A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central de manter a taxa Selic em 15% ao ano, pela quinta vez consecutiva, gerou uma onda de repercussão negativa entre os principais representantes do setor produtivo brasileiro. Anunciada em 28 de dezembro, a medida provocou fortes críticas de entidades da indústria, da construção civil e de centrais sindicais, que manifestaram profunda preocupação com os impactos adversos sobre a atividade econômica, a oferta de crédito e a geração de empregos no país. Para essas organizações, o patamar atual dos juros básicos impõe um ônus excessivo à economia, desconsiderando sinais de desaceleração da inflação e sufocando o potencial de crescimento. A pressão por um ciclo de flexibilização monetária é crescente, dada a percepção de que a manutenção da Selic neste nível elevado é insustentável a longo prazo.
Indústria e a pressão por flexibilização monetária
A Confederação Nacional da Indústria (CNI), uma das mais influentes entidades do setor produtivo, foi enfática em sua avaliação. Segundo a CNI, o atual patamar da Selic impõe um custo elevado e desnecessário à economia brasileira, afetando diretamente a competitividade das empresas e a capacidade de investimento. A entidade argumenta que a decisão do Copom desconsiderou a trajetória recente de desaceleração da inflação, que vinha dando sinais de convergência para o centro da meta. Para o presidente da CNI, Ricardo Alban, o Banco Central deveria ter iniciado um ciclo de flexibilização monetária, ou seja, de corte dos juros, para estimular a economia.
CNI: Custo elevado e inflação sob controle
Em nota divulgada após a decisão, a CNI criticou a postura do Copom, afirmando que ao manter a Selic em um nível tão restritivo, o comitê estaria prejudicando o crescimento econômico e aprofundando a desaceleração já observada em diversos setores. A entidade ressaltou que a inflação corrente e as expectativas inflacionárias já demonstram uma clara tendência de convergência para o centro da meta. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 2025, por exemplo, fechou em 4,26%, ligeiramente abaixo do teto da meta de 4,5%. Além disso, projeções do Boletim Focus, uma pesquisa semanal do Banco Central com economistas, indicam uma inflação de 4% para 2026 e uma convergência gradual para 3% nos anos seguintes, patamar que seria compatível com um cenário de juros mais baixos.
A distância da taxa neutra de juros
Outro ponto levantado pela CNI é a discrepância entre a taxa real de juros e a taxa neutra estimada pelo próprio Banco Central. Atualmente, a taxa real de juros, que desconta a inflação esperada da Selic, segue em torno de 10,5% ao ano. Esse valor está cerca de 5,5 pontos percentuais acima da taxa neutra estimada pelo Banco Central, que representa o patamar de juros que não estimula nem desestimula a economia. Essa diferença elevada sugere que a política monetária está significativamente contracionista, muito além do que seria necessário para controlar a inflação, e com um custo alto para o crescimento e para o endividamento público.
Setor da construção civil alerta para freio no desenvolvimento
O setor da construção civil, um dos maiores empregadores do país e termômetro da atividade econômica, também manifestou profunda preocupação com a manutenção da Selic. A Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), por meio de seu presidente Renato Correia, destacou os efeitos deletérios dos juros elevados sobre um segmento tão sensível ao crédito e ao investimento de longo prazo.
Restrições ao crédito imobiliário e seus reflexos
Correia explicou que a política monetária restritiva impacta diretamente o crédito imobiliário, tornando os financiamentos mais caros e menos acessíveis para a população. Esse encarecimento do crédito, por sua vez, reduz a demanda por novos empreendimentos, seja para moradia ou para uso comercial, e dificulta significativamente a viabilização de projetos de construção. Muitas obras que poderiam gerar emprego e renda acabam sendo adiadas ou canceladas devido aos altos custos de financiamento. “Uma política monetária contracionista desacelera a atividade econômica como um todo e afeta toda a cadeia produtiva da construção, com reflexos prolongados sobre o nível de emprego e a renda das famílias”, pontuou o presidente da CBIC, salientando o impacto social e econômico da decisão do Copom.
Cautela versus impacto social: Outras visões sobre a Selic
Enquanto grande parte do setor produtivo criticava a decisão, outras entidades apresentaram uma visão mais moderada, ponderando os desafios enfrentados pelo Banco Central. No entanto, o tom mais duro veio das centrais sindicais, que viram na manutenção dos juros uma “irresponsabilidade social”.
A Associação Comercial e as incertezas macroeconômicas
A Associação Comercial de São Paulo (ACSP), por exemplo, avaliou que a decisão do Copom reflete uma postura de cautela diante de um cenário macroeconômico ainda marcado por incertezas fiscais e externas. O economista Ulisses Ruiz de Gamboa, da ACSP, destacou que, apesar da desaceleração da atividade econômica, a inflação e as expectativas inflacionárias ainda se mantêm acima da meta. Para Gamboa, o comunicado oficial do Copom seria decisivo para entender se haveria alguma sinalização de início do ciclo de cortes de juros nas próximas reuniões, indicando uma janela para futuras flexibilizações. Essa perspectiva sugere que o Banco Central estaria agindo com base em uma leitura mais ampla e preventiva dos riscos.
