Em Olinda, a Quarta-feira de Cinzas não marca o fim do fervor carnavalesco, mas sim a continuação de uma tradição secular que desafia o calendário oficial da folia. Enquanto muitos se preparam para o descanso pós-Carnaval, as ladeiras históricas da cidade pernambucana pulsam com uma energia renovada, protagonizada por blocos e manifestações culturais únicas. Este dia, que em outras localidades seria de recolhimento, transforma-se em um prolongamento da alegria, da memória e da cultura popular. O encontro dos boizinhos e a performance de blocos tradicionais garantem que a magia do Carnaval de Olinda persista, atraindo foliões e reafirmando o compromisso da comunidade com suas raízes festivas. A Quarta-feira de Cinzas em Olinda é, portanto, um espetáculo à parte, um testemunho vibrante de resistência cultural.
A tradição persistente na Quarta-feira de Cinzas
A manhã da Quarta-feira de Cinzas em Olinda é um esião para a folia que teima em não terminar, um reflexo do espírito inesgotável do Carnaval da cidade. Diferente de outras regiões do país, onde o dia assinala o fim das festividades, as ladeiras olindenses ganham um novo fôlego com a presença de blocos históricos que mantêm viva a chama da celebração. Duas dessas agremiações, com histórias ricas e um legado cultural profundo, são o Munguzá de Zuza e Taís e o Bacalhau do Batata, que anualmente reúnem milhares de pessoas para prolongar a experiência carnavalesca.
Munguzá de Zuza e Taís: sabor e história
Fundado há mais de 30 anos pelo casal Zuza e Taís, o bloco Munguzá de Zuza e Taís é uma das mais queridas expressões da Quarta-feira de Cinzas em Olinda. Sua tradição não se resume apenas à música e à dança, mas também à generosidade. Anualmente, mais de 2.000 litros de munguzá, um alimento à base de milho doce e coco, típico da culinária nordestina, são distribuídos gratuitamente aos foliões. Este gesto simbólico de partilha e nutrição representa o calor humano e a hospitalidade do povo pernambucano, transformando a degustação do munguzá em um ritual que reforça os laços comunitários e a identidade cultural. A longevidade do bloco atesta sua importância como um pilar da folia estendida, proporcionando um reencontro com as raízes gastronômicas e festivas da região.
Bacalhau do Batata: a festa para quem trabalhou
Com uma história que remonta a 1962, o bloco Bacalhau do Batata nasceu de uma iniciativa singular do garçom Isaías Ferreira da Silva, carinhosamente conhecido como Batata. A ideia original era criar um espaço de alegria e descontração para aqueles que, por trabalharem intensamente durante os dias oficiais de Carnaval, não puderam desfrutar da folia. Assim, o Bacalhau do Batata se tornou um símbolo de inclusão e reconhecimento para uma parte essencial da comunidade olindense. Hoje, a tradição é honrosamente mantida por Fátima Silva, sobrinha do fundador. Aos 62 anos de existência, a responsabilidade de manter viva a chama é grande, como expressou Fátima Silva, que mesmo ponderando sobre a possibilidade de ser seu último ano como porta-bandeira, encontra na energia e no clamor dos foliões a força para seguir adiante. O bloco continua a ser um ponto de encontro para a celebração da resistência e da dedicação dos trabalhadores.
O legado vivo de Dona Dá e os boizinhos
Além dos blocos que animam as ladeiras, a Quarta-feira de Cinzas em Olinda é marcada por manifestações culturais que celebram a memória e a cultura popular em suas formas mais autênticas. O “encontro dos boizinhos”, liderado pela matriarca Jodeci da Irôla da Silva, a Dona Dá, é um exemplo vívido dessa rica tapeçaria cultural que se desenrola na cidade histórica, enraizada na Rua da Boa Hora.
