G1

Bienal de Arquitetura Brasileira: projetos inovadores de moradia em destaque

A primeira edição da Bienal de Arquitetura Brasileira (BAB) abriu suas portas ao público, apresentando uma coleção vibrante de obras arquitetônicas de todas as regiões do país. Arquitetos renomados e emergentes tiveram a oportunidade de conceber projetos em espaços de 100 m², buscando encapsular a essência e a “alma” de seus respectivos estados. O resultado é uma jornada fascinante pela diversidade do Brasil, onde a Bienal de Arquitetura Brasileira se torna um palco para a criatividade e a inovação. Os visitantes podem explorar ambientes que vão desde salas com areia no chão, remetendo ao litoral nordestino, até estruturas que utilizam bambu, barro e madeira, evocando biomas e modos de vida distintos. Esses projetos, distribuídos em pavilhões inspirados na Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Pampas e Pantanal, oferecem uma visão contemporânea da arquitetura brasileira, profundamente enraizada no território, clima e cultura local.

Arquitetura que reflete a alma brasileira: projetos regionais em destaque

A Bienal de Arquitetura Brasileira é um verdadeiro mosaico da identidade nacional, com cada projeto representando a riqueza cultural e ambiental de seu estado. As obras expostas transcendem a mera construção, transformando-se em narrativas de memória, resistência e modos de vida.

Norte e Nordeste: da Amazônia ao litoral

A diversidade do Norte e Nordeste é celebrada através de projetos que exploram a relação íntima entre o homem e a natureza, a história e as tradições construtivas.

Acre: Casa Empate
A Casa Empate é mais que um abrigo; é um manifesto de memória e resistência. Inspirada nas mobilizações dos seringueiros contra o desmatamento, o projeto exalta o papel das mulheres acreanas na defesa da floresta. Sua arquitetura subverte a lógica doméstica tradicional, integrando espaços privados e coletivos para promover escuta, convivência e articulação social. A materialidade, baseada em saberes amazônicos, utiliza superfícies permeáveis, luz filtrada e ventilação natural, conectando a casa ao ritmo da mata. A vegetação incorporada reforça essa simbiose, propondo um habitar pautado no cuidado, na justiça ambiental e na valorização das culturas locais.

Bahia: Casa do Mastro
A Casa do Mastro traduz a atmosfera artística e espiritual da Bahia em uma linguagem arquitetônica essencial, marcada por cores intensas e materiais naturais. Inspirado em vilas litorâneas, o projeto integra paisagem, clima e cotidiano em uma proposta aberta e afetiva, que celebra o vínculo com o território e o modo de viver local. A arquitetura se ergue como expressão de identidade, articulando memória, estética e pertencimento. Conceitualmente, dialoga com a trajetória de Valquito Lima, mestre dos mastros sagrados, incorporando a dimensão simbólica de sua obra. O resultado é um espaço que funde ancestralidade e contemporaneidade, destacando a simplicidade como elemento sofisticado.

Ceará: Projeto “É o Mar”
O projeto “É o Mar” oferece uma leitura sensorial da conexão entre o Ceará e seu território, onde o mar e o sertão moldam modos de vida e de construção. Representando as mulheres cearenses através da figura da Casa de Maria, a proposta evoca memória, afeto e identidade em uma morada contemporânea. O espaço valoriza o cotidiano como eixo estruturador do habitar, conectando tradição e experiência. Estratégias climáticas como ventilação cruzada, sombreamento e controle de luz promovem integração com a natureza e conforto ambiental. A materialidade, com tons terrosos, madeira, cerâmica e elementos artesanais, reforça o vínculo com a cultura local e o fazer manual.

Maranhão: Casa Pedro Neves
A Casa Pedro Neves convida a uma imersão na cultura maranhense, criando um ambiente de atmosfera terrosa e acolhedora. O barro, presente no piso e nas paredes, evoca ancestralidade, o fazer artesanal e a memória. A referência a uma oca reinterpretada guia a ideia de abrigo e pertencimento. A paleta de azul e vermelho, inspirada na bandeira do estado, traduz identidade e vitalidade: o azul remete ao mar, ao céu e aos azulejos de São Luís, enquanto o vermelho traz a energia das manifestações populares.

Pará: Projeto “Caminho dos Rios”
O projeto “Caminho dos Rios” transforma o território amazônico em uma experiência arquitetônica fluida, inspirada no traçado dos rios que estruturam o estado. Em um loft de 100 m², curvas orgânicas guiam o percurso como cursos d’água, conectando ambientes e criando uma narrativa sensorial que entrelaça cultura, memória e modos de vida. Rios como Xingu, Tapajós, Marajó e Guamá aparecem como referências simbólicas, sustentando identidades e deslocamentos. A materialidade reforça essa leitura, utilizando madeira, palha e texturas naturais, além de integrar obras de artistas locais e acervos ligados a diferentes povos da região.

