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© Tomaz Silva/Agência Brasil

Letalidade Policial Aumenta na Baixada Fluminense Apesar de Menos Operações, Revela Estudo

Uma pesquisa recente da organização IDMJRacial lança luz sobre um cenário alarmante na Baixada Fluminense: a região tem vivenciado um aumento preocupante na letalidade das ações policiais. O estudo aponta que, embora o número total de operações tenha diminuído nos últimos anos, a violência resultante dessas incursões cresceu exponencialmente, acompanhada por um notável incremento no encarceramento em massa. Os dados coletados entre 2020 e 2025 delineiam um panorama de forte impacto sobre as comunidades locais e seus moradores.

O Custo Humano das Operações Policiais

Durante o período de cinco anos analisado pelo IDMJRacial, foram contabilizadas 5.298 operações policiais nos 13 municípios da Baixada Fluminense. O saldo dessas ações é trágico: 282 pessoas perderam a vida, 652 ficaram feridas, e um total de quase 5.800 indivíduos foram detidos. Além disso, 41 adolescentes foram apreendidos, destacando a amplitude do impacto dessas incursões na vida da população.

Os pesquisadores identificaram um perfil específico entre as vítimas da violência urbana e estatal: jovens negros, habitantes de favelas e periferias, com baixo nível de escolaridade e, em sua maioria, homens. Essa demografia ressalta a seletividade e o impacto desproporcional da violência institucional sobre grupos sociais já vulnerabilizados.

Geografia da Violência: Focos de Alta Letalidade

A análise territorial do estudo revela uma concentração alarmante da letalidade policial. Cinco dos treze municípios da Baixada Fluminense respondem por 75% das mortes registradas. Duque de Caxias lidera este ranking sombrio, com 66 óbitos e 160 feridos, seguido por Belford Roxo, São João de Meriti, Nova Iguaçu e Japeri. Kharine Gil, doutoranda em Sociologia na UERJ e pesquisadora da iniciativa, pondera que o número de mortes pode ser ainda maior, dado que muitos feridos podem ter evoluído a óbito sem registro atualizado, indicando uma forte focalização da violência estatal em determinadas áreas.

Um dos aspectos mais inquietantes da pesquisa é a escalada da letalidade em operações da Polícia Civil. Enquanto em 2024 foram realizadas 336 ações com um índice de mortalidade de 2%, o ano de 2025 registrou uma queda para 66 operações, mas com uma taxa de letalidade que saltou para 18%. Este contraste acentuado demonstra uma tendência preocupante de aumento da fatalidade em intervenções, mesmo com a redução da frequência operacional.

Contradições e Consequências Sociais da Força Policial

O levantamento também aponta para o elevado número de prisões, com quase 5.800 pessoas detidas no período. Desse total, impressionantes 62% das prisões foram realizadas exclusivamente pela Polícia Militar, o que reforça o papel dessa corporação na dinâmica do encarceramento em massa na região.

A pesquisa do IDMJRacial questiona abertamente a justificativa para a realização de grandes operações policiais, especialmente quando se observa o tipo de armamento apreendido. A predominância de pistolas e rádios comunicadores em comparação com os fuzis, que representaram apenas 5,5% das armas recolhidas, sugere um desequilíbrio significativo no aparato de força empregado pelas polícias. Kharine Gil enfatiza a falta de proporcionalidade entre os meios utilizados pelas forças de segurança e o cenário encontrado nos territórios.

Essa desproporcionalidade gera um ciclo de medo e terror nas comunidades, agravado pela ausência de investimentos em saúde e educação. A pesquisadora ressalta as consequências diretas para os moradores: crianças atingidas por balas perdidas, assassinatos de inocentes, e a paralisação do comércio devido a tiroteios constantes. A crítica central é que a intensidade da força policial não é compatível com a realidade desses espaços, causando mais prejuízos do que soluções para a segurança pública e o bem-estar social.

O Propósito das Incursões: Tráfico e Barricadas

Em sua maior parte, as incursões policiais na Baixada Fluminense tiveram como objetivo declarado o combate ao tráfico de drogas e a remoção de barricadas, estruturas erguidas em áreas controladas por facções criminosas. Somente para a retirada dessas estruturas, a pesquisa registrou 257 operações ao longo dos cinco anos, demonstrando um foco constante nesses tipos de intervenção.

Os dados coletados pelo IDMJRacial lançam um sério desafio às atuais políticas de segurança pública na Baixada Fluminense. O estudo não apenas expõe um aumento da letalidade policial e do encarceramento em massa, mas também questiona a eficácia e a humanidade das táticas empregadas. A pesquisa sublinha a urgência de uma reavaliação estratégica, que priorize a vida, o investimento social e o respeito aos direitos humanos, em detrimento de uma abordagem que perpetua a violência e aprofunda as desigualdades em uma das regiões mais vulneráveis do estado.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br