© Felipe Araujo/Liga-SP

Primeira noite de desfiles em São Paulo exalta o feminino e debates

ANUNCIO COTIA/LATERAL

A primeira noite dos desfiles do Grupo Especial no Sambódromo do Anhembi, em São Paulo, transformou a avenida em um palco vibrante de histórias e reflexões profundas. Com enredos que navegaram por temas como astrologia, cinema, orixás e a crucial reforma agrária, os desfiles das escolas de samba de São Paulo demonstraram a riqueza cultural e a capacidade de engajamento social do carnaval. Contudo, o grande destaque da noite foi a celebração de figuras femininas em suas múltiplas facetas: desde as mulheres negras protagonistas de sua própria história e as guerreiras amazonas, até aquelas que, injustamente chamadas de bruxas, foram silenciadas pelo tempo. Essa abordagem ressaltou o papel do carnaval como um livro aberto para a releitura da história oficial brasileira e a promoção de debates públicos essenciais.

O sociólogo e sambista Tadeu Kaçula sublinhou a importância desses enredos, afirmando que eles “trazem reflexões para o debate público”. Para ele, temas como a mulher negra e a população indígena são “parte da construção social, política, de identidade do nosso país”. Kaçula enfatizou que, ao levar tais narrativas para a avenida, as escolas de samba “certamente mostrarão que a história oficial do Brasil precisa ser relida, precisa ser reescrita, precisa ser recontada”, reforçando o poder transformador da folia.

O poder feminino em destaque na avenida

A essência feminina, em sua força, sabedoria e resistência, permeou grande parte dos enredos apresentados na primeira noite de desfiles. As escolas trouxeram à tona a importância de revalorizar papéis históricos e de dar voz a figuras que, por muito tempo, foram marginalizadas ou esquecidas.

Exaltação da mulher negra e ancestralidade

Abrindo alas para o Grupo Especial às 23h, a Mocidade Unida da Mooca fez sua estreia na elite com o impactante enredo “GÈLÈDÉS – Agbara Obinrin”. A agremiação da zona leste de São Paulo escolheu exaltar a força das mulheres negras, mergulhando na rica história do Geledés – Instituto da Mulher Negra. A narrativa central do desfile, inspirada na fundação do instituto pela renomada filósofa e ativista Sueli Carneiro, transformou a avenida em um tributo vibrante à ancestralidade, resiliência e protagonismo das mulheres africanas e afro-brasileiras. O enredo destacou não apenas a luta, mas também a celebração da vida e da cultura dessas mulheres, elementos fundamentais para a identidade do país.

Resistência e sabedoria feminina em foco

Em seguida, a Colorado do Brás entrou na avenida com o enredo “A Bruxa está solta”, propondo uma profunda revisão da história. A escola buscou resgatar e valorizar a sabedoria e o poder de mulheres que, ao longo de séculos, foram perseguidas, silenciadas e estigmatizadas como bruxas. O desfile se propôs a desmistificar a figura da “bruxa”, apresentando-a como guardiã de conhecimentos ancestrais, curandeira e símbolo de resistência contra a opressão e o patriarcado. A narrativa foi um convite à reflexão sobre a injustiça histórica e a reabilitação da memória dessas figuras femininas que desafiaram as normas de sua época.

As guerreiras amazonas e a defesa ambiental

A terceira agremiação a desfilar foi a Dragões da Real, que apresentou o enredo “Guerreiras Icamiabas – Uma lendária história de força e resistência”. A escola da zona oeste dedicou seu desfile à celebração do sagrado feminino e à intrínseca conexão com a defesa do meio ambiente. Através da lenda das Amazonas, que viviam em uma sociedade matriarcal na Amazônia, o enredo abordou a importância da mulher como protetora da natureza e guardiã de tradições. A visão das guerreiras Icamiabas na avenida não foi apenas um espetáculo visual, mas uma poderosa mensagem sobre a necessidade de preservar a floresta e as culturas originárias, com a mulher no centro dessa luta.

Debates sociais e diversidade temática no carnaval

Além da forte presença feminina, a primeira noite do Grupo Especial de São Paulo se destacou pela amplitude e profundidade dos temas abordados, consolidando o carnaval como um espaço privilegiado para a discussão de questões sociais urgentes e a exploração de universos culturais diversos.

A luta pela reforma agrária em pauta

A Acadêmicos do Tatuapé levou um tema de grande relevância social para a avenida: a reforma agrária, com o enredo “Plantar para Colher e Alimentar – Tem Muita Terra sem Gente, Tem Muita Gente sem Terra”. A escola da zona leste de São Paulo destacou a importância da agricultura familiar e camponesa, inspirando-se na luta do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Tadeu Kaçula, o sambista e sociólogo, reforçou o papel crucial das escolas de samba em trazer à tona tais temas. Ele pontuou que, quando agremiações como a Tatuapé abordam “a questão da reforma agrária, direito à terra, direito à habitação, direito à moradia”, elas atuam como um “vetor para manter o debate público vivo”, levando para a avenida questões que, segundo ele, deveriam ser debatidas intensamente no Congresso Nacional.