Paraíba: Projeto “Do Sertão, ao Verde e Mar”
O projeto “Do Sertão, ao Verde e Mar” propõe uma leitura sensível do território paraibano, transformando seus biomas em uma experiência arquitetônica. Concebido como uma travessia espacial, o ambiente percorre Sertão, Agreste e Litoral, traduzindo em arquitetura as mudanças de paisagem e modos de habitar. No Sertão, a materialidade remete à aridez da Caatinga, com soluções que evocam abrigo e resistência; no Agreste, os espaços se abrem à convivência e à vitalidade; já no Litoral, luz, ventilação e leveza ampliam a relação com o exterior.

Rio Grande do Norte: Casa de Veraneio
A Casa de Veraneio é uma síntese entre memória afetiva, identidade potiguar e linguagem contemporânea. Inspirada pela vivência à beira-mar e referências pessoais do Rio Grande do Norte, o projeto propõe uma arquitetura que valoriza o pertencimento e a produção local. Inserida no contexto do bioma da Caatinga, a casa articula clima, cultura e paisagem em uma leitura atual do morar, onde tradição e design se encontram. Com cerca de 100 m², a residência integra living, jantar, cozinha e área íntima em um espaço fluido, marcado por elementos naturais e soluções adaptadas ao litoral, como o teto de bambu e a presença de muxarabi.

Centro-Oeste e Sudeste: diversidade cultural e urbana

A complexidade e a urbanidade dessas regiões são exploradas em projetos que questionam e reafirmam identidades arquitetônicas.

Distrito Federal: Casa Moderno no Viver
O projeto da Casa Moderno no Viver parte de uma provocação: existe uma arquitetura do Distrito Federal além de Brasília? Ao observar o crescimento espontâneo das cidades-satélite, a casa reconhece a ausência de uma identidade arquitetônica consolidada, levando à capital como principal referência afetiva. Brasília, mais que um ícone urbanístico, é entendida como uma presença cotidiana e sensorial, construída pela vivência coletiva e a força de seus edifícios públicos. A proposta traduz essa monumentalidade para a escala doméstica, criando um ambiente que busca reproduzir não a forma, mas a sensação de estar na cidade, com elementos como carpete verde, paredes curvas e mobiliário que reinterpretam a arquitetura institucional.

Goiás: Casa de Amélia
A Casa de Amélia parte de uma narrativa afetiva para traduzir a memória de uma mulher que construiu sua vida em Goiás através do cuidado e do convívio. O projeto tem a cozinha como eixo central, entendida como lugar de encontro e permanência, onde gestos cotidianos como cozinhar ganham significado. O fogo surge como elemento simbólico, articulando dimensões sensoriais e culturais do espaço. A materialidade, a luz e o percurso reforçam essa atmosfera, criando uma experiência que valoriza o tempo, a presença e as relações, expressando de forma sensível o modo de habitar goiano.

Mato Grosso: Loft da Preservação Cuiabana
No “Loft da Preservação Cuiabana”, os arquitetos propõem uma reflexão sobre identidade e preservação a partir do Pantanal e do território mato-grossense. Concebido como um loft de 100 m², o espaço traduz de forma sensorial e contemporânea a relação entre natureza, cultura e modo de vida local. A inspiração no bioma guia tanto a narrativa quanto as escolhas arquitetônicas, criando um ambiente que valoriza pertencimento e memória através de uma leitura sofisticada da paisagem e da cultura regional. A materialidade aposta em elementos naturais como barro, madeira e cerâmica, com formas orgânicas e volumetrias que reinterpretam curvas da paisagem e referências vernaculares.

Mato Grosso do Sul: Casa Ñandejara
A Casa Ñandejara propõe um refúgio contemporâneo inspirado na figura de um poeta e pecuarista, traduzindo a identidade de Mato Grosso do Sul. Em cerca de 100 m², o projeto articula tradição e vanguarda para construir uma atmosfera sensorial ligada ao território. A fluidez orienta o espaço, com paredes curvas em madeira que remetem às lagoas pantaneiras e organizam os ambientes sem rupturas. A materialidade incorpora referências diretas ao estado, como a pedra Vitória Régia e tons que evocam o céu e as águas da região. O mobiliário brasileiro inclui peças de Sérgio Rodrigues e do estúdio Lattoog, e a curadoria de arte reúne nomes como Conceição dos Bugres e Alice Yura.

