Em um desdobramento crucial do caso que chocou a capital paulista, o tenente-coronel da Polícia Militar Geraldo Neto, réu por feminicídio e fraude processual, revelou em interrogatório detalhes íntimos de seu relacionamento com a soldado Gisele Alves Santana, sua esposa, assassinada com um tiro na cabeça no apartamento do casal, no Brás. As declarações apontam para um cenário de afastamento e uma tentativa desesperada de reaproximação na véspera da tragédia. Segundo Geraldo, o casal vivia como “dois estranhos”, não dividindo o mesmo quarto desde julho do ano anterior (2023). A noite que antecedeu a morte, em 17 de fevereiro, foi marcada por um isolamento prolongado, culminando em uma conversa emotiva e um ato de reconciliação, antes que a decisão final sobre o futuro da união fosse adiada para o dia seguinte, 18 de fevereiro, data em que a soldado Gisele Alves Santana foi encontrada morta.
O depoimento do tenente-coronel à polícia
A rotina de isolamento antes da tragédia
Durante seu interrogatório à Polícia Civil, conduzido em 18 de março, o tenente-coronel Geraldo Neto, atualmente sob prisão preventiva, detalhou a dinâmica do relacionamento nos meses que antecederam a morte de Gisele. Ele afirmou que, desde julho de 2023, eles não compartilhavam o mesmo quarto, com Gisele dormindo na suíte com a filha pequena. A rotina diária era permeada por um distanciamento significativo. Geraldo relatou que, na manhã de 17 de fevereiro, ambos frequentaram a academia em horários distintos, das 8h às 9h para ele e das 9h às 10h para Gisele. Ao retornar, por volta das 11h, Gisele se trancou na suíte, onde permaneceu durante todo o dia. Por volta do meio-dia, ela solicitou que Geraldo buscasse uma marmita na portaria, que ele entregou à porta do quarto, observando-a consumir a refeição sozinha. Geraldo, por sua vez, passou a tarde na sala, assistindo televisão, em um silêncio que se tornara comum.
A tentativa de reconciliação na véspera do crime
A monotonia do isolamento foi quebrada por volta das 18h30, quando Geraldo sugeriu que tomassem um café, pois ele não havia almoçado. Gisele aceitou, e os dois sentaram-se no sofá da sala, onde se engajaram em uma conversa que durou aproximadamente duas horas. Durante esse período, segundo o tenente-coronel, eles revisitaram o relacionamento desde 2023, discutindo os prós e contras de permanecerem juntos. O momento foi descrito como carregado de emoção, culminando em abraços e choro conjunto. Geraldo afirmou que, após a profunda conversa, houve uma relação sexual no sofá, que ele descreveu como um ato de “fazer amor pela última vez”, ressaltando a “química” e o “sentimento” que ainda existiam entre eles, apesar da vida de casal interrompida.
Os planos para o futuro e a decisão adiada
Em meio à tentativa de reconciliação, Geraldo também mencionou os planos para a independência financeira de Gisele, citando uma vaga que ele havia conseguido na assessoria da Polícia Militar no Tribunal de Justiça, que lhe renderia um adicional de R$ 5 mil. Apesar da proximidade e da emoção da conversa, Geraldo alegou que Gisele expressou a necessidade de “pensar direitinho” e preferiu não “bater o martelo” sobre a separação naquele instante. Assim, a decisão definitiva sobre o futuro do casal foi adiada para o dia seguinte, 18 de fevereiro. O tenente-coronel concluiu seu relato dizendo que foi para seu quarto fazer orações, enquanto Gisele foi para o quarto dela, e que ela planejava acordar cedo no dia 18 para iniciar uma novena.
As provas que contradizem a versão de suicídio
Laudos, reprodução simulada e mensagens: a acusação de feminicídio
A versão apresentada por Geraldo Neto contrasta fortemente com as conclusões do Ministério Público. Laudos periciais, uma reprodução simulada dos fatos e a análise de mensagens trocadas entre o casal apontam que o tenente-coronel teria segurado a cabeça de Gisele e atirado contra ela, refutando categoricamente a hipótese de suicídio. As investigações revelaram um padrão de comportamento controlador e ameaças por parte de Geraldo, incluindo exigências de retribuição sexual e afirmações de ser o “provedor”. Mensagens anteriores à morte, onde Gisele se declara “praticamente solteira”, intensificam o contexto de um relacionamento conturbado e abusivo, solidificando a acusação de feminicídio, que é classificado como crime doloso contra a vida.
