Maio tornou-se um mês simbólico para importantes reflexões sociais e campanhas de conscientização. De um lado, o Maio Amarelo alerta para a necessidade de construir um trânsito mais seguro e humano. De outro, o Maio Furta-Cor chama atenção para a saúde mental materna e para os desafios emocionais enfrentados por mulheres após a maternidade. Mas entre essas duas campanhas existe uma realidade ainda pouco visível: a das mulheres que são mães e, ao mesmo tempo, trabalham diariamente ao volante — caminhoneiras, motoristas de aplicativo, condutoras escolares, profissionais do transporte urbano e de cargas.
É uma pauta que merece mais atenção pública porque revela uma contradição contemporânea: a mulher conquistou novos espaços profissionais, mas a sociedade ainda não reorganizou estruturas suficientes para sustentar essa mudança.
Nos últimos anos, a presença feminina no setor de transportes cresceu. Mesmo permanecendo como minoria em uma área historicamente masculina, mulheres passaram a ocupar estradas, aplicativos e serviços de transporte em número cada vez maior. O avanço é significativo. Representa autonomia financeira, independência e ruptura de estereótipos antigos. Porém, a entrada no mercado não eliminou obstáculos históricos.
Para muitas mães motoristas, a jornada profissional não termina ao desligar o veículo. Começa uma segunda — ou terceira — etapa do dia: cuidar da casa, dos filhos, da rotina escolar, das demandas emocionais da família e, muitas vezes, de parentes idosos. O problema é que a chamada tripla jornada deixou de ser uma expressão sociológica para se tornar uma rotina exaustiva.
Pesquisas sobre desigualdade de gênero e mobilidade mostram que mulheres realizam trajetos diários mais fragmentados e complexos justamente porque acumulam responsabilidades familiares e profissionais. Não se deslocam apenas para trabalhar: levam filhos à escola, acompanham consultas médicas, fazem compras e administram tarefas domésticas paralelamente à atividade remunerada. Em outras palavras, administram uma logística humana invisível.
Nesse contexto, a discussão proposta pelo Maio Furta-Cor torna-se ainda mais urgente. Dados sobre saúde materna indicam que aproximadamente uma em cada quatro mulheres pode enfrentar episódios de depressão pós-parto ou sofrimento emocional relacionado à maternidade. Ainda que os números sejam alarmantes, o problema permanece cercado por silêncio, culpa e pouca assistência.
Quando se adiciona a rotina do volante, a situação ganha novos contornos. Caminhoneiras passam dias longe dos filhos; motoristas de aplicativo frequentemente estendem jornadas para aumentar a renda; profissionais do transporte enfrentam trânsito intenso, pressão por horários, insegurança e desgaste físico. O resultado costuma ser previsível: menos horas de sono, alimentação inadequada, estresse elevado e redução do tempo de convivência familiar.
E há um aspecto frequentemente ignorado: saúde emocional não é assunto privado quando se fala de trânsito. Uma motorista exausta, ansiosa ou emocionalmente sobrecarregada enfrenta maior risco de perda de atenção e fadiga. Portanto, cuidar da saúde mental dessas profissionais não é apenas uma pauta de assistência social; é também uma questão de segurança pública.
É preciso reconhecer que houve avanços. Aplicativos e novas modalidades de trabalho trouxeram maior flexibilidade e permitiram a muitas mulheres construir renda com autonomia. Contudo, flexibilidade sem rede de apoio pode se transformar em armadilha. Troca-se o controle rígido do horário pela disponibilidade permanente.
A grande pergunta que une Maio Amarelo e Maio Furta-Cor talvez seja simples: quem cuida de quem cuida de todos? Quem olha para a mãe que dirige crianças à escola, transporta passageiros, cruza estradas carregando mercadorias ou trabalha até a madrugada para sustentar a família?
Valorizar essas mulheres exige mais do que campanhas anuais. Exige políticas públicas, ampliação do acesso a creches, uma rede de apoio, incentivo à divisão equilibrada das responsabilidades familiares e atenção à saúde mental materna. Porque proteger vidas no trânsito também significa proteger quem está atrás do volante.
E talvez o verdadeiro sinal de atenção neste mês não esteja apenas no amarelo das campanhas. Talvez esteja na necessidade de enxergar mulheres que, diariamente, equilibram direção, maternidade e sobrevivência em estradas que ainda insistem em exigir delas muito mais do que deveriam.
Maria Helena de Oliveira
Maio/2026
Jornal Imprensa Regional O Jornal Imprensa Regional é uma publicação dedicada a fornecer notícias e informações relevantes para a nossa comunidade local. Com um compromisso firme com o jornalismo ético e de qualidade, cobrimos uma ampla gama de tópicos, incluindo:
