O Rio Grande do Norte se tornou palco de um marco histórico para as comunidades de matriz africana e afro-ameríndia, sediando o III Fórum Estadual das Comunidades Tradicionais de Terreiros. Com o tema inspirador “A força do que fizemos guia o que queremos ser”, o evento representa uma significativa retomada das articulações estaduais dos Povos de Terreiro, após um hiato desde a última edição, em 2019, reafirmando o compromisso com o fortalecimento e a visibilidade desses segmentos tão importantes para a cultura e a sociedade potiguar.
Diálogo Abrangente e Intercâmbio Nacional
Durante um sábado intenso, o Complexo Cultural da Zona Norte, localizado no bairro Potengi, em Natal, transformou-se em um vibrante centro de debates e congregação. A iniciativa reuniu uma diversidade de atores sociais, incluindo lideranças religiosas, pesquisadores, ativistas de movimentos sociais, gestores públicos, parlamentares e representantes de instituições governamentais e da sociedade civil. Com a participação de mais de trinta cidades potiguares e delegações da Paraíba e Pernambuco, o fórum promoveu um rico intercâmbio de experiências, evidenciando a capilaridade e a importância da articulação interterritorial na defesa dos direitos e na valorização das tradições de terreiro.
Pautas Essenciais: Fortalecimento, Igualdade e Combate ao Racismo
A programação do Fórum foi cuidadosamente elaborada para proporcionar um ambiente de diálogo construtivo, formação e construção de estratégias eficazes. As atividades visaram primordialmente o fortalecimento das comunidades tradicionais de matriz africana e afro-ameríndia do Rio Grande do Norte. Além disso, o evento buscou intensificar o intercâmbio entre experiências de organização comunitária, promover incisivamente a igualdade racial e enfrentar de maneira contundente o racismo religioso, que historicamente afeta esses povos. A expectativa era também de conscientizar a sociedade sobre o papel multifacetado dos terreiros, que se configuram como espaços embrionários na construção de políticas públicas que transcendem as questões estritamente religiosas.
Terreiros: Centros de Cultura, Economia e Sustentabilidade
Conforme ressaltado por Iyalaxé Flavinha D’Oxum, membro da Coordenação Geral do Grupo de Articulação de Matrizes Africanas e Ameríndias do Rio Grande do Norte, um dos organizadores do Fórum, a religião representa apenas um dos diversos pilares que sustentam um povo de terreiro. Ela enfatizou que essas comunidades são dinâmicas, atuando em dimensões culturais, gastronômicas, na produção acadêmica e econômica, e assumindo papéis cruciais na sustentabilidade e proteção ambiental. Essa perspectiva amplia a compreensão sobre a relevância dos terreiros, posicionando-os como verdadeiros motores de desenvolvimento social, cultural e ambiental, engajados em temáticas que impactam a coletividade.
Iniciativas Estratégicas: Mapeamento e Preservação da Memória Afro-Religiosa
Um dos pontos altos do III Fórum foi o lançamento simultâneo de duas iniciativas de grande valor para a comunidade e para o estado. Em primeiro lugar, foi apresentado o projeto de mapeamento dos terreiros em atividade no Rio Grande do Norte, um passo fundamental para o reconhecimento territorial e a quantificação dessas comunidades. Em segundo, o público conheceu o Museu Virtual – Arquivo Afro-Religioso: Memória e Patrimônio das Comunidades de Terreiro do Rio Grande do Norte, uma plataforma dedicada à salvaguarda e difusão do vasto patrimônio afro-religioso potiguar.
Detalhes dos Projetos Lançados: Mapa do Axé Potiguar e Museu Virtual
Aprofundando nas novidades, o “Mapa do Axé Potiguar – Cartografia dos Terreiros” emerge como um instrumento vital de reconhecimento territorial, fomentando a produção de conhecimento e a valorização dos patrimônios afro-religiosos do estado. Este projeto é fruto de uma iniciativa do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDAAF) em colaboração com importantes instituições de ensino superior e pesquisa estaduais, garantindo rigor e abrangência. Paralelamente, o Museu Virtual, com sua proposta de memória e patrimônio, teve seu acervo construído através de uma parceria estratégica entre grupos de estudo das Universidades Federal e Estadual do Rio Grande do Norte e as lideranças e comunidades tradicionais de terreiro de diversas regiões do estado, assegurando a autenticidade e representatividade do material coletado e digitalizado.
O III Fórum Estadual das Comunidades Tradicionais de Terreiros não apenas reiterou a força e a resiliência dos Povos de Terreiro no Rio Grande do Norte, mas também impulsionou ações concretas que prometem transformar a realidade dessas comunidades. Com a retomada das articulações estaduais e o lançamento de projetos tão estratégicos como o mapeamento e o museu virtual, o evento sinaliza um futuro de maior visibilidade, respeito e reconhecimento para a rica herança cultural e religiosa que os terreiros representam para o estado e para o Brasil.
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