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© Rodrigo Campanário/Divulgação

Da Desvalorização à Renda: A Revolução Culinária da Ubarana e o Empoderamento Feminino na Pesca do Rio

Na Baixada Fluminense, Rio de Janeiro, um movimento notável tem transformado a realidade de mulheres pescadoras na comunidade de Magé. A Associação de Caranguejeiros e Amigos dos Mangue de Magé (ACAMM) tornou-se o epicentro de uma inovação que, ao resgatar e valorizar saberes tradicionais, catapultou a economia local. No cerne dessa transformação está a ubarana, um peixe que, até então, era largamente desprezado pelo mercado e pelos próprios pescadores, mas que agora se revela uma fonte vital de sustento e orgulho.

Esta é a história de como a criatividade na cozinha, aliada à persistência e ao conhecimento ancestral, não apenas gerou novas oportunidades econômicas, mas também fomentou o empoderamento social e a união comunitária em torno de um recurso natural subestimado.

Sabor e Tradição: A Reinvenção da Ubarana na Cozinha

A sede da ACAMM abriga a Cozinha das Caranguejeiras, um espaço onde a ubarana ganha vida em uma profusão de pratos. Longe da simples preparação para consumo, as mulheres desenvolveram um repertório culinário diversificado, que inclui estrogonofe, escondidinho, almôndegas, bolinhos, coxinhas, croquetes, quibes e risoles. A técnica de processamento da carne do peixe, transmitida de geração em geração, foi a chave para agregar valor a esse ingrediente. Esses pratos são comercializados em almoços especiais, organizados para a comunidade, turistas, pesquisadores e empresas, além de atenderem a encomendas, criando um novo fluxo de renda.

Márcia Regina, pescadora aposentada e figura central na associação, destaca a importância desse intercâmbio: “A gente pega muitos turista, pessoas de faculdade, ou que estão estudando a área ambiental e vêm conversar com a gente. São empresas que passam por lá, pessoas que têm interesse em conhecer o nosso trabalho e vão lá almoçar com a gente. Nisso, a gente vai fomentando as mulheres caranguejeiras.”

De Peixe Desprezado a Oportunidade Econômica

O baixo valor comercial da ubarana era um reflexo direto de suas características. A bióloga Verônica Souza, do Projeto Andadas Ecológicas da ONG Guardiões do Mar, explica que o peixe, comum em ambientes costeiros e estuarinos da Baía de Guanabara, possui muitas espinhas finas e espalhadas. Essa particularidade dificulta seu preparo em filés, tornando-o menos atraente para o consumo geral e, consequentemente, para o mercado. Tradicionalmente, pescadores e consumidores preferiam espécies com menos espinhas.

Contudo, o que era um obstáculo para outros, tornou-se um desafio superado pelas mulheres da ACAMM. Elas desenvolveram uma forma própria de beneficiamento que permite aproveitar integralmente a carne da ubarana, sem que as espinhas sejam percebidas. Essa inovação, conforme Rafael Santos, presidente da ACAMM, não foi imposta, mas surgiu organicamente da comunidade. Inicialmente um complemento para a segurança alimentar, a ubarana passou a ser servida como petisco em reuniões da associação, até que a sugestão de um visitante impulsionou a ideia de comercialização. “Foi uma organização delas mesmas dentro do território, cada uma trazendo ao produto um pouco da sua própria casa”, relata Rafael, enfatizando a natureza colaborativa da descoberta do valor econômico do peixe.

Além da Renda: Impacto Social e Fortalecimento Comunitário

A iniciativa transcende a mera geração de renda, funcionando como um pilar de apoio social. Márcia Regina, hoje auxiliar geral da Cozinha e secretária da ACAMM, ressalta o papel terapêutico do trabalho conjunto. “São pratos feitos com ubarana e assim temos ajudado 15 famílias. As mulheres, às vezes com depressão, vão para a cozinha e acabam ficando boas. Porque, juntas, a gente começa a conversar, contar casos, histórias e problemas nossos. Uma ajudando a outra. Acaba sendo uma ação social dentro da Cozinha. Tem sido muito bom e ainda gera renda”, compartilha Márcia, que presidiu a associação por 12 anos.

A história das caranguejeiras no Rio Suruí remonta a décadas, com a cata de caranguejos como principal sustento. A ubarana já era beneficiada para consumo próprio, trazida pelos maridos pescadores. A formalização e expansão desse trabalho comercial para a cozinha inaugurada em 2023 representou um salto significativo. A estrutura física da Cozinha das Caranguejeiras também evoluiu, conquistando um endereço provisório em 2021 com recursos do Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio), e transferindo-se para um espaço maior na ACAMM três anos depois, após aprovação em outro edital.

Atualmente, 15 mulheres atuam diretamente nesse projeto, consolidando um modelo que é tanto um sucesso econômico quanto um exemplo inspirador de resiliência e cooperação.

A experiência das mulheres da ACAMM em Magé é um poderoso testemunho de como o conhecimento tradicional, quando aliado à inovação e à organização comunitária, pode reverter situações de desvalorização e gerar progresso. Ao transformar a ubarana de um peixe outrora ignorado em um ingrediente gourmet, elas não apenas criaram uma nova fonte de renda sustentável para dezenas de famílias, mas também fortaleceram os laços sociais e o bem-estar mental de suas participantes.

Este caso demonstra o potencial da culinária criativa como ferramenta de desenvolvimento local e reafirma a importância de valorizar os recursos e os saberes que emergem das próprias comunidades, pavimentando um caminho para um futuro mais próspero e equitativo.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br