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Crimes na tríplice fronteira: desafios e combate em Foz do Iguaçu

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A região de Foz do Iguaçu, no Paraná, representa um ponto nevrálgico na segurança pública do Brasil, sendo a fronteira mais movimentada do país e um epicentro de atividades transnacionais complexas. As dinâmicas únicas do local, onde o Brasil se encontra com o Paraguai e a Argentina, criam um cenário propício tanto para o intercâmbio cultural e comercial quanto para a proliferação de crimes na tríplice fronteira. Entender o “vai e vem” constante de pessoas e mercadorias, identificar os ilícitos mais comuns e as estratégias empregadas para combatê-los é crucial para desvendar os desafios diários enfrentados por autoridades e comunidades locais. Esta análise aprofundada explora a engenhosidade dos criminosos e a resiliência das forças de segurança, que buscam incessantemente proteger a integridade desta vibrante região.

A complexa dinâmica da fronteira e o fluxo transnacional

O palco dos ilícitos: Foz do Iguaçu e seus vizinhos

Foz do Iguaçu não é apenas uma cidade brasileira; é o coração de uma metrópole transnacional, fazendo fronteira direta com cinco cidades de dois países vizinhos. No Paraguai, conectam-se Ciudad del Este, Presidente Franco, Hernandárias e Minga Guazú. Do lado argentino, encontra-se Puerto Iguazú. Esta configuração geográfica singular cria uma área com aproximadamente 1 milhão de habitantes, onde as fronteiras são permeáveis e o fluxo de pessoas e bens é constante. Conforme observa o professor de Direito Internacional Gustavo Oliveira Viera, “é uma região que tem aproximadamente 1 milhão de indivíduos e é uma dinâmica que se faz de fato transfronteiriça”, destacando a natureza inerentemente internacional das interações e dos desafios enfrentados.

A intensidade desse movimento é impressionante e, paradoxalmente, um dos maiores facilitadores para atividades ilícitas. Diariamente, mais de 30 mil pessoas cruzam a Ponte da Fraternidade, que une Foz do Iguaçu a Puerto Iguazú, na Argentina. A Ponte da Amizade, ligando Brasil e Paraguai, registra um fluxo ainda maior, com cerca de 100 mil travessias por dia. Diante de tal volume, as autoridades locais reconhecem a inviabilidade de solicitar documentos para cada indivíduo que atravessa as pontes. Essa realidade exige uma abordagem estratégica que transcenda a fiscalização individual e se concentre em inteligência e tecnologia para aprimorar a segurança e o controle da fronteira. A ausência de um controle rígido e universalizado, embora compreensível pela logística, abre uma brecha significativa para a movimentação de criminosos e de materiais ilícitos, desafiando constantemente as forças de segurança.

A batalha contra o crime organizado e a vulnerabilidade humana

Do tráfico de drogas ao descaminho: estratégias de combate e prevenção

O intenso tráfego nas fronteiras de Foz do Iguaçu é incessantemente explorado por organizações criminosas para uma vasta gama de atividades ilícitas. Entre elas, o tráfico internacional de drogas se destaca, com incidentes que revelam a audácia dos infratores. Em uma ocorrência recente, um homem de 28 anos foi flagrado transportando 3,6 quilos de maconha em um ônibus de linha que partira do Paraguai, atravessando a fronteira brasileira à luz do dia. Esse tipo de operação evidencia como a rotina dos transportes públicos é utilizada para camuflar o crime, misturando-se à massa de passageiros.

No entanto, nem todo crime fronteiriço envolve substâncias ilícitas. Crimes considerados de menor gravidade, como contrabando e descaminho, são os mais prevalentes na região. O contrabando refere-se à entrada de mercadorias proibidas no Brasil, enquanto o descaminho ocorre quando produtos permitidos adentram o território nacional sem o devido pagamento de impostos. Apesar de parecerem menos alarmantes, esses delitos estão intrinsecamente ligados ao crime organizado e à lavagem de dinheiro. A auditora da Receita Federal Carolina Morimoto explica a profundidade dessa conexão: “O contrabando e o descaminho estão muito associados com o crime organizado e a lavagem de dinheiro. Eles são quase indissociáveis.” Morimoto revela ainda que o descaminho, em particular, pode ser “talvez até mais rentável do que o tráfico de drogas”, citando cargas de celulares que podem atingir valores de R$ 5 milhões.

Para combater essa complexa rede de ilícitos, as autoridades brasileiras têm investido pesadamente em inteligência e capacitação. O auditor da Receita Federal Daniel Messias Linck aponta: “Nós temos investido em inteligência e no treinamento dos servidores em relação à linguagem não verbal”. Essa estratégia visa aprimorar a capacidade de identificação de perfis suspeitos sem depender exclusivamente da inspeção de documentos. O uso de tecnologia de ponta e a análise de dados comportamentais complementam as ações de fiscalização, permitindo que as equipes de segurança sejam mais eficazes na interceptação de atividades criminosas, desde grandes carregamentos até as pequenas operações que, somadas, causam grande impacto econômico e social.

