© Marla Galdino/Divulgação/Ministério das Mulheres

Fim da escala 6×1: proposta quer aliviar jornada feminina e criar empregos

ANUNCIO COTIA/LATERAL

O governo federal intensifica o debate público e legislativo sobre uma proposta que visa transformar as relações de trabalho no Brasil. A iniciativa busca reduzir a jornada máxima de 44 para 40 horas semanais e, crucialmente, eliminar a escala de trabalho 6×1, substituindo-a pelo modelo 5×2 – cinco dias de trabalho para dois de descanso. O objetivo central é proporcionar maior qualidade de vida aos trabalhadores, ampliando o tempo disponível para descanso, lazer e atividades pessoais. Este movimento é visto como uma oportunidade de modernizar as leis trabalhistas, mas enfrenta argumentos diversos sobre seus impactos econômicos e sociais, especialmente no que tange à sobrecarga enfrentada pelas mulheres na chamada dupla jornada. A discussão, que ganha força no Congresso Nacional, promete ser um divisor de águas para milhões de brasileiros, especialmente aquelas que equilibram o trabalho remunerado com responsabilidades domésticas.

A proposta de mudança na jornada de trabalho

A defesa do governo federal para a revisão do modelo de trabalho atual se baseia na premissa de que a sociedade precisa de um novo paradigma laboral. A intenção é promover um ambiente onde o tempo de trabalho não comprometa o bem-estar e a saúde dos indivíduos. A transição da escala 6×1 para a 5×2, com a redução da jornada de 44 para 40 horas semanais, é apontada como um caminho para alcançar esse equilíbrio.

O que significa o fim da escala 6×1?

Atualmente, milhões de trabalhadores brasileiros operam sob a escala 6×1, dedicando seis dias da semana ao trabalho e folgando apenas um. A proposta visa alterar essa realidade, estabelecendo dois dias de descanso consecutivos, geralmente no fim de semana, seguindo o modelo 5×2 amplamente adotado em outras economias. Para profissionais como Denise Ulisses, cobradora de ônibus no Distrito Federal há 15 anos, que trabalha seis horas corridas de segunda a sábado e folga somente aos domingos, a mudança representa uma promessa de mais tempo livre. “Eu sairia na sexta-feira à noite para o sítio e só voltaria no domingo à noite. Então, este seria um tempo bom de folga: dois dias”, projeta Denise, que conhece bem a rotina exaustiva do 6×1.

Impacto na qualidade de vida dos trabalhadores

O governo argumenta que o aumento do tempo de descanso e lazer terá um impacto direto e positivo na saúde física e mental da população. A jornada de trabalho atual muitas vezes impede que os trabalhadores dediquem-se a hobbies, estudos, cuidados pessoais ou simplesmente ao convívio familiar. Com mais tempo livre, espera-se que haja uma redução do estresse, melhoria da produtividade e um incentivo à participação cívica e ao desenvolvimento pessoal. A medida não é vista apenas como uma questão trabalhista, mas como um investimento no capital humano do país, que pode culminar em uma sociedade mais engajada e saudável.

O peso da dupla jornada sobre as mulheres

Um dos pilares da defesa da nova jornada de trabalho é o impacto desproporcional da escala 6×1 e da jornada extensa sobre as mulheres. O governo identifica essa pauta como prioritária, destacando que a carga de trabalho do modelo 6×1 recai, principalmente, sobre os ombros femininos, devido à complexidade da dupla jornada.

Dados e testemunhos reais

A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2022, corrobora essa percepção. Os dados revelam que as mulheres dedicam, em média, 21,3 horas semanais aos afazeres domésticos e cuidados de pessoas, enquanto os homens dedicam 11,7 horas. Essa diferença de 9,6 horas semanais significa que as mulheres gastam quase o dobro do tempo em trabalho não remunerado. A situação é ainda mais grave para mulheres pretas e pardas, que dedicam 1,6 hora a mais por semana a essas tarefas em comparação com as mulheres brancas. Tiffane Raane, auxiliar de serviços gerais no Distrito Federal, trabalha de segunda a sexta-feira e alternadamente aos sábados ou domingos. Ela sente no corpo e no bolso o cansaço e a dificuldade de conciliar a rotina. Tiffane paga R$ 350 por mês a uma cuidadora para o filho de 7 anos e precisa adiar o sonho de retomar a faculdade de educação física. “Ele sente mais falta por eu não conseguir ajudá-lo todos os dias nas atividades escolares. Eu chego tarde do trabalho. Estou cansada e ele também”, desabafa.

