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Estudo relaciona risco de morte por dengue à desigualdade social

ANUNCIO COTIA/LATERAL

Uma análise aprofundada revelou que a mortalidade por dengue no Brasil está intrinsecamente ligada às profundas disparidades sociais existentes no país. O levantamento, de caráter nacional, aponta que populações em cenários de maior vulnerabilidade social enfrentam barreiras significativas no acesso a diagnósticos precisos e ao cuidado em saúde necessário. Essa dificuldade impacta diretamente a capacidade de resposta do sistema de saúde, resultando em desfechos mais graves para grupos específicos. A pesquisa, que examinou mais de 3 milhões de casos da doença em território brasileiro, buscou compreender os fatores que elevam a probabilidade de óbito até 15 dias após o início da infecção. As conclusões sublinham que a desigualdade no acesso a recursos e serviços é um determinante crítico na letalidade da dengue, tornando-se um desafio premente para a saúde pública.

A face da desigualdade na mortalidade por dengue

Análise abrangente e dados preocupantes

A pesquisa meticulosa demonstrou que a mortalidade por dengue não se distribui de maneira uniforme entre a população brasileira, sendo notavelmente mais prevalente em segmentos sociais que convivem com a vulnerabilidade. Os dados coletados de milhões de casos permitiram identificar padrões claros e preocupantes. Indivíduos que residem na região Nordeste do Brasil, aqueles que se autodeclaram de raça/cor negra, pessoas com baixa escolaridade e famílias que habitam moradias com infraestrutura precária e condições insatisfatórias de saneamento básico são desproporcionalmente afetados.

Um dos achados mais contundentes do estudo é que pessoas negras enfrentam um risco de morte aproximadamente duas vezes maior nos primeiros 15 dias após o surgimento dos sintomas da dengue, em comparação com indivíduos brancos. Essa disparidade alarmante não apenas expõe uma falha sistêmica no acesso igualitário à saúde, mas também ressalta como a raça/etnia, entre outros marcadores sociais, se cruza com determinantes de saúde, influenciando drasticamente o desfecho de uma doença prevenível e tratável. A baixa escolaridade, por sua vez, pode estar associada a menor acesso a informações sobre prevenção e reconhecimento precoce dos sintomas, bem como a empregos com menor flexibilidade para buscar atendimento médico. As condições habitacionais e de saneamento, por fim, criam ambientes mais propícios à proliferação do mosquito Aedes aegypti e dificultam a adoção de medidas preventivas eficazes, perpetuando o ciclo da doença e aumentando a exposição a riscos.

Barreiras no acesso à saúde e subnotificação

Desafios no diagnóstico e cuidado oportuno

As dificuldades enfrentadas por populações vulneráveis transcendem a mera exposição ao mosquito. A pesquisa destaca que a vulnerabilidade social se traduz diretamente em obstáculos no acesso ao diagnóstico precoce e ao cuidado adequado em tempo oportuno. Em casos de dengue grave, a hidratação rápida e supervisionada é um fator crucial para a recuperação. Contudo, em regiões e comunidades com infraestrutura de saúde deficiente ou acesso limitado a serviços básicos, o tempo entre o início dos sintomas e o atendimento médico pode ser excessivo, comprometendo significativamente as chances de sobrevivência.

A demora na procura por auxílio médico, muitas vezes impulsionada pela falta de recursos financeiros para o transporte, pela necessidade de conciliar trabalho e saúde, ou pela ausência de unidades de saúde próximas, agrava o quadro. Quando o atendimento finalmente ocorre, o paciente já pode estar em um estágio avançado da doença, onde as intervenções são mais complexas e menos eficazes. Além disso, a qualidade do atendimento e a disponibilidade de insumos e profissionais capacitados variam consideravelmente entre as diferentes regiões e classes sociais, criando um abismo na qualidade do cuidado prestado.

A questão da subnotificação de óbitos

Outro ponto crítico levantado pela pesquisa refere-se às falhas no registro das causas de morte. A análise identificou uma subnotificação de óbitos pela doença, o que significa que o número real de mortes por dengue pode ser ainda maior do que os dados oficiais indicam. Essa imprecisão nos registros representa um desafio adicional para as políticas de saúde pública. Quando as informações sobre a incidência e a mortalidade da doença são incompletas ou incorretas, o planejamento de estratégias de prevenção, controle e tratamento é comprometido.

A subnotificação pode ocorrer por diversos motivos, incluindo a dificuldade de diagnóstico diferencial em regiões com recursos limitados, a falta de padronização nos sistemas de informação, ou mesmo o desconhecimento dos profissionais de saúde sobre a importância do registro preciso. Esse problema impede uma compreensão clara da verdadeira magnitude do impacto da dengue na saúde pública, dificultando a alocação de recursos e a implementação de ações direcionadas às áreas mais necessitadas. Corrigir essas falhas é fundamental para que as autoridades possam desenvolver estratégias mais eficazes e baseadas em evidências.

Estratégias para combater a desigualdade e salvar vidas

Diante dos resultados alarmantes, é imperativo que sejam implementadas ações coordenadas e abrangentes para mitigar os riscos associados à dengue, especialmente entre as populações mais vulneráveis. Fortalecer a atenção primária à saúde é o primeiro passo essencial. Isso implica garantir que as unidades básicas de saúde estejam equipadas e com profissionais capacitados para identificar precocemente os casos graves de dengue, oferecendo orientação e encaminhamento adequados.

Nos demais níveis de atenção, é crucial assegurar o cuidado em tempo oportuno, com acesso rápido a tratamentos como a hidratação venosa para quadros graves. Além disso, a promoção da saúde e a prevenção da doença demandam investimentos significativos em infraestrutura básica. Ampliar o acesso ao saneamento adequado em todas as comunidades, intensificar o controle do mosquito Aedes aegypti – com foco especial nas áreas mais vulneráveis – e expandir a disponibilidade da vacina contra a dengue são medidas fundamentais. A redução das desigualdades sociais é, em última instância, uma estratégia de saúde pública que pode, e deve, salvar vidas, transformando o cenário da dengue no Brasil.

Perguntas frequentes (FAQ)

Qual a principal descoberta do estudo sobre dengue e desigualdade?
O estudo revelou que o risco de morte por dengue no Brasil está diretamente associado a desigualdades sociais, afetando desproporcionalmente populações em situação de maior vulnerabilidade.

Quais grupos sociais são mais afetados pela mortalidade por dengue?
Os grupos mais afetados incluem residentes da região Nordeste, pessoas negras, indivíduos com baixa escolaridade e famílias que vivem em moradias com saneamento e infraestrutura precárias.

Que medidas são propostas para reduzir o risco de morte por dengue em populações vulneráveis?
As medidas incluem o fortalecimento da atenção primária, garantia de cuidado oportuno (como hidratação rápida), investimento em saneamento, intensificação do controle do mosquito em áreas vulneráveis e ampliação do acesso à vacina contra a dengue.

O que significa a subnotificação de óbitos por dengue?
A subnotificação indica que o número real de mortes por dengue pode ser maior do que o registrado, devido a falhas no registro das causas de morte, comprometendo o planejamento e a efetividade das políticas de saúde pública.

Para mais informações sobre as ações de combate à dengue e a importância da equidade na saúde, procure as secretarias de saúde de sua cidade e apoie iniciativas que visam reduzir as desigualdades sociais.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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