Imagens da câmera corporal: a disputa na cena do crime
As gravações das câmeras corporais de policiais militares no dia do crime, 18 de fevereiro, trouxeram evidências cruciais para a investigação. As imagens revelam uma disputa de poder hierárquico entre um cabo, que buscava preservar o local onde Gisele foi baleada na cabeça, e o tenente-coronel Geraldo Neto, que insistia em entrar no banheiro, tomar banho e circular livremente pelo apartamento. Esse tipo de conduta acendeu o alerta dos investigadores, enfraquecendo a versão de suicídio sustentada por ele. O embate entre o protocolo de preservação da cena e a autoridade de um oficial de alta patente foi registrado em vídeo, transformando-se em prova audiovisual que contextualiza a intenção e a influência exercida na cena do crime.
A manipulação da cena e a fraude processual
A soma das condutas de Geraldo Neto na cena do crime – sua insistência em tomar banho, circular pelo apartamento apesar das advertências, afastar equipes, permitir limpezas e retornar para retirar itens – robustece a desconfiança sobre a tese de suicídio. Vídeos, áudios e horários precisos oferecem à investigação não apenas uma linha do tempo, mas um contexto material da manipulação da cena. Segundo a acusação, ele teria tentado alterar o local do crime para simular que a soldado teria tirado a própria vida, o que fundamenta a imputação de fraude processual. A clara violação dos protocolos de preservação de evidências, capturada pelas câmeras, tornou-se um elemento fundamental para a tese da acusação, desqualificando a narrativa do tenente-coronel.
Andamento do processo e a defesa do réu
O percurso judicial e a negação da defesa
Diante das acusações de feminicídio e fraude processual, o caso do tenente-coronel Geraldo Neto segue para a Justiça comum, com grande probabilidade de ser julgado pelo Tribunal do Júri, por se tratar de um crime doloso contra a vida. O Ministério Público solicitou que, em caso de condenação, seja fixada uma indenização mínima de R$ 100 mil aos familiares da vítima. A defesa de Geraldo Neto, por sua vez, nega veementemente o crime, questiona a competência da Justiça Militar para julgar o caso e afirma que o oficial colaborou ativamente com todas as investigações desde o início. É importante notar que, desde 2024, o feminicídio é classificado como crime autônomo no Brasil, com penas que variam de 20 a 40 anos de prisão.
A prisão preventiva e a decisão do STJ
Geraldo Neto foi preso preventivamente em 18 de março, data em que se tornou réu. O Tribunal de Justiça Militar (TJM) informou que a decisão de prender o tenente-coronel está amparada pelo fato de o oficial ter cometido um crime contra outro membro da corporação, sua esposa, a soldado Gisele. Este é o primeiro caso de um oficial da Polícia Militar de São Paulo preso por feminicídio desde 2015, conforme a Secretaria da Segurança Pública. Em 20 de março, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) negou um pedido de liberdade feito pela defesa de Geraldo. O ministro Reynaldo da Fonseca, relator do caso, considerou a reclamação incabível, pois a defesa não apontou descumprimento de decisões do próprio STJ ou usurpação de competência da Corte. Com isso, o mérito do pedido não chegou a ser analisado.
A argumentação da defesa e a busca por privacidade
Durante uma audiência de custódia realizada por videochamada na Justiça Militar, em 19 de março, Geraldo Neto reiterou sua versão de que Gisele cometeu suicídio, afirmando que “ela se suicidou com minha arma no meu apartamento”. Em nota emitida em 18 de março, o escritório de advocacia Malavasi Sociedade de Advogados, responsável pela defesa do tenente-coronel, destacou que ele não se ocultou dos pedidos de prisão, fornecendo espontaneamente comprovante de endereço. A defesa qualificou o mandado de prisão como “manifestamente ilegal”, proferido por autoridade “incompetente”, mas ressaltou que Geraldo não se opôs ao cumprimento, mantendo sua postura de colaboração. A defesa também expressou preocupação com a divulgação de informações e interpretações que atingem a vida privada e a honra do tenente-coronel, reiterando a confiança nas autoridades e aguardando a completa elucidação dos fatos.
Perguntas frequentes sobre o caso
Quem é a vítima do caso?
A vítima é Gisele Alves Santana, soldado da Polícia Militar de São Paulo e esposa do tenente-coronel Geraldo Neto.
Quais são as acusações contra o tenente-coronel Geraldo Neto?
Geraldo Neto é réu pelas acusações de feminicídio, pelo assassinato de sua esposa, e fraude processual, por supostamente ter manipulado a cena do crime para simular um suicídio.
O que a defesa alega?
A defesa do tenente-coronel nega o crime de feminicídio, alegando que Gisele Alves Santana cometeu suicídio. A defesa também questiona a competência da Justiça Militar para julgar o caso e afirma que Geraldo colaborou com as investigações.
Onde o caso será julgado?
Por se tratar de um crime doloso contra a vida, a tendência é que o caso seja julgado pela Justiça comum, possivelmente pelo Tribunal do Júri.
Acompanhe os próximos desdobramentos deste complexo caso, que envolve acusações graves e um debate intenso sobre a verdade dos fatos.
Fonte: https://g1.globo.com
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