A visão do governo e movimentos sociais

Para o governo, a redução da jornada é um passo essencial para enfrentar a desigualdade de gênero e aliviar a sobrecarga feminina. Sandra Kennedy, secretária de Articulação Nacional do Ministério das Mulheres, enfatiza que a sociedade precisa rever a desigualdade de gênero, pois na soma entre o trabalho doméstico e o trabalho formal, as mulheres trabalham muito mais que os homens. O fim da jornada 6×1 pode, segundo ela, impactar positivamente na divisão de tarefas em casa. “O cuidado tem que ser compartilhado entre homens e mulheres. Isso não é uma questão só cultural. É também de os homens terem mais tempo em casa para compartilharem o cuidado”, argumenta. A secretária aponta que a dupla jornada tem levado ao adoecimento das mulheres, que têm menos tempo para estudar, se qualificar e conciliar a vida pessoal com a social. Essa pauta também mobiliza a sociedade civil. Em 2025, a Articulação Nacional de 8 de Março, com o apoio de mais de 300 organizações, entregou ao Ministério das Mulheres um manifesto defendendo o fim da escala 6×1, argumentando que “esse modelo rouba o tempo, adoece corpos e aprofunda desigualdades”.

O debate econômico e social

A proposta de redução da jornada de trabalho e fim da escala 6×1 gera um intenso debate entre os defensores da medida e setores da economia, que apresentam projeções divergentes sobre os impactos no mercado e na produtividade.

Argumentos da indústria e comércio

Apesar do forte apoio popular, setores da indústria e do comércio expressam preocupação. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) estima que a medida poderia aumentar o custo empresarial em até R$ 267 bilhões ao ano, com empregados formais, o que equivaleria a um acréscimo de até 7% na folha de pagamentos. A CNI alerta que, caso as horas não sejam repostas, a redução do limite semanal de horas trabalhadas resultará em queda da atividade econômica. De forma similar, um estudo da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e e Turismo (CNC) projeta que a redução da jornada para 40 horas semanais, com o fim da escala 6×1, poderia elevar o preço dos produtos em até 13%, impactar a competitividade e a preservação de 631 mil empregos formais. A CNC defende que as possíveis alterações sejam feitas a partir de negociação coletiva.

Benefícios projetados e geração de empregos

Em contrapartida, defensores da proposta, como Sandra Kennedy, do Ministério das Mulheres, questionam a narrativa de que melhor qualidade de vida do trabalhador levaria ao aumento do desemprego, lembrando que argumentos similares foram usados em outras épocas para justificar jornadas exaustivas de 12 ou 16 horas. Um estudo do Centro de Estudos Sindicais e Economia do Trabalho (Cesit/Unicamp), intitulado “O Brasil está pronto para trabalhar menos: a PEC da redução da jornada e o fim da escala 6×1”, projeta um cenário otimista. A pesquisa, com base na PNAD Contínua do IBGE, estima que a aprovação da medida beneficiaria pelo menos 37% dos trabalhadores brasileiros. A economista Marilane Teixeira, pesquisadora do Cesit/Unicamp, vai além, estimando que a mudança poderia gerar 4,5 milhões de novos empregos e elevar a produtividade no país, contrapondo as projeções negativas dos setores patronais. Além disso, a opinião pública parece favorável: uma pesquisa da Nexus (janeiro/fevereiro de 2026) indica que cerca de 84% dos brasileiros defendem ao menos dois dias de descanso semanal, e 73% apoiam o fim da escala 6×1, desde que os salários sejam mantidos, como reforçado pela balconista Jeisiane Magalhães Faria, que perdeu a conta de eventos familiares ausentes devido à sua rotina 6×1.

