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© Edilson Rodrigues/Agência Senado

Diagnóstico Tardiamente da AME: O Preço da Espera no Teste do Pezinho Ampliado

Agosto, dedicado à conscientização sobre a Atrofia Muscular Espinhal (AME), ressalta um desafio crítico no Brasil: a demora no diagnóstico e no início do tratamento da doença. Entidades de pacientes alertam que essa espera prolongada compromete irreversivelmente a preservação dos movimentos, transformando a esperança de uma vida plena em uma luta constante contra a progressão da condição neurológica.

A AME, uma doença genética rara que afeta os neurônios motores e causa fraqueza muscular progressiva, exige intervenção precoce para resultados eficazes. Contudo, dados alarmantes do Instituto Nacional da Atrofia Muscular Espinhal (Iname) revelam que, para a AME tipo 1, o diagnóstico ocorre, em média, aos 5 meses e 5 dias de vida. A situação se agrava no período entre a confirmação da doença e o início do tratamento, que se estende por uma média de 1,7 ano no país, um contraste gritante com outras nações onde esse intervalo pode ser inferior a um mês.

A Lenta Implementação da Triagem Neonatal Ampliada

Um dos principais fatores que impedem a agilidade diagnóstica é a morosidade na implementação da Lei nº 14.154/2021. Essa legislação visa expandir o número de doenças rastreadas pelo Teste do Pezinho no Sistema Único de Saúde (SUS), incluindo a AME. No entanto, cinco anos após sua aprovação, a ampliação da triagem neonatal é uma realidade em apenas três estados – Distrito Federal, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul – enquanto Espírito Santo, Paraná e Rio Grande do Sul estão em fase de implantação. O Ministério da Saúde, por sua vez, estabeleceu um prazo até 2030 para concluir a ampliação do Programa Nacional de Triagem Neonatal em todo o território nacional, com a AME prevista apenas na última e mais distante etapa do cronograma.

A presidente do Iname, Diovana Loriato, enfatiza que o diagnóstico precoce é crucial para impedir perdas motoras irreversíveis. Ela ressalta que a perda de neurônios motores na AME tipo 1 é acelerada e ocorre predominantemente nos primeiros meses de vida, tornando a detecção antecipada a única via para mitigar essa cascata de prejuízos funcionais.

A Via Judicial como Recurso para o Acesso ao Tratamento

A dificuldade de acesso ao tratamento para a AME no Brasil é evidenciada pelos altos índices de judicialização. O Cadastro Nacional da AME, que mapeia a incidência da doença, revela que 39% dos pacientes com AME tipos 1 e 2 só conseguiram iniciar suas terapias após recorrerem à Justiça. Para a AME tipo 3, que ainda não possui tratamento coberto pelo SUS, esse percentual é ainda mais alarmante, chegando a 73,9% dos casos.

Apesar de o Brasil dispor de terapias de alta tecnologia, como a Zolgensma – uma terapia gênica de dose única oferecida pelo SUS com custo estimado em R$ 7 milhões –, o acesso não se restringe apenas ao medicamento. Muitos pacientes e suas famílias enfrentam entraves para obter equipamentos essenciais ao tratamento domiciliar, como respiradores, o que, em muitos casos, resulta em internações hospitalares prolongadas e um enorme desgaste emocional e financeiro.

O Contraste que Salva: Histórias de Famílias Marcadas pela AME

O impacto transformador do diagnóstico precoce é dramaticamente ilustrado pela história da família de Keila Barbosa Pereira Mendes, de 35 anos, e seus dois filhos, Heitor, de 6, e Heloisa, de 4, ambos com AME tipo 1, mas com desfechos radicalmente distintos. Heitor foi diagnosticado aos três meses, após uma parada respiratória que o levou à UTI, onde foi entubado e traqueostomizado. Hoje, ele reside em um hospital em Teresina, dependente de cuidados médicos intensivos, sem a capacidade de andar ou falar.

Em um cenário completamente diferente, quando Heloisa nasceu, ela realizou o teste genético imediatamente. Em apenas 15 dias, a família recebeu o resultado positivo para AME e, apenas seis dias depois, a menina já iniciava o tratamento. Graças a essa intervenção ultrarrápida, Heloisa não apresenta nenhum sintoma da doença, desfruta de uma infância plena, caminha, pula e vai à escola, demonstrando total independência. Os casos de Heitor e Heloisa servem como um poderoso testemunho da vida que pode ser preservada quando o tempo não é um inimigo, mas um aliado.

Um Apelo por Celeridade e Equidade no Acesso à Saúde

A realidade da AME no Brasil clama por uma aceleração urgente na implementação da Lei do Teste do Pezinho Ampliado em todo o país. O diagnóstico precoce não é apenas uma questão de protocolo médico, mas um direito fundamental que pode significar a diferença entre a vida e a deterioração irreversível da saúde, impactando diretamente a qualidade de vida dos pacientes e de suas famílias. É imperativo que os prazos burocráticos não se sobreponham à urgência da vida, garantindo que o acesso rápido ao diagnóstico e ao tratamento se torne uma realidade para todas as crianças brasileiras, independentemente de sua localização ou condição socioeconômica, reduzindo o sofrimento e a sobrecarga do sistema de saúde a longo prazo.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br