© Rosinei Coutinho/STF

Zanin, do STF, suspende eleição indireta para governo do Rio

Uma nova e significativa reviravolta marcou o complexo cenário sucessório do governo do Rio de Janeiro. Na noite de sexta-feira (27), o ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), concedeu uma decisão liminar que suspende a eleição indireta para o cargo de governador-tampão do estado. A medida atende a uma reclamação do Partido Social Democrático (PSD) no Rio de Janeiro, que defende a realização de uma votação direta para a escolha do próximo mandatário, com o objetivo de preencher o período restante até 31 de dezembro de 2026. Essa decisão adiciona uma camada de incerteza ao já intrincado processo político fluminense, reabrindo o debate sobre a soberania popular e o formato da escolha do líder estadual.

A reviravolta jurídica e o princípio do voto direto

A decisão liminar de Zanin e a contestação do PSD

A decisão do ministro Cristiano Zanin, que suspendeu a eleição indireta para o governo do Rio de Janeiro, foi proferida em um dia de intensos movimentos jurídicos. Curiosamente, a medida de Zanin divergiu de outra decisão do próprio STF, que, horas antes, havia validado a eleição indireta para o governo fluminense, em análise referente à Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 7942. O pedido de suspensão foi impetrado pelo Partido Social Democrático (PSD), legenda ligada ao ex-prefeito do Rio, Eduardo Paes. O PSD tem consistentemente defendido a primazia do voto direto, argumentando que a população deve ser a responsável por escolher quem assumirá o comando do estado, mesmo que para um mandato-tampão. A liminar de Zanin coloca um freio no processo que levaria os deputados estaduais a escolherem o novo governador.

Fundamentação da suspensão e a soberania popular

Na sua fundamentação, o ministro Zanin reiterou seu posicionamento em favor do voto direto, uma visão que diverge da maioria de seus pares no STF no caso anterior. Ele classificou a renúncia do ex-governador Cláudio Castro, ocorrida na segunda-feira (23), como uma manobra com o intuito de burlar a Justiça Eleitoral. Zanin argumentou que tal ação exclui o eleitor e, consequentemente, o exercício da soberania popular da escolha do titular para o cargo de governador, ainda que em um período residual. Ele invocou o artigo 14 da Constituição Federal, que estabelece que a soberania popular é exercida pelo sufrágio universal e pelo voto direto e secreto, com valor igual para todos.

O ministro enfatizou que a suspensão da eleição indireta é uma medida essencial para garantir a segurança jurídica do processo. Zanin solicitou que a decisão final da corte seja tomada após uma análise aprofundada no plenário do Supremo Tribunal Federal, pedindo um “destaque” no julgamento da ADI 7942. No jargão jurídico, um pedido de destaque retira o processo da votação eletrônica e o transfere para o plenário presencial, permitindo um debate mais amplo e aprofundado entre os ministros. Esta ADI, também ajuizada pelo PSD, questiona pontos específicos da legislação que rege as eleições indiretas para governador, incluindo a determinação de que os parlamentares deveriam votar de forma aberta, e não secreta. Enquanto o tema não é resolvido, Zanin determinou que o presidente do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJRJ), Ricardo Couto de Castro, ocupe interinamente o posto de governador.

O intrincado cenário sucessório no Rio de Janeiro

A linha sucessória e suas interrupções

O estado do Rio de Janeiro tem vivenciado uma série de instabilidades na sua linha sucessória desde maio de 2025. Naquela ocasião, o então vice-governador Thiago Pampolha renunciou ao cargo para assumir uma vaga de conselheiro no Tribunal de Contas do Estado (TCE). Com a saída de Pampolha, o então presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), Rodrigo Bacellar (União), ascendeu à primeira posição na linha sucessória. Contudo, em 3 de dezembro de 2025, Bacellar foi preso durante a Operação Unha e Carne, da Polícia Federal, que investigava supostas ligações de políticos com o Comando Vermelho, a principal organização criminosa do estado. Por determinação do STF, Bacellar foi afastado da presidência da Alerj, mesmo após ser libertado da prisão. Na sexta-feira (27), em um desdobramento da mesma operação, ele foi novamente preso. Diante desses acontecimentos, a Alerj passou a ser presidida, de forma interina, pelo deputado Guilherme Delaroli (PL). No entanto, em função da sua interinidade, Delaroli não integra a linha sucessória para o governo.