Rio de Janeiro: Casa Corcovado
A Casa Corcovado parte da ideia de traduzir a “bossa carioca” — uma combinação de leveza, sofisticação e informalidade — em um apartamento fora do Rio. O projeto busca encurtar distâncias afetivas ao recriar, no espaço doméstico, referências do modo de viver carioca. Priorizando o uso cotidiano, integra espaços que estimulam convivência, descanso e uma rotina mais desacelerada. O projeto se organiza em dois eixos: na área social, tons de verde e azul e materiais naturais evocam a relação entre mar e floresta; na área íntima, cores quentes criam uma atmosfera de acolhimento.

São Paulo: Projeto “Tão Paulista quanto a Avenida”
O projeto “Tão Paulista quanto a Avenida” explora o encontro de três elementos centrais do território paulista: a cultura caipira, a arquitetura brutalista e a presença da Mata Atlântica. A proposta analisa como essas camadas — do modo de vida no interior à força da produção arquitetônica e à paisagem natural — constroem a identidade cultural e espacial do estado. Essas referências são articuladas através da materialidade, das texturas e da organização do espaço, criando uma atmosfera que aproxima natureza, cultura e construção, revelando o entrelaçamento desses elementos no modo de habitar paulista.

Sul do país: identidade e acolhimento

As casas do Sul do Brasil refletem uma arquitetura discreta, funcional e profundamente conectada ao território, valorizando o abrigo e o encontro.

Paraná: A Casa que Dança
O habitar paranaense n’A Casa que Dança é marcado pelo encontro entre natureza, história e influências culturais diversas. Na capital, predominam moradias mais reservadas, pensadas para o clima frio, com organização racional e estética sem excessos. Já no interior, o cotidiano mais lento se traduz em casas amplas, integradas ao quintal e à paisagem, com uso de materiais que carregam memória. Em comum, está a ideia do lar como abrigo, um espaço de recolhimento que equilibra privacidade e hospitalidade.

Rio Grande do Sul: Projeto “Querência Amada”
O projeto “Querência Amada” propõe uma leitura contemporânea da identidade gaúcha a partir da ideia de pertencimento. Mais que um lugar físico, a querência é tratada como um abrigo simbólico que acompanha o indivíduo, reunindo memória, afeto e identidade. Inspirado nas paisagens do sul do país e na cultura do encontro, o espaço valoriza a convivência, a permanência e a contemplação. A proposta reinterpreta referências do universo campeiro com linguagem atual, apostando em uma materialidade de tons terrosos, madeira, tecidos e texturas naturais, equilibrando rusticidade e sofisticação para traduzir o espírito gaúcho.

Inovação e sustentabilidade: a casa impressa em 3D

Além dos projetos que celebram a diversidade regional, a Bienal de Arquitetura Brasileira surpreende com uma proposta audaciosa que aponta para o futuro da construção: uma casa com pilares “impressos” por um robô, inspirados em galhos de bananeira e montados como peças de Lego.

Tecnologia pioneira na construção civil

Desenvolvido pelo escritório Superlimão em parceria com a startup Portal 3D e o laboratório Digital Construction Lab (DCLab) da USP, este projeto utiliza a impressão 3D de concreto em larga escala, uma tecnologia ainda pouco difundida no país. A estrutura da casa é formada por pilares produzidos por um braço robótico, adaptado da indústria automotiva. O robô atua como uma impressora 3D em escala ampliada, depositando microconcreto de alta resistência, camada por camada, até formar as paredes. Cada pilar leva cerca de quatro horas para ser produzido, em etapas que garantem o resfriamento do material.

Essa tecnologia combina equipamentos já conhecidos em canteiros de obras, como bomba e misturador de concreto, com softwares sofisticados e linguagem de programação. Mateus Fernandes, fundador da Portal 3D, destaca que a adaptação de tecnologias existentes foi crucial. Além da precisão, a inovação responde a uma crescente demanda da construção civil: a falta de mão de obra. Com este sistema, apenas duas pessoas conseguem operar o equipamento sem esforço físico intenso, aliviando a carga de trabalho pesado e a dificuldade de encontrar profissionais qualificados.

Biomimética e design inteligente

Mais do que uma solução tecnológica, o projeto da casa impressa em 3D abraça a biomimética, mimetizando soluções da natureza. Os pilares foram inspirados no formato leve e resistente do galho da folha da bananeira. Em vez de tijolos sólidos e pesados, a proposta foi criar peças ocas, com cavidades internas que lembram sistemas naturais como os ossos de pássaros, funcionando como colchões de ar. Isso ajuda a manter a temperatura interna mais estável e melhora o isolamento acústico.

