A demolição do bloco H22, uma estrutura residencial projetada pelo renomado arquiteto Oscar Niemeyer e localizada no Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA), em São José dos Campos (SP), marca o fim de um marco da arquitetura moderna brasileira. As imagens da desconstrução, que transformam gradualmente a fachada outrora icônica em entulho, reacendem o debate sobre a preservação do patrimônio histórico. A Força Aérea Brasileira (FAB) justifica a medida por “patologias estruturais” e “inviabilidade técnico-econômica” de recuperação, argumentando que a construção de uma nova edificação seria a alternativa mais segura e eficiente. Críticos, incluindo o bisneto de Niemeyer, lamentam a perda, sugerindo que o edifício poderia ter sido um centro de referência internacional, destacando a complexidade da decisão entre preservação histórica e segurança estrutural.
A demolição de um marco arquitetônico
A estrutura do bloco H22, um conjunto de moradias militares que se destacava pela assinatura inconfundível de Oscar Niemeyer, está sendo gradualmente desmantelada. Localizado dentro da área do DCTA, este edifício era reconhecido como um dos primeiros trabalhos do arquiteto no estado de São Paulo, concebido ainda na década de 1940. Seu projeto inovador incorporava soluções de ventilação natural e conceitos de conforto ambiental que, à época, representavam avanços significativos na arquitetura brasileira. A demolição, em andamento, transformou parte da estrutura em um amontoado de concreto e ferro, alterando permanentemente a paisagem do complexo aeroespacial.
Controvérsia e legado de Niemeyer
A notícia da demolição gerou uma onda de questionamentos e críticas por parte de especialistas e defensores do patrimônio. Paulo Niemeyer, bisneto do lendário arquiteto, expressou profundo pesar pela perda. Ele argumenta que o edifício possuía potencial para ser preservado e transformado em um espaço de projeção internacional, comparando a demolição à destruição de obras de artistas como Alfredo Ceschiatti ou Aleijadinho. Para Paulo, a preocupação excessiva com a rentabilidade em detrimento da preservação é um equívoco que impede o reconhecimento do valor intrínseco de tais obras. “Perde-se no DCTA uma chance absurda, uma oportunidade inequívoca de transformar aquilo numa referência mundial, como se fosse uma Brasília”, declarou.
A história da construção do bloco H22 é, por si só, um capítulo fascinante da arquitetura nacional. O projeto de Niemeyer, vencedor de um concurso, enfrentou um veto político do então presidente Eurico Gaspar Dutra, devido à filiação do arquiteto ao Partido Comunista. Para contornar a situação e garantir a execução da obra, o idealizador do DCTA, Marechal Casimiro Montenegro Filho, articulou para que os arquitetos Fernando Saturnino de Britto e Rosendo Mourão assinassem oficialmente o projeto. Essa manobra histórica sublinha a relevância e a originalidade da visão de Niemeyer, mesmo em um contexto de adversidades políticas. Flávio Mourão, filho de Rosendo, também lamenta a situação, enfatizando que a falta de manutenção ao longo dos anos agravou os problemas estruturais, mas que é crucial valorizar a história da arquitetura brasileira para construir um futuro mais sólido.
Justificativas técnicas e a postura da FAB
A Força Aérea Brasileira (FAB), responsável pelo DCTA, emitiu uma nota oficial detalhando os motivos que levaram à decisão pela demolição do bloco H22. Segundo a instituição, a edificação, construída na década de 1950, começou a apresentar fissuras e outras manifestações patológicas estruturais ao longo do tempo. Inicialmente, essas anomalias foram tratadas pontualmente com intervenções corretivas localizadas, consideradas compatíveis com o grau de severidade aparente e as limitações orçamentárias da época. A FAB ressalta que, nesse período, não havia indícios técnicos conclusivos que justificassem intervenções estruturais de grande porte.
Histórico de patologias e inviabilidade econômica
Um estudo técnico de 2003 já apontava para problemas estruturais no edifício, incluindo rachaduras e comprometimento da base, embora não haja confirmação se essa avaliação era de conhecimento da administração do DCTA na época. A FAB informa que, entre 2003 e 2016, não houve uma intervenção estrutural ampla, pois as patologias se manifestavam de forma gradual e eram tratadas conforme surgiam. No entanto, com a reincidência e a evolução das manifestações, que resultaram na fragilização do terreno e na perda da capacidade de suporte do solo, estudos técnicos mais aprofundados foram iniciados em 2016.