A cassação de Castro e as eleições indiretas

A crise se aprofundou na segunda-feira (23), quando o então governador Cláudio Castro (PL) renunciou ao seu cargo. A justificativa oficial era o interesse em disputar uma vaga no Senado na eleição de outubro. Contudo, essa manobra também era vista como uma tentativa de escapar de uma possível inelegibilidade, já que Castro enfrentava um julgamento no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por abuso de poder político e econômico na campanha de reeleição de 2022. O julgamento do TSE culminou de forma desfavorável para o ex-governador, que foi considerado cassado e inelegível até 2030. A mesma decisão do TSE também cassou e tornou inelegível o deputado estadual Rodrigo Bacellar, que havia sido secretário de governo na gestão de Castro. Em consequência dessa determinação, a Justiça Eleitoral ordenou que a Alerj realizasse eleições indiretas para o governo do estado, desencadeando o processo agora suspenso pelo ministro Zanin.

Anulações e a retotalização de votos

O percurso para a eleição do governador-tampão se mostrou ainda mais tortuoso. Na quinta-feira (26), o deputado estadual Douglas Ruas, do mesmo partido de Cláudio Castro, chegou a ser eleito presidente da Alerj e, por consequência, alçado ao cargo de governador-tampão. No entanto, no mesmo dia, uma decisão do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJRJ) anulou a votação. A desembargadora Suely Lopes Magalhães, presidente em exercício do TJRJ, argumentou que o processo eleitoral na Alerj só poderia ser validamente realizado após a retotalização dos votos pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE). Essa retotalização foi determinada pelo TSE na decisão que cassou o mandato de Rodrigo Bacellar. O procedimento consiste em recontar os votos das eleições de 2022 para deputado estadual, desconsiderando os votos recebidos por Bacellar. Tal medida pode alterar significativamente a composição do Legislativo estadual, impactando as forças políticas na Alerj. O TRE marcou a cerimônia para a retotalização dos votos para a próxima terça-feira (31), evidenciando a complexidade e a interligação das diferentes instâncias jurídicas e políticas no Rio de Janeiro.

Consequências e o futuro político do estado

A decisão do ministro Cristiano Zanin representa um novo capítulo de incerteza para a governança do Rio de Janeiro, um estado já fragilizado por sucessivas crises políticas e judiciais. Ao suspender a eleição indireta e defender a soberania popular, Zanin reposiciona o debate sobre a legitimidade do processo sucessório. A medida garante, temporariamente, uma pausa para que o STF possa analisar de forma mais aprofundada as questões constitucionais envolvidas, especialmente a tensão entre o princípio do voto direto e as regras para preenchimento de vacâncias em cargos majoritários. Enquanto o plenário do Supremo não se manifesta definitivamente, o presidente do TJRJ, Ricardo Couto de Castro, assume a responsabilidade de manter a administração estadual funcionando, num cenário de indefinição que exige cautela e serenidade para o restabelecimento da estabilidade política e institucional no Rio de Janeiro.

Perguntas frequentes

O que motivou a decisão do Ministro Zanin?
O Ministro Cristiano Zanin suspendeu a eleição indireta por considerar que a renúncia do ex-governador Cláudio Castro poderia ser uma tentativa de burlar a Justiça Eleitoral, defendendo o princípio constitucional do voto direto e a soberania popular na escolha do governante.

Quem está no comando do governo do Rio de Janeiro atualmente?
Enquanto a questão não é resolvida pelo Supremo Tribunal Federal, o presidente do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJRJ), Ricardo Couto de Castro, está ocupando interinamente o posto de governador do estado.

Qual a diferença entre eleição direta e indireta neste contexto?
Neste contexto, a eleição direta significaria que a população fluminense iria às urnas para escolher o novo governador-tampão. Já a eleição indireta, que foi suspensa, previa que os deputados estaduais da Alerj seriam os responsáveis por essa escolha.

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Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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