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Tamanduá-bandeira é flagrado nadando em rio no interior de São Paulo

ALESP

A rotina de um guia de pesca no Rio Grande, próximo a Miguelópolis, no interior de São Paulo, foi interrompida por um espetáculo raro e surpreendente. Ítalo Tadeu Sousa, acostumado com as águas e a vida selvagem da região, testemunhou uma cena que ele jamais havia presenciado em seus três anos de experiência: um tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla) atravessando o rio a nado. O avistamento, ocorrido no final da tarde, por volta das 17h30, chocou o guia pela inusitada exibição de um mamífero terrestre em um ambiente aquático, levantando questões sobre os motivos que levaram o animal a tal travessia e a crescente interação entre a vida selvagem e os habitats modificados pelo ser humano.

O inesperado encontro nas águas

O dia de trabalho de Ítalo Tadeu Sousa, guia de pesca com vasta experiência na bacia do Rio Grande, seguia seu curso habitual quando, ao retornar para sua pousada, uma figura incomum rompeu a tranquilidade do fim de tarde. No meio das águas, um animal de grande porte se debatia, em uma movimentação que, à primeira vista, era difícil de identificar. A curiosidade e a surpresa foram imediatas. Ao se aproximar para entender o que estava acontecendo, Ítalo se deparou com a cena inacreditável: um tamanduá-bandeira, uma espécie tipicamente terrestre, nadando com visível esforço para cruzar o rio.

O tamanduá, que pode atingir mais de dois metros de comprimento e pesar mais de 40 kg, movia-se de forma desajeitada, mas determinada, pelas águas. A cena, capturada em vídeo, revela um comportamento raramente observado e que desafia a percepção comum sobre os hábitos desses animais. O guia, que nunca tinha avistado algo semelhante, expressou uma mistura de admiração e preocupação ao ver o tamanduá lutar contra a correnteza. O animal parecia ter como objetivo alcançar a margem oposta, onde a mata ofereceria abrigo e segurança, mas a força da água dificultava sua progressão.

A travessia e o destino incerto

Apesar do esforço, o tamanduá-bandeira demonstrava dificuldades para vencer a correnteza. Ítalo observou que o animal tentava, sem sucesso, subir em direção à represa, sendo repetidamente levado rio abaixo pela força da água. A cena, embora fascinante, gerou apreensão no guia, que sentiu-se incapaz de intervir sem colocar em risco tanto o animal quanto a si próprio. O desfecho da travessia permaneceu incerto para o observador. Após o avistamento e o registro, o tamanduá não foi mais visto nas imediações, levando Ítalo a acreditar que, apesar dos obstáculos, o animal conseguiu finalmente alcançar a segurança da margem e seguir seu caminho. Esse tipo de deslocamento em rios, especialmente em trechos com correnteza, representa um alto custo energético para a espécie, que não está adaptada a esforços prolongados em ambientes aquáticos.

Um comportamento aquático incomum

Apesar da raridade do registro, a capacidade do tamanduá-bandeira de nadar não é totalmente desconhecida pela ciência. A médica veterinária Carime Carrera Pinhatti explica que, embora a espécie possua habilidades para se locomover na água e goste de se refrescar em córregos, rios e lagos, a cena de um tamanduá nadando ativamente para atravessar um rio é considerada incomum e não é algo presenciado com frequência. O mamífero, conhecido por seu porte robusto, é capaz de cruzar de uma margem a outra, mas essa travessia, especialmente em rios com correnteza intensa ou em longas distâncias, só é empreendida em situações de extrema necessidade.

O ato de nadar é uma atividade energeticamente desgastante para o tamanduá-bandeira. Carime ressalta que um deslocamento aquático prolongado ou em condições adversas pode representar um risco significativo para o animal, principalmente se ele já estiver debilitado, estressado ou fugindo de alguma ameaça. As razões que levam um tamanduá a se aventurar nas águas são variadas e complexas, refletindo, muitas vezes, desequilíbrios em seu ambiente natural e a pressão crescente da atividade humana.

Causas e riscos da travessia

As causas prováveis para um tamanduá-bandeira entrar na água em uma travessia como a observada podem incluir a fuga de predadores naturais, como onças-pintadas ou suçuaranas, embora a presença humana e a caça também sejam fatores de estresse importantes. É possível que o animal tenha se assustado com algo em seu ambiente terrestre, sendo forçado a buscar refúgio na água como uma rota de escape. Outra possibilidade é a busca por recursos. A fragmentação do habitat, com a perda de áreas naturais e a expansão de atividades agrícolas e urbanas, muitas vezes força os animais a percorrerem distâncias maiores e a enfrentarem obstáculos, como rios, na busca por alimento, abrigo ou para encontrar parceiros para reprodução. A ausência de pontes naturais ou passagens seguras para a fauna pode transformar um rio em uma barreira intransponível, obrigando o tamanduá a correr riscos.

O tamanduá-bandeira no cenário atual

Os avistamentos de tamanduás-bandeira em áreas próximas a centros urbanos ou em situações atípicas, como a travessia de rios, têm se tornado mais frequentes. Segundo a médica veterinária Carime Carrera Pinhatti, essa maior visibilidade não significa necessariamente que a população do animal esteja crescendo descontroladamente, mas sim que a interação com os humanos está se intensificando devido a uma série de fatores ambientais e antrópicos. A fragmentação do habitat é apontada como um dos principais catalisadores dessas aparições.

