A complexa teia de eventos envolvendo um falso médico na Baixada Santista ganhou um novo e sombrio capítulo: Enrico Di Vaio, o profissional cujo registro no Conselho Regional de Medicina (CRM) foi supostamente utilizado em uma fraude, faleceu em Santos (SP). Sua morte ocorre em meio a investigações que buscam esclarecer a extensão do esquema. Wellington Mazini, o empresário que se passava por médico com o CRM de Di Vaio em um hospital de Cananéia, no litoral sul de São Paulo, encontra-se detido e já foi denunciado pelo Ministério Público. O caso, que expôs a vulnerabilidade de pacientes e a fragilidade na fiscalização, se desdobra com múltiplos processos e acusações de exercício ilegal da medicina e estelionato, levantando sérias questões sobre a segurança na saúde pública.
O epicentro da fraude e a morte misteriosa
O cenário de uma grave fraude médica na região litorânea paulista foi abalado pela notícia do falecimento de Enrico Di Vaio, o médico cujo registro profissional foi o pivô de um escândalo. Sua morte, ocorrida em Santos, adiciona uma camada de mistério e complicação a um caso já intrincado, enquanto as autoridades tentam desvendar a profundidade e os cúmplices do esquema. Di Vaio, que era sócio de Wellington Mazini em uma clínica na capital paulista, teve seu nome e seu número de CRM vinculados às atividades ilícitas de Mazini.
O falecimento de Enrico Di Vaio e o destino do CRM
Enrico Di Vaio foi velado e enterrado na sexta-feira, dia 20, embora a causa exata de seu falecimento ainda não tenha sido confirmada publicamente. A morte do titular do CRM levanta questões sobre o futuro das investigações e a responsabilização no âmbito criminal. De acordo com apurações, sua punibilidade será extinta no inquérito policial, o que significa que o Estado perde o direito de puni-lo por qualquer crime relacionado ao caso. Anteriormente, a Delegacia de Cananéia havia solicitado à Delegacia de Santos que Di Vaio prestasse depoimento. Permanece incerto se ele chegou a depor antes de seu falecimento, e a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) não forneceu informações sobre o andamento do depoimento até o momento. A ausência de seu testemunho pode impactar a elucidação de detalhes cruciais sobre o suposto conluio entre os sócios e a extensão de sua participação.
A prisão de Wellington Mazini e a revelação da farsa
Wellington Mazini, o empresário que utilizava o CRM de Enrico Di Vaio para atuar como falso médico, foi preso em 7 de janeiro. Sua impostura foi descoberta de forma inusitada e chocante: durante um exame em uma paciente, Mazini afirmou ter visualizado a vesícula biliar dela, um órgão que a mulher não possuía. Esse erro grotesco expôs a farsa e levou à sua imediata detenção. O Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) negou o pedido de soltura de Mazini, considerando que sua liberdade representava um risco à sociedade, dada a gravidade de suas ações. Em sua defesa, Mazini alegou ter agido a mando do próprio Enrico Di Vaio, afirmando que receberia R$ 1,5 mil pelo serviço prestado em Cananéia. Essa declaração sugere uma possível cumplicidade, que agora se torna mais difícil de ser integralmente apurada com a morte de Di Vaio. O Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp) também está apurando o caso, buscando entender as falhas no sistema que permitiram a fraude.
Desdobramentos legais e as vítimas da impostura
O impacto da atuação do falso médico se estende para além do âmbito criminal, atingindo diretamente as vidas de pacientes que foram submetidos a procedimentos por um profissional não habilitado. As consequências emocionais e físicas das ações de Wellington Mazini estão sendo abordadas em esferas cíveis, enquanto a investigação policial busca mapear a amplitude de sua conduta e as falhas que permitiram sua reincidência. A busca por justiça para as vítimas se torna um dos pilares desse complexo caso, que revela a vulnerabilidade da população diante de fraudes na área da saúde.
As ações indenizatórias e a violação da intimidade
A gravidade da situação foi ainda mais evidenciada com as ações judiciais movidas por cinco mulheres que foram atendidas por Mazini. Elas buscam uma indenização de R$ 250 mil — R$ 50 mil para cada uma — por danos morais, após terem sido submetidas a exames de ultrassom transvaginal realizados pelo falso profissional. A petição enviada à Justiça destaca que a conduta de Mazini representou “extrema exposição e vulnerabilidade”, com uma indevida violação da intimidade das vítimas. O advogado das mulheres ressaltou que a situação gerou “intenso constrangimento e sofrimento psíquico” e criticou a omissão na fiscalização por parte da empresa gestora do hospital e do próprio município de Cananéia, que deveriam garantir a segurança e a qualificação dos profissionais atuantes em suas instalações. A ação foi protocolada de forma solidária, o que significa que qualquer um dos réus, incluindo o hospital ou a empresa gestora, pode ser acionado para pagar o valor integral da indenização. Por sua vez, o advogado de Wellington Mazini, Celino Barbosa Netto, afirmou que a defesa ainda não foi citada sobre as ações cíveis, argumentando que os fatos narrados nessas ações dependem “inexoravelmente da decisão da ação penal”.
