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José Álvaro Moisés, professor da USP e cofundador do PT, morre em

ANUNCIO COTIA/LATERAL

A comunidade acadêmica e política brasileira lamenta a perda de José Álvaro Moisés, professor aposentado da Universidade de São Paulo (USP) e um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT). Moisés, de 81 anos, faleceu tragicamente por afogamento na praia de Itamambuca, em Ubatuba, no litoral norte de São Paulo, na última sexta-feira, 13 de outubro. Nascido em Campinas, interior paulista, ele se estabeleceu como uma das maiores referências acadêmicas do país nas áreas de democracia e instituições políticas, deixando um legado intelectual e institucional de impacto profundo. Sua trajetória foi marcada pelo engajamento cívico e pela incessante busca por aprimoramento da sociedade.

A vida e a obra de um intelectual engajado

José Álvaro Moisés, carinhosamente conhecido como Moisés por seus pares, era uma figura de proeminência no cenário intelectual brasileiro, dedicando sua vida ao estudo e à construção de bases sólidas para a democracia e as instituições políticas. Sua atuação na Universidade de São Paulo foi multifacetada e duradoura. Como professor titular do Departamento de Ciência Política (DCP) da USP, ele não apenas lecionou, mas também moldou a estrutura do próprio departamento nos anos 1980.

A USP, em nota oficial de seu Departamento de Ciência Política, expressou profundo pesar pela partida de Moisés, ressaltando que ele “mantinha uma atividade intelectual prolixa e engajada”, sendo um “incansável construtor de instituições”. Essa descrição reflete a essência de sua carreira, marcada pela fundação e coordenação de diversas iniciativas. Entre elas, destacam-se o Núcleo de Pesquisa de Políticas Públicas (NUPPs) da USP, do qual foi fundador, e a primeira coordenação do Curso de Gestão de Políticas Públicas da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH/USP), entre 2004 e 2006. Sua energia era notável mesmo como professor sênior do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP, onde coordenava, com grande dinamismo, o Grupo de Pesquisa da Qualidade da Democracia.

Além de suas contribuições diretas à USP, Moisés estendeu sua influência para instituições nacionais e internacionais. Foi fundamental na organização da Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP) e teve um papel ativo na International Political Science Association (IPSA), fortalecendo o campo da ciência política em escala global. Ele também presidiu o Centro de Estudos de Cultura Contemporânea (CEDEC) de 1987 a 1991 e ocupou cargos importantes no Ministério da Cultura, como Secretário de Apoio à Cultura (1995-1998) e Secretário de Audiovisual (1999-2002), demonstrando sua versatilidade e compromisso com o desenvolvimento cultural do país.

Fundamentos da democracia brasileira

A paixão de José Álvaro Moisés pela democracia brasileira e pelas instituições políticas permeava todas as suas atividades. Ele era uma voz respeitada, constantemente envolvido na organização de seminários e na formulação de reflexões cruciais sobre o futuro da democracia, os direitos humanos e a cultura política no Brasil. Essas áreas eram o cerne de fóruns que ele dirigia, como o Fórum de Formulação dos Direitos e o Fórum da Democracia, plataformas para o debate e o aprimoramento de políticas públicas.

Sua expertise era reconhecida internacionalmente, evidenciada por sua atuação como membro do International Social Sciences Council, órgão vinculado à UNESCO. No âmbito acadêmico, além de dirigir o NUPPs, foi editor do influente blog “Qualidade da Democracia” e coordenador acadêmico do projeto “Corrupteca”, iniciativas que visavam aprofundar o entendimento e o debate público sobre temas críticos para a governança.

A produção intelectual de José Álvaro Moisés era vasta e diversificada. Colaborava com regularidade em jornais e revistas nacionais, oferecendo análises políticas sagazes e acessíveis ao grande público. É autor de diversos livros de análise política, obras que se tornaram referências para estudantes, pesquisadores e formuladores de políticas. Seus escritos desvendavam as complexidades do sistema político brasileiro, sempre com um olhar crítico e propositivo, buscando soluções para os desafios democráticos. Ele deixa um legado de pensamento que continua a inspirar e a guiar discussões sobre aprimoramento da cidadania e da governança.

O papel na fundação do PT e a visão crítica

A trajetória de José Álvaro Moisés não se restringia ao universo acadêmico; ele teve uma participação significativa nos primórdios da política partidária no Brasil pós-ditadura. Foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT) no início da década de 1980, um período de efervescência política e de reconstrução democrática no país. Sua adesão ao partido, então nascente, refletia seu profundo compromisso com as causas sociais e a justiça, valores que sempre nortearam sua vida pública e intelectual.

