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Fim da escala 6×1 e da jornada de 44h: debate avança no

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A redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais e o fim da escala 6×1, que concede um dia de descanso a cada seis trabalhados, emergem como temas centrais no radar legislativo brasileiro. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em sua mensagem ao Congresso Nacional, destacou a pauta entre as prioridades do governo para o semestre, reforçando a urgência da discussão. Paralelamente, o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), prometeu agilizar o debate na Casa. O senador Paulo Paim (PT-RS), proponente de uma das iniciativas mais antigas sobre o assunto, considera o momento atual extremamente propício, impulsionado pelo apoio presidencial e pela crescente assimilação do tema, até mesmo por setores empresariais. Acredita-se que estas conquistas trabalhistas, aguardadas por milhões, estão mais próximas de se tornarem realidade.

Cenário legislativo e o ímpeto pela mudança

A discussão sobre a flexibilização das leis trabalhistas no Brasil ganhou um novo e significativo impulso com a manifestação clara do governo federal. O presidente Lula posicionou a redução da jornada de trabalho e o término da escala 6×1 como pontos cruciais da agenda legislativa, um movimento que o senador Paulo Paim considera fundamental para a aprovação. Paim, um dos principais articuladores do tema no Senado, expressou otimismo, argumentando que a popularidade da pauta, especialmente em ano eleitoral, e o empenho das autoridades formam a conjuntura ideal. Segundo o senador, até mesmo parte do empresariado, em setores como o hoteleiro e o comércio, já demonstra uma adaptação gradual a novas práticas. Paim enfatiza que não há mais retorno para o modelo atual, sendo apenas uma questão de tempo para que as mudanças se concretizem.

Múltiplas propostas em tramitação

O Congresso Nacional se encontra diante de diversas proposições que buscam reformar a jornada de trabalho. Na Câmara dos Deputados, uma subcomissão especial aprovou, em dezembro passado, a redução gradual da jornada máxima de 44 para 40 horas semanais, embora tenha rejeitado o fim da escala 6×1. Contudo, no Senado, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) avançou ainda mais. Em dezembro passado, a CCJ aprovou a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 148/2015, de autoria do senador Paim, que prevê a redução da jornada de 44 para 36 horas semanais de forma gradual, além de estabelecer o fim da escala 6×1. Essa PEC aguarda apenas a pauta para ser votada em plenário.

Ao todo, há sete projetos em tramitação, com quatro na Câmara e três no Senado. A pluralidade de autores é notável, com proponentes de diferentes espectros ideológicos, como os senadores Cleitinho (Republicanos-MG), Weverton Rocha (PDT-MA) e a deputada federal Érika Hilton (PSOL-SP), demonstrando um consenso crescente sobre a necessidade de modernizar as leis trabalhistas. A ministra da Secretaria de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, chegou a reunir alguns desses parlamentares para buscar uma estratégia unificada de aprovação. Mais recentemente, o líder do PT na Câmara, Lindbergh Farias (RJ), confirmou a intenção do governo de enviar um projeto de lei com urgência constitucional ao Congresso, logo após o Carnaval, para pôr fim à escala 6×1. O senador Paim reitera sua abertura a esse diálogo, afirmando que a prioridade é a aprovação, não a autoria, e se o governo buscar uma concertação para uma nova redação, o objetivo será apoiar.

Argumentos em defesa da flexibilização

Os defensores da redução da jornada de trabalho e do fim da escala 6×1 apresentam uma série de argumentos sociais e econômicos. O senador Paulo Paim estima que a redução para 40 horas semanais beneficiaria cerca de 22 milhões de trabalhadores, enquanto uma jornada de 36 horas ampliaria esse número para 38 milhões. Um dos pontos mais relevantes é o impacto direto sobre as mulheres, que, segundo dados, acumulam até 11 horas diárias de sobrejornada em muitas situações, evidenciando uma desigualdade que seria atenuada.

Além disso, a saúde mental e física dos trabalhadores é um fator crucial. Dados recentes do Instituto Nacional da Seguridade Social (INSS) apontam para 472 mil afastamentos por transtornos mentais em 2024, um número alarmante. Paim argumenta que a redução da jornada contribui para a melhoria desses indicadores, aumentando a satisfação no trabalho e diminuindo a incidência de síndromes de esgotamento. O senador ainda questiona a disparidade de tratamento, citando a aprovação de leis que reestruturam carreiras de servidores do legislativo federal, as quais incluíram licenças compensatórias para cargos de maior complexidade, concedendo um dia de descanso a cada três trabalhados. Ele indaga: “Por que não podemos conceder o fim da escala 6×1 para a massa de trabalhadores?”

Impacto na saúde e bem-estar dos trabalhadores

A exaustão decorrente de jornadas excessivas é uma preocupação crescente, com implicações sérias para a saúde pública e a produtividade. A síndrome de esgotamento profissional, ou burnout, é um problema cada vez mais diagnosticado. A possibilidade de uma jornada de trabalho mais curta oferece a perspectiva de um equilíbrio mais saudável entre a vida profissional e pessoal, permitindo que os trabalhadores dediquem mais tempo ao lazer, à família e aos cuidados com a saúde. Esse bem-estar aprimorado não apenas beneficia o indivíduo, mas também pode levar a um aumento da criatividade, da motivação e da eficiência no ambiente de trabalho. Ao reduzir o estresse e a fadiga, espera-se uma diminuição de acidentes de trabalho e de afastamentos por doenças, gerando um ciclo virtuoso de melhoria da qualidade de vida e da performance profissional.