À medida que as áreas naturais se tornam cada vez mais isoladas e menores, os tamanduás-bandeira são forçados a atravessar estradas, rios e, por vezes, até mesmo áreas urbanas em seus deslocamentos diários. A especialista enfatiza que esses encontros não devem ser interpretados como uma “invasão” dos animais nas cidades, mas sim como uma consequência da ocupação humana em territórios que, historicamente, faziam parte do habitat natural desses animais. A expansão das cidades, a agropecuária e a construção de infraestruturas modificam a paisagem, pressionando a fauna e alterando seus padrões de comportamento. O aumento da circulação de pessoas, especialmente em períodos de férias ou lazer em áreas rurais, também contribui para o maior número de avistamentos e registros desses animais.

A espécie e sua conservação

O tamanduá-bandeira, conhecido cientificamente como Myrmecophaga tridactyla, e popularmente como papa-formigas, tamanduá-açu ou jurumim, é o maior representante de sua família. As fêmeas, que são geralmente maiores que os machos, podem atingir até 2 metros de comprimento, sendo que apenas a cauda pode medir cerca de 90 cm. O nome popular “bandeira” se deve justamente a essa cauda grande e peluda, que lembra uma bandeira hasteada e que tem a função de cobertor térmico para o animal, especialmente durante o descanso.

A espécie possui uma vasta distribuição geográfica pela América Latina, ocorrendo em quase todos os biomas brasileiros, com exceção do extremo sul (Pampa). Apesar de sua ampla ocorrência, o tamanduá-bandeira é classificado como uma espécie vulnerável pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), devido à perda e fragmentação de seu habitat, atropelamentos, queimadas e caça. Sua dieta consiste principalmente de formigas e cupins, que ele captura com sua longa língua pegajosa, mas também inclui besouros e outros invertebrados. Possui hábitos solitários e um olfato apurado, que compensa sua visão limitada. Após o período reprodutivo, as fêmeas carregam seus filhotes nas costas, oferecendo proteção e transporte.

Recomendações em caso de avistamento

Ao avistar um animal silvestre, como o tamanduá-bandeira, a principal recomendação é manter distância e não tentar se aproximar. Uma tentativa de contato, por mais bem-intencionada que seja, pode estressar o animal, levando-o a reações imprevisíveis ou prejudicando seu deslocamento e segurança. A ajuda sem o treinamento adequado pode colocar tanto a pessoa quanto o animal em risco, devido às garras longas e fortes do tamanduá, usadas para escavar e se defender.

Em situações onde o animal pareça ferido, exausto, desorientado ou em perigo iminente – como em risco de afogamento ou atropelamento – é fundamental acionar as autoridades competentes. A Polícia Militar Ambiental, órgãos de defesa ambiental ou o Corpo de Bombeiros são as instituições indicadas para realizar o resgate de forma segura e profissional. Eles possuem o treinamento e os equipamentos necessários para lidar com a fauna silvestre. Somente em casos de extrema urgência e com a devida cautela, o resgate pode ser feito por leigos, mas sempre priorizando a segurança e evitando o contato direto com o animal, que, apesar de geralmente dócil, é selvagem e pode reagir instintivamente para se proteger.

Perguntas frequentes

É comum ver tamanduás-bandeira nadando em rios?
Não, embora os tamanduás-bandeira tenham habilidade para nadar e gostem de se banhar, é um comportamento raro vê-los atravessando rios de forma ativa. Geralmente, isso ocorre apenas em situações de extrema necessidade, como fuga ou busca por recursos.

O que devo fazer se avistar um tamanduá-bandeira na natureza ou perto de áreas urbanas?
Mantenha distância e não tente se aproximar ou interagir com o animal. Caso ele pareça ferido, desorientado ou em perigo (ex: perto de uma estrada movimentada, dentro de uma cidade), entre em contato imediatamente com a Polícia Militar Ambiental ou outros órgãos de resgate de fauna silvestre.

Por que os tamanduás-bandeira estão sendo avistados com mais frequência em locais incomuns?
O aumento dos avistamentos está ligado à fragmentação de seus habitats naturais devido à expansão urbana, agrícola e industrial. Isso força os animais a percorrerem distâncias maiores e a atravessarem áreas modificadas pelo homem em busca de alimento, abrigo ou para se deslocarem dentro de seus territórios.

Qual a importância da cauda do tamanduá-bandeira?
A cauda grande e peluda do tamanduá-bandeira, que lhe confere o nome, funciona como um cobertor térmico. O animal a utiliza para se cobrir e se proteger do frio ou do calor excessivo enquanto dorme ou descansa, além de auxiliar no equilíbrio.

Este flagrante nos lembra da delicada coexistência entre a vida selvagem e o avanço humano. Que tal aprender mais sobre as ações de conservação para proteger o tamanduá-bandeira e outros animais de nossa rica fauna? Pequenas atitudes, como apoiar projetos de preservação e respeitar os limites da natureza, fazem a diferença.

Fonte: https://g1.globo.com

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