onde finalmente alcançou a liberdade e teve sua história registrada. Este caso isolado apenas reforça a singularidade do material disponível nos Estados Unidos, que permitiu uma abordagem muito mais centrada na voz dos próprios escravizados, um privilégio que o autor soube aproveitar em sua pesquisa.

Vidas retratadas: Douglass, Grimes e o contexto social

Análise de trajetórias e influências

Para sua pesquisa aprofundada, o autor selecionou dois personagens centrais, ambos representantes da segunda ou terceira geração de escravizados nos Estados Unidos: o proeminente líder abolicionista Frederick Douglass (1818-1985) e o barbeiro William Grimes (1784-1865). A escolha desses indivíduos não foi aleatória. Ambos publicaram suas autobiografias em diferentes momentos de suas vidas, permitindo uma análise comparativa e evolutiva de suas percepções e do contexto social em que estavam inseridos. Grimes lançou suas memórias em 1825 e novamente em 1855, enquanto Douglass publicou as suas em 1845 e 1855.

O intervalo de trinta anos entre as diferentes edições das autobiografias oferece uma rica oportunidade para o historiador observar as transformações sociais nos Estados Unidos escravista. Através dos olhos e das palavras de Douglass e Grimes, é possível captar as nuances das mudanças políticas, econômicas e sociais que ocorreram nesse período. As experiências individuais relatadas pelos autores servem como um microcosmo para entender como eram os lugares onde viveram, a complexidade dos laços familiares formados sob a escravidão, as interações sociais com outros escravizados e com os senhores, e o impacto do contexto político mais amplo em suas vidas. O historiador busca desvendar como todos esses fatores moldavam não apenas a existência de cada sujeito, mas também a forma como eles escolhiam se apresentar e interagir com o mundo.

Adotando uma linha teórica de cariz marxista-gramsciano, o autor argumenta que as influências estruturais, sejam elas econômicas ou sociais, exercem um papel determinante na vida das pessoas. Essas forças condicionam e, muitas vezes, limitam as escolhas e as possibilidades de vida dos indivíduos, especialmente em um sistema tão opressor quanto a escravidão. Sua bagagem como jornalista, com foco em pautas sociais e ambientais, reflete-se em sua abordagem histórica. Ele enfatiza que o estudo da história calibra uma ‘visão crítica e analítica’ da realidade, ferramentas que considera essenciais tanto para sua atuação como repórter quanto para a compreensão aprofundada dos eventos históricos.

A relevância de uma história contada por quem viveu

A obra ‘Autobiografias de escravizados’ representa um marco significativo na historiografia brasileira, ao desafiar as fronteiras geográficas e temáticas dos estudos sobre a escravidão. Ao focar nas narrativas em primeira pessoa de Frederick Douglass e William Grimes, o livro não apenas oferece uma visão detalhada e íntima da escravidão nos Estados Unidos, mas também estimula uma reflexão profunda sobre a ausência de vozes diretas dos escravizados na história brasileira. Essa abordagem enriquece o debate acadêmico e amplia a nossa capacidade de compreender a complexidade e a brutalidade desse período, sempre com o foco na resiliência e na humanidade daqueles que foram submetidos ao cativeiro. A pesquisa destaca a importância de se buscar diferentes ângulos e fontes para uma compreensão completa da história, transcendendo barreiras e enriquecendo a perspectiva global sobre o tema da escravidão e do abolicionismo.

Perguntas frequentes (FAQ)

Qual é o tema principal do livro ‘Autobiografias de escravizados’?
O livro explora a história da escravidão nos Estados Unidos a partir do ponto de vista e das narrativas em primeira pessoa de indivíduos que viveram sob o sistema escravista, como Frederick Douglass e William Grimes. A obra analisa suas autobiografias para compreender o contexto social, político e as experiências pessoais da época.

Por que a pesquisa é considerada “um caminho inverso” na área acadêmica?
É considerada um “caminho inverso” porque, tradicionalmente, pesquisadores norte-americanos estudam a história do Brasil (os “brasilianistas”). Neste caso, é um estudioso brasileiro que se dedica a pesquisar a história dos Estados Unidos, oferecendo uma perspectiva única e transnacional para o tema da escravidão.

Quais são os principais personagens cujas vidas são examinadas no livro?
O livro se concentra nas vidas e nas autobiografias de dois homens: Frederick Douglass (1818-1985), um proeminente líder abolicionista e escritor, e William Grimes (1784-1865), um barbeiro que também publicou suas memórias. Ambos são representativos da segunda ou terceira geração de escravizados nos EUA.

Qual a diferença na disponibilidade de fontes históricas entre a escravidão no Brasil e nos Estados Unidos, segundo o autor?
Nos Estados Unidos, há centenas de relatos escritos por ex-escravizados que fugiram para o norte abolicionista. No Brasil, por outro lado, a maioria dos escravizados era analfabeta, resultando na quase ausência de narrativas em primeira pessoa. Historiadores brasileiros geralmente dependem de documentos oficiais como registros de cartório ou fontes administrativas para reconstruir essas histórias.

Para aprofundar-se nesta rica e essencial discussão sobre a história da escravidão e o abolicionismo, não deixe de ler ‘Autobiografias de escravizados’. Adquira seu exemplar e contribua para a valorização de uma historiografia plural e esclarecedora.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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