No PT, Moisés desempenhou um papel ativo e fundamental. Chegou a ser secretário do partido e contribuiu para a elaboração de uma cartilha que não apenas explicava as bases das crenças do PT, mas também debatia a Assembleeia Nacional Constituinte. Esse movimento foi crucial para o processo de redemocratização nacional, após anos de regime militar. Sua atuação nesse período demonstrava um desejo genuíno de contribuir para a construção de um novo arcabouço político e social para o Brasil, com foco na participação popular e na garantia de direitos. Ele atuou no partido por cerca de dez anos, período em que o PT solidificava suas raízes e começava a se estabelecer como uma força política relevante.

O trágico desfecho em Ubatuba

Nos últimos anos de sua vida, o cientista político José Álvaro Moisés adotou uma postura notavelmente crítica em relação aos governos do PT, o partido que ajudara a fundar. Em entrevistas, ele expressou suas ressalvas, demonstrando que seu compromisso maior era com a qualidade da democracia e a ética pública, independentemente das filiações partidárias. Essa independência intelectual e a coragem de questionar caminhos tomados por aqueles com quem um dia caminhou lado a lado, sublinham sua integridade e dedicação aos princípios que defendia. Sua visão crítica era mais uma prova de sua “atividade intelectual engajada” e de sua busca incessante pelo aprimoramento democrático, o que ressoa com sua reputação de “incansável construtor de instituições”.

O falecimento de José Álvaro Moisés ocorreu na tarde daquela sexta-feira (13), após desaparecer no mar da praia de Itamambuca, em Ubatuba. O boletim de ocorrência registrou o caso como morte suspeita e morte acidental, iniciando os procedimentos investigativos padrão. A jornalista Renée Amazonas Castelo Branco, que estava presente no local com o professor e amigos para apreciar o pôr do sol, relatou que o mar estava calmo no momento do incidente. Segundo seu depoimento, Moisés ficou fora de vista por poucos instantes antes de ocorrer o afogamento, um desfecho inesperado e profundamente lamentado por todos que o conheciam.

Um legado de pensamento e construção

A partida de José Álvaro Moisés deixa um vácuo imenso. Em nota, o Departamento de Ciência Política da USP pontuou que ele “deixa um vácuo pessoal, intelectual e institucional difícil de preencher”. Sua vida foi uma dedicada ao estudo e à prática da cidadania, à formação de novas gerações de pensadores e à construção de pilares essenciais para a democracia brasileira. Seja na elaboração de políticas públicas, na defesa dos direitos humanos, na análise da cultura política ou na fundação de instituições vitais, Moisés sempre esteve na vanguarda do pensamento e da ação. Seu legado é um convite permanente à reflexão sobre a qualidade da nossa democracia e o papel de cada um na construção de uma sociedade mais justa e equitativa.

FAQ

1. Quem foi José Álvaro Moisés?
José Álvaro Moisés foi um renomado professor aposentado da Universidade de São Paulo (USP), cientista político, pesquisador e um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT). Ele era uma referência acadêmica nas áreas de democracia e instituições políticas no Brasil.

2. Qual foi o papel de José Álvaro Moisés na fundação do PT?
Ele foi um dos fundadores do PT na década de 1980, atuando como secretário do partido e contribuindo para a elaboração de uma cartilha que explicava as bases ideológicas e discutia a Assembleia Nacional Constituinte, processo fundamental para a redemocratização do país.

3. Quais foram as principais contribuições acadêmicas de José Álvaro Moisés?
Suas contribuições incluem a fundação do Núcleo de Pesquisa de Políticas Públicas (NUPPs) da USP, a coordenação do Curso de Gestão de Políticas Públicas da EACH/USP, a liderança do Grupo de Pesquisa da Qualidade da Democracia no IEA/USP, e sua atuação em instituições como a ABCP e a IPSA. Ele era especialista em democracia, direitos humanos e cultura política, e autor de diversos livros e artigos sobre esses temas.

4. Onde e como José Álvaro Moisés faleceu?
José Álvaro Moisés faleceu por afogamento na praia de Itamambuca, em Ubatuba, litoral norte de São Paulo, na sexta-feira, 13 de outubro. O incidente foi registrado como morte suspeita e acidental, e testemunhas relataram que o mar estava calmo no momento.

Para aprofundar seu conhecimento sobre as instituições democráticas e a política brasileira, explore os trabalhos de José Álvaro Moisés e outros especialistas no campo, contribuindo para o contínuo debate sobre o futuro do Brasil.

Fonte: https://g1.globo.com

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