Lula Gouveia, do Superlimão, explica que a lógica por trás é a economia e a eficiência. Ao trabalhar com estruturas otimizadas e ocas, o projeto utiliza menos concreto sem perder resistência, o que reduz custos, diminui o impacto ambiental e melhora o desempenho térmico da casa. A casa ainda utiliza madeira de reúso e “flutua” sobre o terreno, inspirada nas palafitas do Norte e construções do Sul do Brasil. Essa elevação garante conforto térmico, proteção natural e permite que a estrutura seja implantada sem impermeabilizar o solo. O fechamento é composto por mantas de lã de PET reciclado e revestimento natural de terra, que atua como um regulador térmico e de umidade, funcionando como um “pulmão natural” para o ambiente.

Montagem “Lego” e futuro da construção

Após a produção, os pilares foram içados por guindastes e transportados para o Parque Ibirapuera, onde a casa foi montada. O processo foi comparado pelos próprios criadores a um jogo de encaixe de Lego. Os seis pilares-paredes funcionam simultaneamente como estrutura e vedação parcial, seguindo o conceito de construção off-site, onde os elementos são fabricados fora do canteiro e apenas montados no local. A proposta futurista é levar o próprio robô até a obra.

A casa também foge do padrão tradicional em seu formato, adotando uma geometria hexagonal (que pode se tornar pentagonal), o que ajuda a distribuir melhor o espaço, melhora a acústica e cria uma sensação mais acolhedora. Segundo Lula Gouveia, a referência remete a construções como ocas indígenas ou coretos, mas reinterpretadas com alta tecnologia. A estrutura ficará exposta por cerca de um mês no Ibirapuera e, em vez de ser descartada, será desmontada e reconstruída em outro local, democratizando o acesso a essa tecnologia inovadora.

O futuro do morar no Brasil

A Bienal de Arquitetura Brasileira vai além de uma simples exposição, consolidando-se como um evento fundamental para a compreensão e o futuro da arquitetura no país. Ao reunir projetos de todas as regiões, ela demonstra a riqueza da nossa identidade cultural e a capacidade de inovar a partir de nossas próprias raízes. Seja nas casas que traduzem a alma de seus estados ou na revolucionária moradia impressa em 3D, a Bienal apresenta soluções práticas, viáveis e esteticamente relevantes para o desafio de morar no Brasil. O diretor-executivo do evento, Rafael Tristão, enfatiza que a proposta é mostrar uma arquitetura que transcende o discurso técnico e acadêmico, conectando-se diretamente ao dia a dia das pessoas, oferecendo novas perspectivas para a construção civil e o design de interiores, e celebrando a fusão de tradição e vanguarda.

Perguntas frequentes sobre a Bienal

1. O que é a Bienal de Arquitetura Brasileira (BAB)?
A Bienal de Arquitetura Brasileira (BAB) é um evento inaugural que reúne obras de arquitetos de todas as regiões do Brasil. Seu objetivo é exibir projetos que expressam a alma e a identidade de cada estado, focando em como território, clima e cultura local moldam o modo de morar, além de apresentar inovações tecnológicas no setor.

2. Que tipo de projetos são apresentados na BAB?
A BAB apresenta dois grandes tipos de projetos: casas que representam a diversidade regional do Brasil, com referências aos seus biomas (Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Pampas e Pantanal) e modos de vida locais; e projetos inovadores, como uma casa impressa em 3D, que explora novas tecnologias e conceitos de sustentabilidade na construção civil.

3. Qual é a importância da casa impressa em 3D apresentada na Bienal?
A casa impressa em 3D é um dos destaques da Bienal, pois representa o futuro da construção. Desenvolvida com tecnologia de impressão 3D de concreto em larga escala e princípios de biomimética, ela demonstra como é possível construir de forma mais eficiente, com menos material, menor dependência de mão de obra e maior sustentabilidade. O projeto é um marco na inovação e na busca por soluções construtivas ambientalmente conscientes.

4. Onde e por quanto tempo a Bienal de Arquitetura Brasileira está exposta?
A primeira edição da Bienal de Arquitetura Brasileira está exposta no Parque Ibirapuera, em São Paulo, e os projetos podem ser visitados pelo público por cerca de um mês a partir de sua abertura. A casa impressa em 3D, inclusive, será desmontada e reconstruída em outro local após o evento, visando ampliar o acesso à tecnologia.

Descubra as tendências e a riqueza da arquitetura nacional. Visite a Bienal de Arquitetura Brasileira e explore o futuro do morar no país.

Fonte: https://g1.globo.com

Deixe uma resposta

Seu endereço de e-mail não será publicado.Os campos obrigatórios são marcados *

*

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.