A face mais cruel: tráfico humano e a proteção de crianças

Além dos crimes relacionados a mercadorias e drogas, a fronteira de Foz do Iguaçu é também um palco para crimes de uma natureza ainda mais grave e desumana: o tráfico de seres humanos. Essa modalidade criminosa explora a vulnerabilidade de indivíduos, muitas vezes com promessas enganosas de trabalho ou uma vida melhor em outro país. O auditor da Receita Federal Daniel Messias Linck descreve o perfil das vítimas: “São casos que têm um perfil. Geralmente são pessoas que não sabem dizer exatamente para onde estão indo e que têm uma característica de muito medo”. A identificação desses casos requer uma sensibilidade aguçada e um treinamento específico em comunicação e observação, como o foco na linguagem não verbal, para que os agentes consigam discernir sinais de coação ou engano.

O combate ao tráfico de crianças é particularmente delicado e exige um cuidado multidisciplinar e uma coordenação exemplar. Em Foz do Iguaçu, uma força-tarefa que une órgãos públicos e a sociedade civil tem trabalhado em conjunto, colhendo frutos significativos. A abordagem colaborativa é fundamental para lidar com as complexidades que envolvem a proteção de menores, desde a identificação de riscos até o resgate e a reintegração social. No Paraguai, um casal de missionários, Jacob e Nathaly Schaafsma, exemplifica o trabalho vital realizado por organizações não-governamentais. Jacob, de nacionalidade holandesa, explica que o apoio às famílias é uma forma crucial de prevenção: “Nós ajudamos famílias com comida, educação e medicamentos, porque, quando estão bem, elas não são tão suscetíveis ao tráfico”. Sua esposa, Nathaly, de origem venezuelana, complementa: “Queremos prevenir essa situação com famílias vulneráveis ou disfuncionais. Já tivemos casos de pais e avós que vendem crianças”. Essas ações de base, que fortalecem as comunidades e reduzem a vulnerabilidade social, são pilares essenciais na luta contra o tráfico.

Um fator que agrava a situação e serve como “prato cheio para os criminosos” é a falta de documentação. A ausência de registro civil torna crianças e adultos invisíveis para o sistema, facilitando sua exploração. Um caso comovente é o da neta da dona de casa Cândida Sanabria. A criança, chamada Abigail, só conseguiu ser registrada oficialmente com quase três anos de idade, e isso apenas depois de ser adotada pela família de Cândida. “Abigail é tudo para mim. É minha companhia e minha alegria”, compartilha Cândida, ilustrando o impacto transformador da formalização da identidade e o amor que pode superar as adversidades. A luta pela documentação é, portanto, uma frente importante na proteção contra o tráfico e na garantia dos direitos básicos de cidadania na fronteira.

Perspectivas futuras: a contínua luta por segurança e desenvolvimento

A complexidade da tríplice fronteira de Foz do Iguaçu, com seu imenso fluxo de pessoas e mercadorias, exige uma vigilância constante e uma adaptabilidade contínua por parte das autoridades e da sociedade civil. Os desafios impostos pelos crimes transfronteiriços, que vão do tráfico de drogas e o descaminho à gravidade do tráfico humano, refletem uma teia intrincada que demanda não apenas repressão, mas também prevenção e apoio social. A inteligência, a tecnologia e o treinamento especializado são ferramentas indispensáveis no combate aos criminosos que exploram a dinâmica da região. Contudo, é a colaboração entre governos, forças de segurança e, crucialmente, o engajamento de comunidades e organizações humanitárias, que realmente fortalece a resiliência da fronteira. A luta em Foz do Iguaçu é multifacetada: não é apenas contra a criminalidade, mas pela dignidade e segurança de cada indivíduo que habita ou transita por essa área tão estratégica e vibrante. As estratégias futuras devem continuar a aprimorar a capacidade de resposta, ao mesmo tempo em que investem em soluções sociais que diminuam a vulnerabilidade das populações fronteiriças, construindo um futuro mais seguro e justo para todos.

Perguntas frequentes sobre a tríplice fronteira

Quais são os principais desafios de segurança na tríplice fronteira de Foz do Iguaçu?
Os principais desafios incluem o combate ao tráfico de drogas, o descaminho e contrabando de mercadorias, o tráfico de seres humanos (especialmente crianças) e a dificuldade de fiscalização devido ao altíssimo fluxo de pessoas e veículos nas pontes internacionais.

Como as autoridades brasileiras combatem crimes como tráfico humano e descaminho na região?
As autoridades, como a Receita Federal e a Polícia Federal, investem em inteligência e tecnologia, treinamento especializado em linguagem não verbal para identificação de perfis suspeitos, e atuam em forças-tarefa multidisciplinares com órgãos públicos e a sociedade civil, especialmente no caso do tráfico de crianças.

Qual o papel da sociedade civil e de organizações não-governamentais na prevenção do crime na fronteira?
Organizações não-governamentais e missionários desempenham um papel vital ao oferecer apoio direto a famílias vulneráveis, fornecendo comida, educação e medicamentos. Essa assistência reduz a suscetibilidade dessas famílias a serem alvos de criminosos, atuando como uma importante frente de prevenção social.

Por que o descaminho e o contrabando são tão prevalentes em Foz do Iguaçu?
O descaminho e o contrabando são prevalentes devido ao volume massivo de pessoas e mercadorias que cruzam as fronteiras diariamente, tornando inviável uma fiscalização individual detalhada. Além disso, esses crimes são vistos pelo crime organizado como altamente rentáveis e interligados à lavagem de dinheiro.

Para entender mais sobre a dinâmica dessas regiões e as estratégias em desenvolvimento para fortalecer a segurança, explore nossos outros artigos sobre segurança pública e relações internacionais.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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