Diante do agravamento do quadro, a edificação foi desocupada preventivamente para garantir a segurança dos usuários e evitar riscos de acidentes. Em 2019, um relatório técnico elaborado com base em metodologias atualizadas e inspeções aprofundadas concluiu pela inviabilidade técnico-econômica de recuperação ou reforma do bloco. A comparação entre o custo de uma reforma complexa e a construção de um novo prédio que atendesse às necessidades operacionais e de segurança pesou na decisão. Em 2023, o Comando da Aeronáutica (COMAER), amparado por esses pareceres técnicos, aprovou o processo de demolição, que já está em execução. A FAB esclarece que a inviabilidade não se deve apenas à manutenção rotineira, mas a uma análise integrada de custo-benefício, segurança estrutural e expectativa de vida útil remanescente.
A instituição também mencionou um trabalho de graduação de 2011, que analisava patologias em edificações do DCTA, explicando que este possuía caráter acadêmico e didático-científico, sem validade de laudo técnico oficial. O estudo, contudo, já reconhecia que patologias significativas demandavam elevados investimentos financeiros para correção. A FAB reafirma seu profundo respeito pelo legado de Oscar Niemeyer e seu compromisso com a preservação da cultura histórica e do patrimônio, mas prioriza a segurança e a integridade física dos usuários na gestão de seu patrimônio imobiliário.
O complexo DCTA e a importância da preservação
O DCTA, onde o bloco H22 estava inserido, é uma instituição de grande relevância nacional. Criado em 1954, o departamento tem como missão dar suporte ao Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), uma das principais instituições de ensino superior do país, e atua no ensino, pesquisa e desenvolvimento de tecnologias aeroespaciais. O complexo abriga 12 organizações militares dedicadas a essas finalidades, formando um ecossistema de inovação e conhecimento.
A demolição de uma obra de Niemeyer dentro de um complexo de tal envergadura reitera a tensão entre o avanço tecnológico e a salvaguarda do patrimônio. Enquanto a FAB argumenta com a necessidade de segurança e a eficiência de novas construções, os críticos apontam para o valor inestimável de obras que transcendem a funcionalidade, tornando-se símbolos da identidade cultural e da história de um país. A discussão sobre o bloco H22 reflete um dilema comum em nações com vasto patrimônio arquitetônico: como equilibrar a modernização e a manutenção estrutural com a responsabilidade de preservar a memória e a arte para as futuras gerações.
Perguntas frequentes sobre a demolição do Bloco H22
Por que o Bloco H22 foi demolido?
O Bloco H22 foi demolido devido a patologias estruturais progressivas, como fissuras e perda de capacidade de suporte do solo, que tornaram sua recuperação ou reforma inviável técnico-economicamente, segundo pareceres da Força Aérea Brasileira (FAB). A demolição foi considerada a melhor opção para garantir a segurança e a funcionalidade.
Quem foi Oscar Niemeyer e qual sua importância para o Bloco H22?
Oscar Niemeyer foi um dos mais importantes arquitetos brasileiros, renomado por seu estilo moderno e curvas distintivas. O Bloco H22 foi um de seus primeiros projetos em São Paulo, concebido na década de 1940, e é considerado um marco da arquitetura moderna brasileira, incorporando soluções inovadoras de ventilação e conforto ambiental.
Houve tentativas de preservação ou restauro do Bloco H22?
Segundo a FAB, intervenções corretivas pontuais foram realizadas ao longo dos anos para tratar manifestações patológicas localizadas. No entanto, após estudos técnicos aprofundados iniciados em 2016 e um relatório de 2019, concluiu-se que uma recuperação integral do edifício seria inviável economicamente e estruturalmente, comparado à construção de uma nova edificação. Críticos, como o bisneto de Niemeyer, argumentam que a preservação deveria ter sido priorizada.
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Fonte: https://g1.globo.com
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