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© José Cruz/Agência Brasil

Cora Coralina: A Alquimia da Vida em Poesia e Doces Lembranças

Em um dia que ressoa com o sabor da infância e a delicadeza dos versos, celebramos a memória de uma das mais queridas figuras da literatura brasileira: Cora Coralina. Nascida Anna Lins de Guimarães Peixoto Bretas, em 20 de agosto de 1889, na Cidade de Goiás, a doceira que se transformou em poetisa completaria 137 anos, se ainda estivesse entre nós. Sua trajetória, um testemunho de resiliência e paixão pela vida, é um convite para explorar a riqueza de uma existência que, literalmente, fez da cozinha um laboratório, das mãos uma ferramenta de criação e da palavra, o ingrediente essencial.

Esta data especial, aliás, parece ter sido talhada para ela: 20 de agosto é também o Dia do Vizinho e o Dia do Cozinheiro. Coincidências que Cora, com seu olhar arguto para o cotidiano, certamente apreciaria, visto que considerava o vizinho o parente mais próximo e seus doces, um legado tão valioso quanto seus escritos. O programa Viva Maria abre seu baú de recordações para homenagear essa mulher de alma inquieta e mãos habilidosas, que nos ensinou que nunca é tarde para transformar a vida em pura poesia.

A Jornada de Anna Lins: De Goiás ao Mundo

Anna Lins de Guimarães Peixoto Bretas, que o mundo viria a conhecer como Cora Coralina, passou sua infância na cidade natal de Goiás. Apesar de ter frequentado apenas a escola primária, sua vocação para a palavra e a observação já despontava. Aos 22 anos, em 1911, deixou a Cidade de Goiás rumo a São Paulo, onde, em 1925, casou-se com um advogado mineiro. Sua vida familiar se expandiu com seis filhos, quinze netos e trinta bisnetos, enquanto residia em diversas cidades paulistas, como Avaré, Jaboticabal, Andradina, Penápolis e a capital. Após a morte do marido em 1934, Cora eventualmente retornaria às suas raízes, marcando um novo capítulo em sua existência.

Da Cozinha à Poesia: A Doceira que Floresceu aos 75

Foi em 1956, aos 67 anos, que Cora Coralina fez seu emblemático retorno à casa onde nasceu, na Cidade de Goiás. Esse regresso marcou o início de uma prolífica fase como doceira, atividade que manteve por mais 14 anos, transformando os tachos de cobre em símbolos de sua arte e sustento. A simplicidade e a profundidade de sua visão se manifestavam tanto na doçaria quanto na poesia. Acreditando que o riso era sua própria definição da vida, Cora moldava versos com a mesma facilidade e maestria com que criava seus renomados doces cristalizados.

Curiosamente, foi em seu aniversário, 20 de agosto, ao retornar a Goiás, que ela instituiu o Dia do Vizinho e o Dia do Cozinheiro, datas que refletem sua filosofia de vida: valorizar as relações humanas e quem prepara o alimento. Apesar de ter começado a escrever aos 14 anos, seus 'quitutes literários' demoraram sete décadas para serem publicados. Somente aos 75 anos, Anna Lins deixou de ser a doceira Aninha para, oficialmente, se consagrar como a poeta Cora Coralina, revelando ao mundo uma obra de beleza e sabedoria incomparáveis.

O Reconhecimento e o Legado Imortal de Cora

A doçura e a genialidade de Cora Coralina foram, em grande parte, reveladas ao Brasil e ao mundo pelo poeta Carlos Drummond de Andrade. Aos 90 anos, Cora recebeu de Drummond uma carta repleta de elogios, onde ele declarava: 'Aninha hoje não nos pertence, é patrimônio de todos nós que nascemos no Brasil e amamos a poesia.' Esse reconhecimento chancelou a importância de sua obra e a consolidou no panteão da literatura nacional.

Cora Coralina faleceu em 10 de abril de 1985, aos 95 anos, em Goiânia, mas não sem antes presentear o mundo com sete livros que eternizam sua voz e sua visão: 'Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais', 'Meu Livro de Cordel', 'Estórias da Casa Velha da Ponte', 'O Tesouro da Casa Velha', 'Vintém de Cobre', e os infantis 'Meninos Verdes' e 'A Moeda de Ouro que o Pato Engoliu'. Essas obras habitam para sempre a Cidade de Goiás, que Cora chamava carinhosamente de 'minha cidade', e onde se identificava profundamente: 'Eu sou amorosa de tuas ruas estreitas, curtas, indecisas, entrando e saindo uma das outras. Eu sou a menina feia da Ponte da Lapa, eu sou a Aninha'.

Uma Visita Imersiva à Casa-Museu Cora Coralina

Para honrar e sentir de perto a essência de Cora, o programa Viva Maria realizou em 2010 uma visita muito especial à Casa-Museu Cora Coralina, na Cidade de Goiás Velho. Acompanhada pelas poetas Kênia Silva e Dra. Lívia Martins, a equipe mergulhou nas memórias e nos objetos que moldaram a vida da escritora. Naquele ambiente carregado de história, foi possível reviver os passos da poeta e compreender a profundidade de sua conexão com o local.

A casa, onde Cora passou toda a infância e para onde retornou em 1956, é um relicário de sua existência. Lá, os visitantes podem ver os tachos de cobre onde a doceira preparava suas iguarias e imaginar o ambiente que inspirou tantos versos. Essa visita permite não apenas conhecer a biografia, mas também sentir a atmosfera de uma vida que, mesmo após sua morte, continua a inspirar através de suas palavras e do espírito que impregna cada canto de seu lar. A Casa-Museu é um convite permanente para todos que desejam se conectar com a força transformadora de Cora Coralina.

Cora Coralina nos deixou um legado que transcende a literatura e se enraíza na própria filosofia de viver. Sua vida, marcada por desafios, renúncias e uma fé inabalável no poder da transformação, é um farol para todos que acreditam que nunca é tarde para perseguir os próprios sonhos e dar voz à própria essência. Através de seus doces e de seus versos, ela permanece viva, ensinando-nos que a beleza da existência reside na capacidade de encontrar poesia nos pequenos gestos e na coragem de ser quem somos, em qualquer idade. A memória de Cora Coralina é um convite perene à celebração da vida em sua forma mais autêntica e inspiradora.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br