Centrais sindicais: juros altos e o ônus da população
As centrais sindicais reagiram de forma mais contundente à manutenção da taxa Selic. A Central Única dos Trabalhadores (CUT) afirmou que a permanência dos juros nesse patamar mantém o Brasil no topo do ranking mundial de países com as maiores taxas de juros reais, penalizando duramente a população brasileira. Juvandia Moreira, presidenta da Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT), enfatizou que “juros altos encarecem o crédito para empresas e consumidores, o que, por sua vez, reduz o consumo e resulta em menos investimentos e, consequentemente, em menos empregos”. A entidade ainda alertou para o impacto sobre as contas públicas, calculando que cada ponto percentual de aumento da Selic acrescenta aproximadamente R$ 50 bilhões aos gastos públicos com o pagamento de juros da dívida. A Força Sindical classificou a decisão como uma “irresponsabilidade social”, acusando o Banco Central de favorecer a especulação financeira em detrimento do setor produtivo e do bem-estar social. Miguel Torres, presidente da Força Sindical, argumentou que a atual política monetária restringe o crédito, eleva o endividamento das famílias e trava o desenvolvimento econômico do país, aprofundando desigualdades sociais.
A persistência do patamar elevado: Entendendo a decisão do Copom
Apesar da forte onda de críticas e da pressão crescente por uma flexibilização, o Comitê de Política Monetária manteve a taxa Selic pela quinta vez consecutiva em 15% ao ano, o patamar mais elevado desde 2006. A decisão, embora contestada por alguns setores, esteve em linha com a expectativa da maioria dos analistas de mercado, que já antecipavam a manutenção dos juros em meio a um cenário macroeconômico complexo.
Cenário macroeconômico e expectativas do mercado
O contexto que levou o Copom a reiterar sua política monetária restritiva é multifacetado. Embora haja sinais de desaceleração da inflação, o índice ainda se encontra acima da meta estabelecida pelo Banco Central. Paralelamente, persistem as incertezas fiscais, com preocupações sobre a trajetória da dívida pública e a capacidade do governo de cumprir suas metas fiscais. Soma-se a isso um cenário de riscos externos, que incluem instabilidades geopolíticas e a desaceleração da economia global, fatores que podem impactar a inflação doméstica e a atividade econômica. Diante desses elementos, o Banco Central busca equilibrar o controle da inflação com a necessidade de estimular o crescimento, optando, por ora, pela prudência e pela continuidade de uma política mais restritiva para ancorar as expectativas e garantir a estabilidade de preços no médio prazo.
Desafios econômicos e o caminho para o crescimento
A manutenção da taxa Selic em 15% ao ano evidencia o complexo dilema econômico que o Brasil enfrenta: equilibrar o controle inflacionário com a necessidade urgente de estimular o crescimento e a geração de empregos. A reação do setor produtivo, da indústria à construção civil e às centrais sindicais, sublinha a percepção de que a política monetária atual impõe um fardo pesado sobre a economia real, dificultando investimentos, encarecendo o crédito e freando o desenvolvimento. Embora o Banco Central aponte para a necessidade de cautela diante de incertezas fiscais e riscos externos, o clamor por um início de ciclo de cortes de juros se intensifica, com o argumento de que a inflação já demonstra sinais de arrefecimento e que a taxa real de juros é excessivamente alta. O desafio para as próximas reuniões do Copom será encontrar o ponto de equilíbrio que permita uma flexibilização monetária sem comprometer a estabilidade de preços, abrindo caminho para um cenário mais favorável ao crescimento sustentável e à recuperação econômica do país.
Perguntas frequentes (FAQ)
O que é a taxa Selic e qual sua importância?
A taxa Selic é a taxa básica de juros da economia brasileira. Ela é o principal instrumento do Banco Central para controlar a inflação. Sua importância reside no fato de que ela influencia todas as outras taxas de juros do país, como as de empréstimos, financiamentos e aplicações financeiras, afetando diretamente o custo do crédito e o poder de compra da população.
Por que a manutenção da Selic em 15% é considerada negativa pelo setor produtivo?
Para o setor produtivo, juros altos encarecem o crédito para empresas, dificultando investimentos em expansão, modernização e geração de empregos. Também eleva o custo dos financiamentos para consumidores, reduzindo o consumo e a demanda por produtos e serviços. Isso tudo desacelera a atividade econômica e impacta negativamente o crescimento.
O que são “incertezas fiscais e externas” mencionadas na decisão do Copom?
Incertezas fiscais referem-se a dúvidas sobre a capacidade do governo de gerenciar suas finanças, como o cumprimento de metas de déficit e dívida pública, o que pode pressionar a inflação. Riscos externos são eventos no cenário global (como crises econômicas em outros países ou conflitos geopolíticos) que podem afetar a economia brasileira, seja pela valorização do dólar, alta nos preços de commodities ou impacto no fluxo de investimentos.
Acompanhe as próximas decisões do Copom e as análises dos especialistas para entender como a taxa Selic continuará a influenciar o cenário econômico brasileiro.
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