Tramitação no Congresso e mobilização popular

A proposta de alteração da jornada de trabalho está em estágio avançado de discussão no poder Legislativo, demonstrando a urgência e a relevância que o tema adquiriu na agenda nacional.

O cenário legislativo

Atualmente, a questão está em debate na Câmara dos Deputados. Em fevereiro deste ano, o presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB), encaminhou uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), e o tema deverá seguir para uma comissão especial. Motta considera viável a votação da proposta em maio pelo plenário da Câmara. O governo federal tem demonstrado pressa na aprovação da medida. O ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho, afirmou que o Executivo poderá enviar um projeto de lei com urgência para o Congresso Nacional, para unificar as diversas propostas que já tramitam no parlamento, caso as discussões não avancem na “velocidade desejada”. Essa movimentação sublinha a determinação governamental em ver a proposta concretizada.

A voz da sociedade

A pressão para a mudança não vem apenas do executivo, mas também da sociedade civil. Uma petição pública online, lançada em setembro de 2023 pelo Movimento Vida Além do Trabalho (VAT), dirigida ao Congresso Nacional, ganhou enorme repercussão nacional. Com quase 3 milhões de assinaturas, o documento solicita um modelo mais flexível de trabalho e a reavaliação das práticas que afetam a saúde e o equilíbrio entre vida profissional e pessoal. O texto do movimento ressalta que “trabalhadores saudáveis e satisfeitos são mais produtivos e contribuem para o desenvolvimento sustentável do país”, reforçando a ideia de que a mudança é benéfica para toda a nação.

Conclusão

A proposta de reduzir a jornada de trabalho e encerrar a escala 6×1 representa uma das mais significativas discussões laborais no Brasil nas últimas décadas. Impulsionada pelo governo federal e apoiada por ampla parcela da sociedade e movimentos sociais, a medida visa não apenas aprimorar a qualidade de vida dos trabalhadores com mais tempo para descanso e lazer, mas também combater a histórica sobrecarga imposta às mulheres, que frequentemente enfrentam uma dupla jornada exaustiva. Embora setores da indústria e do comércio alertem para possíveis impactos econômicos negativos, estudos independentes projetam a criação de milhões de empregos e um aumento na produtividade. Com a tramitação avançando no Congresso Nacional e a mobilização popular crescendo, o Brasil se prepara para um possível novo capítulo nas relações de trabalho, buscando um equilíbrio que promova bem-estar social e desenvolvimento sustentável.

FAQ

O que é a escala 6×1 e qual a mudança proposta?
A escala 6×1 refere-se a seis dias de trabalho seguidos por um dia de folga. A proposta visa substituir esse modelo pelo 5×2, ou seja, cinco dias de trabalho para dois dias de descanso consecutivos, geralmente no fim de semana, com a redução da jornada máxima para 40 horas semanais.

Como a redução da jornada afetaria as mulheres?
A redução da jornada é vista como crucial para aliviar a dupla jornada feminina (trabalho remunerado e tarefas domésticas não remuneradas). Dados mostram que mulheres dedicam quase o dobro de tempo a afazeres domésticos do que homens. A mudança permitiria maior tempo para descanso, qualificação e melhor divisão das responsabilidades familiares.

Qual o principal argumento contra a proposta?
Setores da indústria e do comércio, como a CNI e a CNC, argumentam que a redução da jornada pode elevar significativamente os custos empresariais, aumentar os preços dos produtos para o consumidor e, potencialmente, impactar a competitividade e levar à perda de empregos formais.

Quais os benefícios econômicos esperados com a mudança?
Estudos como o do Cesit/Unicamp projetam que a mudança na jornada de trabalho pode gerar 4,5 milhões de novos empregos e aumentar a produtividade no país. Além disso, trabalhadores mais descansados tendem a ser mais eficientes e menos propensos a doenças e acidentes de trabalho.

Mantenha-se informado sobre os desdobramentos dessa proposta crucial para o futuro do trabalho no Brasil e participe do debate, compartilhando sua perspectiva sobre o impacto de uma nova jornada na vida de milhões de brasileiros.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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