A cidade de Bonito, em Mato Grosso do Sul, sedia a partir desta sexta-feira (24) a quarta edição do Bonito CineSur, um festival de cinema concebido como um ponto de encontro e integração para o audiovisual sul-americano. Estendendo-se até 1º de agosto, o evento se propõe a ser um espaço dinâmico de intercâmbio cultural, e, de forma não deliberada pela curadoria, apresenta ao público uma notável diversidade de filmes que abordam contextos e narrativas indígenas, oferecendo uma janela para a riqueza cultural do continente.
A Filosofia Curatorial por Trás da Seleção
A organização do Bonito CineSur pauta-se por uma abordagem curatorial flexível, que evita temas, gêneros ou estilos predefinidos. Segundo Zé Geraldo Couto, um dos curadores da mostra Sul-Americana, a busca reside em uma combinação de valores como qualidade estética e narrativa, relevância temática e a capacidade de engajar um público amplo. A seleção final emerge da oferta de filmes disponíveis em cada temporada, permitindo identificar tendências e estabelecer conexões orgânicas entre as obras inscritas, sem imposições prévias que limitem a liberdade artística ou a diversidade temática.
O Protagonismo Inesperado das Culturas Indígenas
Apesar de não ser uma diretriz inicial, o festival percebeu um aumento significativo de obras que mergulham em questões indígenas. Essa temática se manifesta de forma proeminente em diversas mostras, incluindo a Mostra Ambiental, a Sul-Mato-Grossense e em sessões especiais. Zé Geraldo Couto pondera que, embora a presença ainda possa ser considerada pequena frente à importância desses povos na maioria dos países sul-americanos, sua relevância se alinha perfeitamente com as preocupações centrais do festival: meio ambiente e pluralidade cultural. A luta pela defesa da natureza, afinal, é intrínseca à preservação e valorização dos povos originários.
Narrativas Antigas e Novas Perspectivas na Tela
Entre os destaques da programação com foco indígena, encontra-se o documentário “Aldeia de Nalike”, uma obra de Claude e Dina Lévi-Strauss de 1936, que registra o povo Kadiwéu em Porto Murtinho (MS). Este filme, originalmente silencioso e rodado em 16 milímetros, receberá uma trilha sonora e musical original, criada especialmente para esta edição, buscando recompor e potencializar o resgate histórico. Marcos Pierry, curador da Mostra Sul-Mato-Grossense, ressalta a importância de “Aldeia de Nalike” em seus 90 anos, evidenciando a evolução da abordagem do tema indígena: de um olhar meramente folclórico para um enfoque mais sensível, onde os próprios indígenas assumem a frente e a retaguarda das câmeras para contar suas histórias, seja documentando, denunciando ou explorando a ficção. Essa mudança representa uma vasta riqueza e uma oportunidade de aprendizado para todos.
Outras produções relevantes incluem “Vípuxovuko-Aldeia”, de Dannon Lacerda, que explora a comunidade Terena de Campo Grande (MS) sob uma ótica queer e ancestral, e “Minha Terra Estrangeira”, dos cineastas João Moreira Salles e Louise Botkay. Este último, um longa documental, acompanha o líder indígena Almir Suruí e sua filha Txai em sua luta pela preservação da Amazônia, abordando temas cruciais como território, resistência e o futuro. Almir Suruí é uma presença aguardada e acompanhará uma sessão especial do filme na noite de terça-feira (28).
A dimensão internacional também é contemplada com obras como o curta colombiano “Sukua”, sobre um menino Cogui e sua pistola d'água, e o boliviano “Uma Uñjirinaka Cuidadorxs del Água”, que ilustra comunidades na luta contra a contaminação hídrica. Essas produções reforçam a interconexão das questões ambientais e culturais em todo o continente.
Homenagem a Vincent Carelli: O Legado do Vídeo nas Aldeias
O festival também presta homenagem ao cineasta Vincent Carelli, que será agraciado com o Troféu Pantanal em reconhecimento à sua vasta e impactante obra cinematográfica. Carelli é conhecido por filmes como “Corumbiara” e “Martírio”, e por ter idealizado o projeto “Vídeo nas Aldeias”. Criado em 1986, essa iniciativa pioneira de capacitação audiovisual foi fundamental para a produção de mais de 70 filmes realizados pelos próprios indígenas. Carelli enfatiza que o cinema alcança um novo patamar de interesse e autenticidade quando os povos originários narram suas próprias vivências, transformando o ato de filmar em um poderoso exercício de autovalorização e um meio de ir além dos documentários tradicionais.
O Impacto do Cinema Indígena na Autonarrativa
A perspectiva de Carelli sobre a importância dos indígenas como criadores de suas próprias narrativas é central para a compreensão da evolução do cinema etnográfico. Ele argumenta que, embora os filmes sobre a realidade indígena ainda sejam válidos, o verdadeiro enriquecimento cultural e a autovalorização das comunidades ocorrem quando elas mesmas tomam as rédeas da produção audiovisual. Este processo não apenas documenta suas realidades, mas também permite a experimentação com a ficção e a exploração de suas próprias subjetividades e visões de mundo, fortalecendo a identidade e a voz desses povos no cenário cultural mais amplo.
Bonito CineSur: Um Hub Cultural no Coração do Brasil
Realizado no Centro de Convenções de Bonito, na exuberante região da Serra da Bodoquena, o Bonito CineSur se consolida como um importante polo cultural e um catalisador para o diálogo e a integração audiovisual na América do Sul. Ao apresentar uma programação que, de forma orgânica, destaca a riqueza e a complexidade das culturas indígenas, o festival não apenas oferece entretenimento de qualidade, mas também cumpre um papel fundamental na promoção da conscientização, do respeito e da valorização dos povos originários e de suas lutas, reafirmando a diversidade como pilar essencial da identidade sul-americana.
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