Viagem cósmica e a magia do cinema

A atual campeã do carnaval de São Paulo, a Rosas de Ouro, embarcou em uma fascinante jornada cósmica com seu enredo “Escrito nas Estrelas”. O desfile explorou a astrologia desde a criação do universo até o uso milenar dos astros como guias para a humanidade. Com carros alegóricos grandiosos e fantasias que remetiam ao zodíaco e aos corpos celestes, a escola da Brasilândia ofereceu um espetáculo de magia e misticismo. A penúltima escola a desfilar na sexta-feira foi a Vai-Vai, maior campeã do carnaval paulistano com 15 títulos. Com o enredo “Em cartaz: a saga vencedora de um povo heroico no apogeu da vedete da Pauliceia”, a agremiação do Bixiga revisitou a história dos estúdios de cinema Vera Cruz, a “Hollywood de São Bernardo do Campo” que floresceu no final dos anos 1940, celebrando a era de ouro do cinema nacional e a efervescência cultural paulistana.

Reverência aos orixás e a força da natureza

Encerrando a primeira noite do Grupo Especial por volta das 5h30, a Barroca Zona Sul entrou na avenida para fazer uma reverência a Oxum, a orixá das águas doces, da fertilidade e do amor, com o enredo “Oro Mi Maió OXUM”. A escola da zona sul trouxe um desfile de fé, cores e movimentos que honraram a divindade africana, celebrando a natureza e a espiritualidade. O enredo destacou a importância cultural e religiosa de Oxum, seus símbolos e sua influência na vida e nas crenças populares, proporcionando um encerramento majestoso e cheio de Axé para a primeira etapa da folia.

O carnaval como palco de reflexão e história

Para Raul Machado, comentarista de carnaval há 15 anos, a diversidade de temas é uma das características intrínsecas da folia. Ele destacou o desafio de cada escola em escolher a melhor forma de narrar suas histórias, exemplificando com a Rosas de Ouro e seu tema lúdico, contrastando com a Tatuapé e sua abordagem da reforma agrária. Machado resumiu: “O Carnaval é um livro aberto. Cabe a cada carnavalesco, a cada presidente, a cada comunidade desenvolver essa história e apresentar ela da melhor maneira possível”.

Neste ano, a Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo, responsável pela organização do carnaval paulistano, lançou uma bilheteria itinerante pelas quadras das escolas para facilitar a venda de ingressos. O público também pode adquirir as entradas pelo site Clube do Ingresso e no ponto físico da Fábrica do Samba. Os valores dos ingressos para os setores ainda disponíveis partem de R$ 165.

Conclusão

A primeira noite dos desfiles do Grupo Especial do carnaval paulistano reafirmou a avenida como um espaço de celebração cultural e, acima de tudo, de profundo engajamento social. Ao trazer à tona narrativas de empoderamento feminino, clamores por justiça social e a diversidade de crenças e saberes, as escolas de samba cumpriram seu papel de espelho da sociedade e de impulsionadoras de reflexões. A complexidade dos enredos, a riqueza visual e a energia das comunidades transformaram o Anhembi em um grande fórum, onde a arte e a cultura se entrelaçam para recontar histórias e provocar diálogos cruciais para a identidade e o futuro do Brasil. A folia, portanto, transcendeu o mero entretenimento, consolidando-se como uma manifestação potente de memória, luta e esperança.

Perguntas frequentes

Quais foram os principais temas abordados na primeira noite de desfiles do Grupo Especial?
Os principais temas incluíram a celebração de figuras femininas (mulheres negras, “bruxas” e guerreiras amazonas), astrologia, cinema, orixás e a reforma agrária.

Que escolas de samba se destacaram na celebração de figuras femininas?
A Mocidade Unida da Mooca homenageou a mulher negra, a Colorado do Brás revisitou a sabedoria das mulheres silenciadas, e a Dragões da Real celebrou as guerreiras Icamiabas, todas exaltando o poder feminino.

Como o carnaval paulistano abordou questões sociais importantes nesta noite?
A Acadêmicos do Tatuapé levou a reforma agrária para a avenida, inspirando-se no Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), destacando o papel do carnaval como vetor de debate público sobre justiça social e direito à terra.

Onde é possível adquirir ingressos para os desfiles?
Os ingressos podem ser comprados pelo site Clube do Ingresso, no ponto físico da Fábrica do Samba ou nas bilheterias itinerantes das quadras das escolas de samba, com valores a partir de R$ 165.

Não perca os próximos capítulos dessa festa de cores, ritmos e mensagens. Acompanhe a cobertura completa dos desfiles e prepare-se para vibrar com as emoções do carnaval paulistano!

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

Deixe uma resposta

Seu endereço de e-mail não será publicado.Os campos obrigatórios são marcados *

*

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.