Desafios e o contraponto empresarial

Apesar do crescente consenso político e social, o caminho para a aprovação dessas mudanças não está isento de obstáculos. A resistência dos setores empresariais é um fator esperado. Segundo o senador Paim, essa oposição frequentemente se manifesta através de um discurso “velho, surrado e desgastado”, que alerta para o risco de aumento do desemprego e elevação dos custos da mão de obra. Tais argumentos são frequentemente empregados em debates sobre pautas trabalhistas, como o aumento do salário mínimo.

No entanto, os defensores da reforma contestam essa visão, argumentando que uma maior empregabilidade e um mercado de trabalho mais aquecido resultam em benefícios para a economia como um todo. A visão de Paim é clara: “Não há mais razão para manter essa escala 6×1 com jornada de 44 horas semanais”. Ele sugere que, à medida que mais pessoas têm acesso a condições de trabalho mais justas e a um maior tempo livre, o consumo e a demanda por serviços podem se fortalecer, impulsionando o mercado interno. O debate público, conforme ele observa, está cada vez mais favorável à redução da jornada, o que pode mitigar a força da resistência empresarial.

O panorama internacional como referência

A experiência de outros países serve como um forte embasamento para a defesa da redução da jornada de trabalho no Brasil. Dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) revelam que os brasileiros trabalham, em média, 39 horas por semana. Embora a média seja ligeiramente menor que as 44 horas máximas, 67% dos trabalhadores formais ainda cumprem jornadas superiores a 40 horas. Essa média é superior à de nações como Estados Unidos, Coreia do Sul, Portugal, Espanha, Argentina, Itália e França. A diferença se torna ainda mais acentuada quando comparada à Alemanha, um dos países mais produtivos do mundo, com uma média de 33 horas semanais.

Recentemente, a América Latina tem sido palco de importantes reformas. Em 2023, Chile e Equador aprovaram legislações para diminuir a jornada semanal de 45 para 40 horas. O México, que possuía uma das maiores jornadas da região (48 horas semanais), também iniciou um processo de redução gradual para 40 horas. No contexto europeu, a média da União Europeia é de 36 horas semanais, com variações que vão de 32 horas na Holanda a 43 horas na Turquia, exemplifica Paim. Outro ponto relevante é que trabalhadores com menor escolaridade são, em média, os que trabalham mais (42 horas semanais), enquanto aqueles com ensino superior têm uma média de 37 horas. Isso sugere que a redução da jornada beneficiaria, de forma mais acentuada, os trabalhadores em situações mais vulneráveis ou precarizadas.

Perspectivas para a reforma trabalhista

A convergência de fatores políticos, sociais e econômicos sinaliza um momento decisivo para a discussão sobre a jornada de trabalho no Brasil. Com o apoio governamental expresso, a tramitação de múltiplas propostas no Congresso e a crescente conscientização sobre os benefícios da redução da jornada para a saúde, bem-estar e produtividade dos trabalhadores, a expectativa é de que as conquistas trabalhistas estejam mais próximas de serem concretizadas. A experiência internacional reforça a viabilidade e os impactos positivos dessas mudanças, desmistificando argumentos de que resultariam em prejuízos econômicos insustentáveis. Embora a resistência empresarial seja um desafio, o debate público favorável e a disposição dos parlamentares de diferentes vertentes ideológicas criam um cenário propício para avanços. O desfecho dessa pauta poderá redefinir significativamente as relações de trabalho no país, impactando milhões de brasileiros e alinhando o Brasil a tendências globais de valorização do tempo e da qualidade de vida dos trabalhadores.

Perguntas frequentes

Qual é a principal proposta em debate no Congresso sobre a jornada de trabalho?
A principal proposta em tramitação no Senado, a PEC 148/2015, de autoria do senador Paulo Paim, visa reduzir a jornada de 44 para 36 horas semanais de forma gradual e acabar com a escala 6×1. Na Câmara, há uma proposta de redução para 40 horas semanais.

Quais são os principais argumentos a favor da redução da jornada?
Os argumentos incluem a melhoria da saúde mental e física dos trabalhadores, redução do estresse e do esgotamento, aumento da satisfação e produtividade, maior equilíbrio entre vida profissional e pessoal, impacto positivo na empregabilidade e alinhamento com tendências trabalhistas internacionais. Há também um benefício específico para mulheres, que costumam acumular mais horas de trabalho.

Quais setores demonstram resistência à proposta?
Setores empresariais tradicionalmente expressam resistência, argumentando que a redução da jornada poderia elevar os custos da mão de obra e potencialmente levar ao aumento do desemprego, embora essas alegações sejam frequentemente contestadas pelos defensores da reforma.

Como o Brasil se compara a outros países em termos de jornada de trabalho?
O Brasil tem uma média de 39 horas semanais, com 67% dos trabalhadores formais cumprindo mais de 40 horas. Essa jornada é superior à de muitos países desenvolvidos e de nações vizinhas que já implementaram reduções, como Chile, Equador e México, e significativamente maior que a de países como a Alemanha (33 horas).

Mantenha-se informado sobre os desdobramentos desta importante discussão legislativa. Acompanhe nossas próximas atualizações para entender como essas mudanças podem impactar o futuro do trabalho no Brasil.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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