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PF e Receita desbaratam megafraude de R$ 30 milhões no Farmácia Popular

ANUNCIO COTIA/LATERAL

Uma megaoperação coordenada pela Polícia Federal (PF), Receita Federal e Controladoria-Geral da União (CGU) desarticulou, nesta terça-feira, um esquema fraudulento que desviou impressionantes R$ 30 milhões do programa Farmácia Popular. Denominada “OTC – Over The Counter”, a ação deflagrada em quatro estados brasileiros revelou uma complexa rede criminosa dedicada a simular vendas de medicamentos para obter reembolsos indevidos do governo federal. O programa Farmácia Popular, essencial para milhões de brasileiros, visa garantir acesso gratuito ou subsidiado a remédios, principalmente para doenças crônicas, e a fraude identificada representa um ataque direto à saúde pública e à confiança nos programas sociais. A investigação, que começou com a denúncia de uma cidadã, sublinha a vulnerabilidade de sistemas e a necessidade contínua de vigilância e aprimoramento dos mecanismos de controle.

A engenharia por trás da fraude milionária

O esquema que culminou no desvio de R$ 30 milhões do programa Farmácia Popular não era apenas uma fraude pontual, mas uma operação orquestrada e sofisticada, desenhada para explorar as lacunas do sistema de reembolsos governamental. A investigação detalhada revelou a audácia dos criminosos em manipular um programa vital para a saúde da população brasileira.

Mecanismo de atuação e envolvimento de “laranjas”

A Receita Federal detalhou o modus operandi da quadrilha. O primeiro passo consistia na aquisição de farmácias já devidamente cadastradas no programa Farmácia Popular. Essa estratégia era crucial, pois permitia que os criminosos utilizassem estabelecimentos com histórico e credibilidade perante o sistema, evitando o escrutínio inicial que uma nova inscrição poderia gerar. Após a aquisição, essas farmácias eram colocadas em nome de “laranjas”, indivíduos que emprestavam seus nomes e documentos para as empresas, blindando os verdadeiros mentores do esquema. Essa tática de utilizar intermediários dificultava a identificação dos líderes e a rastreabilidade das operações financeiras.

Com as farmácias sob seu controle e operando através de “laranjas”, o passo seguinte era a criação de vendas de medicamentos inexistentes. Utilizando o sistema oficial do Farmácia Popular, a quadrilha registrava transações fictícias, simulando a dispensa de medicamentos a pacientes. Essas “vendas” eram geradas sem que nenhum remédio fosse de fato entregue e, muitas vezes, sem o conhecimento dos CPFs utilizados. Esse método permitia que os criminosos gerassem recibos e lançamentos falsos no sistema, que eram então utilizados para solicitar os reembolsos ao governo federal. A ausência de uma checagem rigorosa em cada transação, combinada com o grande volume de operações do programa, abria uma brecha para que essas vendas fantasmas passassem despercebidas por um tempo considerável. Os valores recebidos a título de reembolso, provenientes dos cofres públicos, eram então desviados para os bolsos dos fraudadores.

O programa Farmácia Popular e o sistema de reembolso

O programa Farmácia Popular do Brasil, criado em 2004, representa um pilar fundamental na política de acesso a medicamentos no país. Seu principal objetivo é ampliar o acesso da população a medicamentos essenciais, especialmente aqueles utilizados no tratamento de doenças crônicas como hipertensão, diabetes e asma, além de contraceptivos. O programa funciona em duas modalidades: as unidades próprias (que foram desativadas ou tiveram sua rede reduzida) e, majoritariamente, através da rede de farmácias e drogarias privadas credenciadas, conhecida como “Aqui Tem Farmácia Popular”.

Nessa modalidade de parceria, as farmácias e drogarias privadas oferecem os medicamentos subsidiados ou gratuitos aos cidadãos, que devem apresentar receita médica, CPF e documento com foto. Após a venda, a farmácia registra a transação em um sistema eletrônico específico. Com base nesses registros, o estabelecimento é então ressarcido pelo governo federal pelo valor dos medicamentos dispensados. É nesse sistema de reembolso que a fraude se inseria. A confiança depositada nas farmácias credenciadas, aliada à vasta capilaridade do programa e ao grande volume de transações diárias, foi explorada pelos criminosos para simular as vendas e embolsar os valores que deveriam ser destinados à compra de remédios para a população.

A deflagração da operação “OTC – Over The Counter”

A operação “OTC – Over The Counter” é o resultado de um trabalho minucioso de investigação que culminou na ação coordenada das forças federais. O nome da operação, “OTC”, remete à sigla em inglês para “Over The Counter” (balcão), referindo-se aos medicamentos que podem ser vendidos sem prescrição médica, um trocadilho com o ambiente de farmácia onde a fraude ocorreu.

Alcance geográfico e mandados cumpridos

Nesta terça-feira, a operação realizou o cumprimento de quatro mandados de busca e apreensão em localidades estratégicas, abrangendo diferentes regiões do país. As ações ocorreram em João Pessoa, na Paraíba (Região Nordeste); Lagoa Santa, em Minas Gerais (Região Sudeste); Carazinho, no Rio Grande do Sul (Região Sul); e Pirangi, em São Paulo (Região Sudeste). A abrangência geográfica da operação demonstra a extensão e a capilaridade da rede criminosa, que operava em diversos estados, e a complexidade do trabalho investigativo para mapear e alcançar todos os envolvidos.