Histórico de acusações e a abrangência da fraude
As investigações revelaram que o caso de Cananéia não foi um incidente isolado na trajetória de Wellington Mazini. Apenas quatro meses antes de sua prisão na Baixada Santista, ele já havia sido alvo de acusações semelhantes na região de Santo Amaro, na Grande São Paulo. Em setembro de 2023, um empresário o denunciou, juntamente com familiares, por uma série de crimes graves, incluindo associação criminosa, estelionato, falsidade ideológica e apropriação indébita. Naquela ocasião, Mazini também se passava pelo mesmo médico, Enrico Di Vaio, utilizando seu CRM para realizar, pelo menos, dez atendimentos. Entre os procedimentos mencionados na denúncia, estavam ultrassonografias de próstata, vias urinárias e abdômen total. O documento alertava para o grave risco à saúde de diversos pacientes que foram submetidos a exames por um indivíduo sem qualquer habilitação médica. Embora o Ministério Público e a Polícia Civil tenham sido acionados para investigar as denúncias anteriores, não houve retorno sobre o andamento dessas investigações até o momento, levantando preocupações sobre a eficácia da resposta das autoridades a avisos prévios de conduta ilegal.
A denúncia do Ministério Público e as penas previstas
O Ministério Público (MP) de São Paulo formalizou a denúncia contra Wellington Augusto Mazini Silva, imputando-lhe uma série de crimes que refletem a gravidade de suas ações e o perigo que representou para a saúde pública. As acusações abrangem estelionato, pelo fato de ter obtido vantagem ilícita em prejuízo de outrem, exercício ilegal da medicina, por atuar sem a devida qualificação e registro profissional, falsidade material, por alterar ou usar documentos falsos, e perigo para a vida ou saúde de outrem, dada a natureza dos procedimentos que realizou sem habilitação.
As penas previstas para a somatória desses crimes podem atingir até 13 anos de reclusão, dependendo da decisão judicial e da aplicação das qualificadoras. A acusação formaliza a visão da Promotoria sobre a conduta de Mazini, que não se limitou a um simples engano, mas sim a uma prática reiterada e intencional de fraude com graves consequências para a saúde dos pacientes. A defesa de Wellington Mazini, representada pelo advogado Celino Netto, por sua vez, classificou a acusação como “inflada” e juridicamente controversa. O advogado ressaltou que o processo ainda se encontra em fase inicial, o que permite à defesa argumentar e apresentar provas para contestar as alegações do MP. Segundo a defesa, os fatos serão analisados detalhadamente pelo Poder Judiciário ao longo da ação penal, garantindo o devido processo legal e a oportunidade de elucidação de todos os pontos controversos. A complexidade do caso, que agora inclui o falecimento de um dos pivôs da trama, promete um desfecho desafiador e de grande interesse público.
Conclusão
A morte de Enrico Di Vaio adiciona uma camada de complexidade e incerteza a um dos mais chocantes casos de fraude médica recentes no litoral de São Paulo. Com Wellington Mazini detido e denunciado, a ausência de um testemunho crucial do titular do CRM pode dificultar a completa elucidação da teia de cumplicidade e responsabilidades. Enquanto as investigações prosseguem, as ações cíveis movidas por pacientes lesadas destacam o impacto humano devastador da impostura, revelando a urgência de fortalecer os mecanismos de fiscalização e proteção à saúde pública. Este caso serve como um alerta contundente sobre a necessidade de rigor e transparência nos serviços de saúde, garantindo que a confiança dos pacientes não seja jamais traída por fraudadores.
FAQ
Quem era Enrico Di Vaio e qual seu papel no caso?
Enrico Di Vaio era o médico legítimo e sócio de Wellington Mazini, cujo número de CRM foi utilizado indevidamente por Mazini para se passar por médico e realizar exames em hospitais. Ele faleceu em Santos durante as investigações.
Como a fraude do falso médico foi descoberta?
A fraude foi descoberta quando Wellington Mazini, atuando como falso médico, afirmou ter visto a vesícula biliar de uma paciente, órgão que ela não possuía. Esse erro grotesco expôs sua impostura.
Quais são as acusações contra Wellington Mazini e as possíveis penas?
Wellington Mazini foi denunciado pelo Ministério Público por estelionato, exercício ilegal da medicina, falsidade material e perigo para a vida ou saúde de outrem. As penas somadas podem chegar a 13 anos de reclusão.
O que são as ações cíveis movidas contra Mazini?
São ações de indenização por danos morais movidas por cinco mulheres que foram submetidas a exames de ultrassom transvaginal por Mazini. Elas pedem R$ 50 mil cada, alegando “extrema exposição e vulnerabilidade” e violação da intimidade.
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Fonte: https://g1.globo.com
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