© Antônio Cândido/Arquivo Pessoal

Dia de reis: celebração centenária ecoa na cultura brasileira

ANUNCIO COTIA/LATERAL

O Dia de Reis, festejado anualmente em 6 de janeiro, assinala uma das mais ricas e antigas manifestações da cultura popular brasileira: a Folia de Reis. Esta celebração, com raízes profundas na tradição cristã e um legado centenário no Brasil, marca o encerramento do ciclo natalino e a chegada dos Três Reis Magos – Baltazar, Belchior e Gaspar – ao presépio, para homenagear o recém-nascido Jesus Cristo. Em diversas regiões do país, grupos de cantadores e instrumentistas, conhecidos como foliões, percorrem ruas e comunidades, entoando versos e melodias que reverenciam esta data sagrada. Vestidos com trajes típicos e máscaras, esses grupos mantêm viva uma prática que transcende gerações, representando a fé, a arte e a memória coletiva de um povo.

Origens e simbolismo da tradição

A celebração do Dia de Reis possui uma profunda carga simbólica, enraizada na narrativa bíblica do Novo Testamento. A data de 6 de janeiro é tradicionalmente associada à Epifania do Senhor, que comemora a manifestação de Jesus como o Messias a todos os povos, simbolizada pela visita dos magos do Oriente. A jornada de Baltazar, Belchior e Gaspar, guiados por uma estrela até Belém, é um elemento central que inspira as folias e os rituais praticados no Brasil.

A jornada dos reis magos e o significado dos presentes

Segundo a tradição, os três reis magos viajaram do Oriente, seguindo a estrela de Belém, até encontrarem o Messias. Cada um deles portava um presente de grande significado: ouro, incenso e mirra. O ouro simbolizava a realeza de Jesus, reconhecendo-o como rei; o incenso, a sua divindade e imortalidade, uma vez que era usado em rituais religiosos para louvor a Deus; e a mirra, uma resina aromática utilizada em embalsamamentos, prefigurava a sua humanidade e sacrifício, marcando a mortalidade de Cristo. A Igreja Católica canonizou esses personagens, fortalecendo a importância da data no calendário litúrgico e cultural. A chegada dos magos ao seu destino é vista pelos devotos como o ponto final dos festejos natalinos, que se iniciam quatro domingos antes de 25 de dezembro, dia atribuído ao nascimento de Jesus. Neste dia, é comum o desmonte de presépios, árvores e demais enfeites que adornaram os lares e as cidades durante o período natalino.

A influência colonial e a diversidade das manifestações

A Folia de Reis, ou Reisado, foi introduzida no Brasil durante o período colonial, trazida pelos portugueses. Adaptando-se e mesclando-se com as culturas locais, a manifestação ganhou diversas denominações e características regionais ao longo do tempo. Termos como Terno de Reis, Tiração de Reis, Rancho de Reis, Guerreiros e Reisado, são algumas das variações que designam a mesma essência: grupos de cantadores e instrumentistas que, de porta em porta, louvam santos de devoção, recolhem donativos para os necessitados ou cumprem promessas. Esses grupos, que em alguns casos incluem personagens como reis, palhaços e bastiões, visitam as casas dos devotos, realizando danças e cantorias com uma variedade de instrumentos como violas, violões, cavaquinhos, sanfonas e percussão. A tradição se mantém viva e pujante, especialmente nas regiões Sudeste, Nordeste e Centro-Oeste do país, com destaque para estados como Espírito Santo, Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro, Alagoas, Bahia, Ceará, Maranhão, Paraíba, Pernambuco, Piauí e Goiás.

Manifestações contemporâneas e reconhecimento cultural

A riqueza e a diversidade da Folia de Reis no Brasil são evidentes nas múltiplas formas como a tradição se manifesta em diferentes estados, adaptando-se às particularidades culturais de cada local. Em muitas dessas regiões, a folia não é apenas uma celebração religiosa, mas um evento que impulsiona a comunidade, gera encontros e promove a preservação de saberes e fazeres ancestrais.