Os mandados de busca e apreensão são ferramentas cruciais em investigações criminais, permitindo que as autoridades coletem provas materiais que comprovem a fraude. Nesses locais, foram buscados documentos, computadores, registros financeiros, mídias eletrônicas e quaisquer outros elementos que possam fornecer mais detalhes sobre o esquema, identificar outros participantes e rastrear o dinheiro desviado. A colaboração entre a Receita Federal, com sua expertise em análises fiscais e financeiras, a Polícia Federal, responsável pela investigação criminal e cumprimento de mandados, e a Controladoria-Geral da União, focada na auditoria e combate à corrupção, foi essencial para o sucesso da operação, demonstrando a força do trabalho conjunto entre as instituições.

O ponto de partida das investigações

O desmantelamento dessa complexa fraude teve um ponto de partida claro e fundamental: a denúncia de uma mulher. As investigações foram iniciadas após essa cidadã descobrir que seu Cadastro de Pessoa Física (CPF) estava sendo indevidamente utilizado em uma suposta venda de medicamentos pelo programa Farmácia Popular, ocorrida no estado do Mato Grosso do Sul. Essa transação, completamente alheia à sua vontade e sem seu consentimento, foi o estopim que acendeu o alerta das autoridades.

A vigilância cidadã se mostrou um elemento vital no combate a crimes como este. A partir da verificação de seu extrato ou histórico de uso do Farmácia Popular, a mulher percebeu a irregularidade e prontamente denunciou às autoridades competentes. Essa denúncia isolada, mas precisa, permitiu que os investigadores começassem a puxar o fio da meada, revelando uma rede muito maior de fraudes que se estendia por vários estados e envolvia um montante milionário. O caso ressalta a importância de os cidadãos acompanharem o uso de seus dados pessoais em programas governamentais e de reportarem qualquer atividade suspeita, contribuindo ativamente para a proteção dos recursos públicos e a integridade dos serviços oferecidos à população.

Conclusão

A operação “OTC – Over The Counter” é um lembrete contundente da persistência de esquemas fraudulentos que buscam desviar recursos públicos, mesmo em programas sociais essenciais como o Farmácia Popular. O desvio de R$ 30 milhões representa não apenas uma perda financeira para o tesouro nacional, mas também um prejuízo direto à saúde e ao bem-estar da população que depende desses medicamentos para o tratamento de suas enfermidades. A atuação conjunta da Polícia Federal, Receita Federal e Controladoria-Geral da União demonstra a capacidade e o compromisso das instituições brasileiras em combater a corrupção e proteger os recursos que deveriam ser aplicados em benefício da sociedade. A investigação segue em andamento, com o objetivo de identificar todos os envolvidos, responsabilizá-los criminalmente e, crucialmente, recuperar os valores desviados, garantindo que o dinheiro público retorne para onde é mais necessário. Este caso serve como um alerta para a necessidade contínua de aprimoramento dos mecanismos de controle e da vigilância cidadã para preservar a integridade dos programas sociais.

Perguntas Frequentes

O que é a operação “OTC – Over The Counter”?
A operação “OTC – Over The Counter” é uma ação coordenada pela Polícia Federal, Receita Federal e Controladoria-Geral da União para desmantelar um esquema de fraude milionária contra o programa Farmácia Popular. O nome faz alusão a medicamentos de venda livre, ironizando o ambiente farmacêutico onde ocorreu a fraude.

Como os criminosos fraudavam o programa Farmácia Popular?
Os criminosos compravam farmácias já cadastradas no programa, as colocavam em nome de “laranjas” e, em seguida, registravam vendas inexistentes de medicamentos no sistema oficial. Essas vendas fictícias geravam pedidos de reembolso ao governo federal, que eram então desviados para os bolsos da quadrilha.

Qual o valor total desviado e qual o alcance da operação?
O valor total desviado do Farmácia Popular através deste esquema é de R$ 30 milhões. A operação cumpriu quatro mandados de busca e apreensão em diferentes estados: Paraíba (João Pessoa), Minas Gerais (Lagoa Santa), Rio Grande do Sul (Carazinho) e São Paulo (Pirangi), demonstrando a amplitude nacional da fraude.

O que acontece com as farmácias envolvidas no esquema?
As farmácias envolvidas no esquema, mesmo que utilizadas por “laranjas”, serão investigadas e podem ter seu credenciamento no programa Farmácia Popular suspenso ou cancelado. Além disso, seus responsáveis legais podem enfrentar processos criminais e cíveis, com a possibilidade de terem bens bloqueados para ressarcir os cofres públicos.

Mantenha-se informado sobre este e outros temas cruciais para a transparência pública. Compartilhe esta notícia para conscientizar sobre a importância do combate à fraude em programas sociais e a necessidade da vigilância cidadã para proteger os recursos que são de todos.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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