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Justiça por Kathlen Romeu: Mãe Clama por Apoio da Sociedade em Júri de Policiais Militares

Seis anos se passaram desde a última vez que a comerciária Jacklline de Oliveira, de 45 anos, e o professor de educação física Luciano Gonçalves, de 49, celebraram o aniversário de sua única filha, Kathlen Romeu. A lembrança da festa de 24 anos, realizada no terraço da avó, no Lins de Vasconcelos, Zona Norte do Rio de Janeiro, ainda evoca na memória da mãe a alegria, a juventude e o carisma de Kathlen, que completaria 30 anos no próximo sábado. É com essa memória vívida e uma dor constante que Jacklline e Luciano se preparam para um momento crucial na busca por justiça: o julgamento dos policiais militares acusados pela morte de sua filha e de seu neto, agendado para o próximo dia 26 de novembro.

A Vida Interrompida: Sonhos, Expectativas e a Tragédia

Kathlen Romeu era descrita pela mãe como uma filha intensa, amorosa e repleta de sonhos. Com aspirações de ser modelo e conquistar sua independência financeira, ela havia trilhado um caminho de empreendedorismo, customizando e vendendo roupas desde os 15 anos. Aos 24, Kathlen vivia um momento de plena realização: havia financiado, ainda na planta, seu primeiro apartamento e esperava seu primeiro filho. No entanto, esses planos e o futuro de sua família foram brutalmente interrompidos. Grávida de quatro meses, ela foi atingida por um tiro fatal enquanto visitava a avó, na mesma residência que meses antes fora palco de sua última celebração de aniversário. Tanto Kathlen quanto seu bebê não resistiram.

Para Jacklline, a perda abrupta representou uma descida do “céu ao inferno” aos 40 anos. A mãe relata sentir-se “ganhando um tiro de fuzil” diariamente, expressando a profunda e contínua dor causada pelo Estado, que ela acusa de matá-la a cada dia desde a tragédia.

O Dia Fatídico e a Mobilização por Respostas

A fatalidade que ceifou a vida de Kathlen e de seu bebê em 8 de junho de 2021 ocorreu de forma abrupta. Kathlen e sua avó, Sayonara de Oliveira, caminhavam por uma rua movimentada quando foram surpreendidas por disparos. De acordo com a denúncia apresentada pelo Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ), policiais militares teriam efetuado os tiros na direção onde as duas estavam. A versão apresentada pelos agentes, que alegaram mirar em criminosos, nunca pôde ser comprovada, levantando sérias questões sobre a conduta policial no incidente.

Desde o ocorrido, familiares e amigos se uniram em uma incansável mobilização para que o crime não caísse no esquecimento e, principalmente, para que os responsáveis fossem devidamente identificados e julgados. Essa luta é a que culminará no próximo julgamento, representando anos de persistência e esperança por justiça.

A Batalha Judicial: O Caminho até o Tribunal do Júri

Passados seis anos do assassinato de Kathlen Romeu e de seu bebê, os policiais militares Rodrigo Correia de Frias e Marcos Felipe da Silva Salviano serão julgados pelo crime em 26 de novembro, às 10h, no Tribunal do Júri. A jornada legal tem sido complexa: inicialmente, os agentes chegaram a ser absolvidos da acusação de fraude processual na Justiça Militar. Contudo, a promotoria recorreu da decisão, e eles foram posteriormente condenados pela 6ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. Atualmente, os policiais respondem ao processo em liberdade e estão afastados de suas funções dentro da corporação.

Apesar dos obstáculos, o avanço do caso para o Tribunal do Júri é visto como uma vitória da família, em um cenário onde a impunidade frequentemente prevalece. A mãe de Kathlen enfatiza que a presença e o apoio da sociedade civil neste momento são fundamentais para que a justiça seja de fato cumprida.

O Apelo dos Pais: Um Grito por Justiça Social e Vidas

Jacklline de Oliveira e Luciano Gonçalves receberam a reportagem para compartilhar suas expectativas em relação ao julgamento. Além de uma resposta da Justiça, eles fazem um veemente apelo à sociedade civil por uma postura firme contra a letalidade policial e em defesa de uma política de segurança pública que realmente preserve vidas. Jacklline expressa a esperança de que a sociedade, que demonstrou solidariedade e indignação em 2021, mantenha-se presente e engajada no dia 26 de novembro.

A mãe de Kathlen é categórica: “Se esses policiais não forem punidos, não forem condenados, a sociedade civil também estará matando Kathlen Romeu e o seu bebê”. Este apelo ressoa em sua casa, onde um pôster de ensaio de grávida da filha, adornado por pequenas esculturas de bebês, é um lembrete constante da vida que foi ceifada. Para lidar com a dor avassaladora, Jacklline faz terapia, enquanto Luciano, em um ato de resiliência e busca por compreensão, cursa o terceiro ano de psicologia.

O Desafio da Impunidade no Rio de Janeiro e a Luta de uma Família

O caso de Kathlen Romeu, que conseguiu chegar à Justiça Criminal, contraria estatísticas alarmantes no Rio de Janeiro. Dados de 2021 da Rede de Observatórios da Segurança do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC) revelam que apenas uma pequena parcela das mortes resultantes de ações policiais resulta em denúncias judiciais. Dessas, uma fração ainda menor culmina em condenações, evidenciando um cenário generalizado de impunidade.

A família de Kathlen enfrentou não apenas a morosidade do sistema, mas também desafios diretos no processo. Eles chegaram a acionar a Corregedoria do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) contra o promotor responsável pela investigação na época. Em 2022, o promotor teria sugerido o arquivamento do processo e aconselhado a família a buscar “justiça divina”. A Corregedoria-Geral do MPRJ informou ter aberto um procedimento administrativo disciplinar (PAD) para investigar a denúncia, mas o processo acabou arquivado por falta de provas, refletindo as complexidades e resistências enfrentadas por quem busca reparação em casos de violência policial.

Um Veredito Crucial para a Sociedade

O próximo 26 de novembro não será apenas um dia de julgamento no Tribunal do Júri, mas um marco crucial para a família de Kathlen Romeu e para a sociedade fluminense. O veredito terá um peso simbólico imenso, podendo tanto reafirmar a busca por justiça e a responsabilização de agentes públicos quanto, na visão dos pais, endossar a letalidade que continua a ceifar vidas. Jacklline e Luciano, apesar da dor incessante e dos desafios enfrentados, mantêm a esperança de que a decisão final não apenas traga paz para sua família, mas também envie uma mensagem clara sobre a importância da valorização da vida e da necessidade urgente de uma segurança pública humanizada e justa.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br