Diversidade das folias pelo Brasil: características e personagens

Em Caxias, no Maranhão, por exemplo, a Praça da Matriz torna-se palco para diversos folguedos de Folia de Reis, com grupos como Encanto da Terra, Jacar, Reisado Mirim, Encanto dos Corais, Filomena, os Três Reis Magos e Dona Joaninha. Na capital do Rio Grande do Norte, Natal, a comemoração tem seu epicentro no Santuário de Santos Reis, com missas e uma procissão pelo bairro homônimo. Já no Piauí, a cidade de Boa Hora sedia o Festival de Reisado, onde grupos como Boi Maravilha, Boi Estrela e Boi Esperança competem por prêmios, com apresentações que incluem cantadeiras, caretas, dançadores, sanfoneiros e o boi, um personagem central. O festival culmina com o ritual da morte dos bois, realizado nas casas de pagadores de promessas. Em Pernambuco, a tradição é celebrada tanto no interior quanto na capital, Recife, onde a Queima da Lapinha ou do próprio presépio marca o encerramento dos festejos natalinos e o anúncio do Carnaval, simbolizando renovação e esperança. A concentração para este evento na capital pernambucana ocorre na Rua Nova, em frente à Igreja de Nossa Senhora da Conceição dos Militares.

Exemplos regionais e o processo de patrimonialização

Minas Gerais, em particular, é um dos estados onde a Folia de Reis é mais expressiva. O Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico (Iepha) já cadastrou mais de 1.600 grupos em cerca de 400 municípios, e a manifestação foi reconhecida em 2017 como patrimônio cultural de natureza imaterial. Além dos Reis Magos, as folias mineiras também cultuam o Divino Espírito Santo, São Sebastião, São Benedito e Nossa Senhora da Conceição, por vezes em períodos que se estendem para além do ciclo natalino. O reconhecimento da Folia de Reis como patrimônio cultural imaterial tem avançado em várias frentes. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) possui pedidos de reconhecimento para Reisados de Pernambuco, Folias de Reis Fluminenses e Folias de Reis do Estado de São Paulo. Pernambuco, inclusive, concedeu em 2022 o título de Patrimônio Cultural Imaterial do Estado ao Reisado, após um mapeamento da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe) em diversos municípios. No Rio de Janeiro, uma parceria entre Iphan e Uerj identificou folias em 15 municípios, reforçando a capilaridade da tradição. Em São Paulo, as Folias de Reis florescem no interior, em microrregiões como Ourinhos e Assis, com grupos como Bandeiras de Santos Reis de Ribeirão Grande e Companhia de Reis Família Faceiros, que preservam elementos identitários e memória cultural.

Persistência e valor cultural

A Folia de Reis transcende a mera celebração religiosa para se firmar como um pilar fundamental da identidade cultural brasileira. Através de seus cantos, danças, personagens e instrumentos, a tradição tece uma rica tapeçaria de fé, história e expressão artística que se renova a cada ano. A capacidade de se adaptar e, ao mesmo tempo, preservar seus elementos essenciais, demonstra a vitalidade e a relevância de uma manifestação que conecta o passado colonial ao presente vibrante, garantindo que o legado dos Reis Magos continue a inspirar e encantar gerações. O reconhecimento como patrimônio cultural em diversas esferas é um testemunho da importância de proteger e fomentar essas práticas que celebram a diversidade e a riqueza do patrimônio imaterial do Brasil.

Perguntas frequentes

O que é a Folia de Reis?
É uma celebração cultural e religiosa brasileira que ocorre anualmente, especialmente em 6 de janeiro (Dia de Reis), onde grupos de cantadores e instrumentistas percorrem as casas para louvar os Três Reis Magos e Jesus Cristo, marcando o fim do ciclo natalino.

Qual o significado dos presentes dos reis magos?
Os presentes oferecidos pelos reis magos a Jesus têm significados simbólicos: ouro (realeza), incenso (divindade e imortalidade) e mirra (humanidade e sacrifício, prefigurando a mortalidade de Cristo).

Em quais regiões do Brasil a Folia de Reis é mais presente?
A Folia de Reis é amplamente celebrada em diversas regiões do Brasil, com forte presença nos estados do Sudeste (Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo), Nordeste (Alagoas, Bahia, Ceará, Maranhão, Paraíba, Pernambuco, Piauí) e Centro-Oeste (Goiás).

A Folia de Reis é reconhecida como patrimônio cultural?
Sim, em diversas localidades e níveis. Em Minas Gerais, é patrimônio cultural imaterial do estado desde 2017. Pernambuco concedeu o mesmo título ao Reisado em 2022, e há processos em andamento no Iphan para reconhecimento em outros estados.

A Folia de Reis é um tesouro cultural que merece ser vivenciado e valorizado. Participe, apoie os grupos locais e contribua para a perpetuação desta rica herança brasileira.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

Deixe uma resposta

Seu endereço de e-mail não será publicado.Os campos obrigatórios são marcados *

*

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.