© Valter Campanato/Agência Brasil

Pacotão: quase 50 anos de folia e crítica no carnaval de Brasília

ANUNCIO COTIA/LATERAL

O carnaval de Brasília encerrou suas festividades com um de seus mais emblemáticos e longevos cortejos, o bloco Pacotão, que, com quase meio século de história, arrastou uma multidão vibrante pelas ruas da área central da capital federal. Conhecido por sua fusão única de irreverência, sátira política e crítica social, o Pacotão transformou as vias da cidade em um palco para a expressão popular. Ao som contagiante de marchinhas clássicas e composições autorais, o bloco não apenas celebrou a alegria carnavalesca, mas também manteve viva sua tradição de abordar, com humor afiado, os principais acontecimentos e desafios da conjuntura nacional e internacional. Este ano, o escândalo do Banco Master e outras questões de relevância pública foram o centro das atenções do bloco Pacotão.

Um legado de humor e resistência: a história do Pacotão

Nas raízes da sátira brasiliense

Fundado em 1978, o Pacotão emerge de um período de intensa repressão política no Brasil, a ditadura militar. Criado por jornalistas visionários, o bloco nasceu da necessidade de encontrar válvulas de escape e formas de resistência contra a censura que cerceava a liberdade de expressão. O humor e a sátira tornaram-se as armas escolhidas para enfrentar o regime, permitindo que críticas sociais e políticas fossem veiculadas de maneira indireta, mas potente, disfarçadas sob a capa da folia. Essa origem conferiu ao Pacotão uma identidade única, que o distingue de outros blocos carnavalescos e o estabeleceu como um importante termômetro da opinião pública e da efervescência cultural de Brasília.

Ao longo de quase 50 anos, o bloco construiu uma trajetória marcada pela irreverência e pela capacidade de se reinventar, mantendo-se sempre relevante ao incorporar em suas letras e performances os temas que mais ressoam na sociedade. A tradição de atravessar a via W3 Norte na contramão, culminando no Eixo Monumental, simboliza essa postura de desafio e questionamento, transformando um percurso físico em uma metáfora para a crítica às normas estabelecidas. A cada ano, uma nova “chacota” toma conta da capital, embalada pela energia contagiante da Banda Podre do Pacotão, que comanda a festa com muito improviso e criatividade.

Escândalos e políticas: o palco da crítica em 2024

O alvo da vez: corrupção e gestão pública

No carnaval de 2024, o Pacotão direcionou seu olhar afiado para questões de grande repercussão nacional. O escândalo envolvendo o Banco Master e as denúncias de corrupção relacionadas ao BRB (Banco de Brasília) foram o epicentro das críticas, evidenciando a preocupação do bloco com a integridade das instituições financeiras e a gestão dos recursos públicos. Wilsinho Red, um dos fundadores do bloco, destacou a abrangência da sátira: “Muita sátira, muita crítica às políticas internacional e nacional, e denunciando essa corrupção do BRB, do Banco Master, da prisão de Bolsonaro. E o Pacotão é isso aí: o Pacotão é o papel higiênico da história!”. Essa declaração ilustra a visão do Pacotão como um veículo para processar e registrar os acontecimentos, por mais controversos que sejam, de forma popular e incisiva.

A manifestação dos foliões reforçou essa tônica. Bruno Lisboa, por exemplo, compareceu fantasiado de cartão do BRB, utilizando o humor para protestar contra o que ele descreveu como “a promiscuidade entre o público e o privado, entre uma instituição pública e fundos privados”. Sua fantasia e sua fala simbolizavam uma crítica bem-humorada, porém contundente, ao orçamento público e à maneira como ele é administrado. A arte da sátira do Pacotão reside justamente nessa capacidade de transformar temas complexos e muitas vezes dolorosos em alegorias carnavalescas, acessíveis e provocativas, que estimulam a reflexão e o debate público.

Críticas além do cenário político-econômico

Além das questões financeiras e políticas, o Pacotão também abriu espaço para outras reivindicações e observações do cotidiano. Carol Vilaça, por exemplo, personificou a personagem “Rita Lisa” para expressar uma reclamação comum entre os foliões: o calendário do carnaval. “Como é que se faz um Carnaval no meio do mês? Não pode fazer o Carnaval no meio do mês. Todo mundo só recebe no começo ou no fim do mês. Fica um absurdo!”, questionou Vilaça, ressaltando o impacto financeiro de um carnaval que não se alinha aos ciclos de pagamento da maioria da população. Essa crítica, aparentemente mais leve, reforça a sensibilidade do Pacotão em captar e amplificar as vozes populares, desde as grandes denúncias até as pequenas frustrações diárias.

A celebração do Pacotão não se restringiu à sua própria performance. Até o final da terça-feira de carnaval, a capital federal ainda pulsava com a energia de outros blocos, como “As Leis de Gaga”, “da Saly” e “das Braba”, que contribuíram para a diversidade da folia brasiliense. O encerramento oficial da festa foi marcado pelo show da sambista Kris Maciel, que selou a temporada carnavalesca com um espetáculo vibrante, deixando um gostinho de quero mais e a promessa de um próximo ano repleto de novas críticas, risadas e muita história para contar.

Conclusão: a voz perene do carnaval de Brasília

O Pacotão, com sua quase cinquentenária existência, transcende a mera celebração carnavalesca para se consolidar como uma das mais importantes manifestações culturais e políticas de Brasília. Sua capacidade de conciliar a alegria contagiante das marchinhas com uma crítica social e política afiada o posiciona como um espelho da sociedade, refletindo anseios, indignações e o espírito de resistência. A tradição de satirizar governos, escândalos e comportamentos sociais mantém-se viva, perpetuando o legado de jornalistas que, há décadas, usaram o humor como ferramenta de transformação. O bloco não apenas encerra o carnaval da capital federal; ele o ressignifica, provando que a folia pode ser, e é, um poderoso palco para a conscientização e a liberdade de expressão.

Perguntas Frequentes

Qual a história de fundação do bloco Pacotão?
O bloco Pacotão foi fundado em 1978, por jornalistas de Brasília, com o objetivo de usar o humor e a sátira como forma de resistência e crítica à censura imposta pela ditadura militar no Brasil.

Qual foi o tema principal das críticas do Pacotão neste carnaval?
Neste ano, o Pacotão focou suas críticas em escândalos financeiros, especialmente o do Banco Master e denúncias de corrupção relacionadas ao BRB, além de abordar políticas nacionais e internacionais e a gestão pública.

De que forma o Pacotão combina folia e crítica social?
O Pacotão utiliza a estrutura do carnaval, com marchinhas e fantasias, para criar um ambiente de celebração onde, de forma irreverente e satírica, temas sérios como política, corrupção e questões sociais são abordados e denunciados, estimulando a reflexão e o protesto popular.

Continue acompanhando as notícias de Brasília para ficar por dentro dos eventos culturais e manifestações que moldam a identidade da capital federal.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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