O patrimônio cultural da Rua da Boa Hora
Aos 86 anos de idade, Jodeci da Irôla da Silva, universalmente conhecida como Dona Dá, é uma figura emblemática do Carnaval de Olinda e um Patrimônio Vivo do estado de Pernambuco. Há mais de duas décadas, ela se dedica a manter e promover o tradicional “encontro dos boizinhos” na Rua da Boa Hora, transformando sua calçada em um palco de celebração da cultura popular. Esta honraria, concedida pelo estado, reflete a magnitude de sua contribuição para a salvaguarda das tradições locais. Dona Dá personifica a resiliência e a paixão pela cultura popular, garantindo que as futuras gerações possam testemunhar e participar dessa manifestação tão particular e cheia de significado. Sua dedicação é um farol que ilumina a continuidade das raízes culturais de Olinda.
A celebração da cultura popular e a comunhão comunitária
Na calçada do número 207 da Rua da Boa Hora, endereço de Dona Dá, as agremiações de boi se reúnem para uma apresentação vibrante e cheia de simbolismo. Ao som de ritmos contagiantes, os bois dançam, trazendo à vida personagens e narrativas que ecoam a ancestralidade da cultura pernambucana. A cena é um verdadeiro espetáculo de interação: os vizinhos, em um gesto de retribuição e apreço, oferecem frutas frescas, cachaça e vinho aos artistas, selando um pacto informal de hospitalidade e gratidão. Dona Dá, com a sabedoria de seus 86 anos e a paixão inabalável, expressa uma imensa satisfação. Ela relata que há mais de duas décadas mantém essa tradição com sacrifício e amor, e a maior recompensa é a alegria visível nas ruas, com a dança dos boizinhos celebrada por todos. Este intercâmbio entre a arte popular e o acolhimento da comunidade é a essência do encontro, transformando-o em uma poderosa representação da união entre festa, memória e a cultura popular mais autêntica.
A persistência da folia e da memória
A Quarta-feira de Cinzas em Olinda transcende a mera extensão temporal do Carnaval, transformando-se em uma declaração cultural de profunda significância. É um momento em que a cidade reafirma sua identidade festiva, demonstrando que a alegria, a tradição e a memória são valores inegociáveis que se perpetuam para além de qualquer calendário oficial. A dedicação de figuras como Zuza, Taís, Batata e, notavelmente, Dona Dá, ao lado da participação ativa dos foliões e da comunidade, tece uma narrativa de resistência cultural vibrante. Este dia singular em Olinda não apenas prolonga a festa, mas também celebra o legado de indivíduos e grupos que, com amor e sacrifício, garantem a sobrevivência de manifestações artísticas populares, enriquecendo o patrimônio imaterial do Brasil e consolidando a Quarta-feira de Cinzas como um capítulo à parte na grandiosa história do Carnaval pernambucano.
Perguntas frequentes sobre a Quarta-feira de Cinzas em Olinda
Quais blocos tradicionais se apresentam na Quarta-feira de Cinzas em Olinda?
Os blocos mais emblemáticos que garantem a continuidade da festa na Quarta-feira de Cinzas em Olinda são o Munguzá de Zuza e Taís, conhecido por sua distribuição de munguzá, e o Bacalhau do Batata, que homenageia os trabalhadores do Carnaval.
Quem é Dona Dá e qual sua contribuição para o Carnaval de Olinda?
Jodeci da Irôla da Silva, conhecida como Dona Dá, é um Patrimônio Vivo do estado de Pernambuco. Aos 86 anos, ela organiza há mais de duas décadas o tradicional “encontro dos boizinhos” na Rua da Boa Hora, mantendo viva uma importante manifestação da cultura popular.
Qual o significado cultural do encontro dos boizinhos na Quarta-feira de Cinzas?
O encontro dos boizinhos representa a persistência da cultura popular e da folia em Olinda, mesmo após o término oficial do Carnaval. É um momento de celebração da memória, da tradição e da união comunitária, onde artistas e vizinhos interagem, trocando apresentações por gestos de hospitalidade.
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